Minerbo aponta a felicidade como sendo um tema tradicionalmente da filosofia, disciplina que aborda o termo com relação ao amor e a sabedoria. Já o sentido abordado pela autora é psicanalítico:
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Comentando "Notas sobre aptidão à felicidade" de Marion Minerbo
Minerbo aponta a felicidade como sendo um tema tradicionalmente da filosofia, disciplina que aborda o termo com relação ao amor e a sabedoria. Já o sentido abordado pela autora é psicanalítico:
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
A SUBSTÂNCIA
Vi muitas pessoas comentando e fazendo análises e críticas interessantíssimas sobre esse filme que, para o bem e para o mal, chegou chamando a atenção de todo mundo e se tornou meu favorito do ano.
Inicio citando as palavras do psicanalista Fabio Belo, que classificou "A Substância" como um "mito contemporâneo de primeira grandeza", frase que gostei muito porque define bem esse filme: "um mito", que assim como todo mito, tem seus exageros, mas se conecta ao real e transmite algo do real. "contemporâneo", porque o enredo do mito tem tons de pós-modernidade, com a objetificação do corpo feminino, a exaltação da juventude e desvalorização da velhice (especialmente para as mulheres), o culto a perfeição e a performance, o endeusamento da "melhor versão"... esses mitos em alguma medida servem a manutenção da hegemonia do pensamento neoliberal ao redor do globo, e têm sido suporte para identificação em massa porque estão em todos os lugares, nas lojas, nos outdoors, nas redes que hoje são acopladas ao corpo..."de primeira grandeza" porque nos aspectos técnicos é realmente uma obra prima. Roteiro, fotografia, som, montagem, edição, tudo absolutamente impecável. É um filme com pouca fala, então a história nos é contada principalmente através de imagem, som e atuação, e que atuação meus amigos... Demi Moore e Margaret Qualley estão sensacionais.
Fabio fez uma leitura kleiniana do filme, interpretando Elisabeth como alguém em uma posição esquizoparanóide, que divide o mundo em bom e mal porque não há integração. A "cisão" da protagonista é literal. O "mal" é literalmente projetado para fora, retornando como ataque persecutório.
Eu vi críticas muito boas ressaltando o quanto o filme explora os imperativos estéticos inalcansáveis de nosso tempo, que atingem principalmente as mulheres por N razões que não caberiam aqui. Também vi análises psicológicas a partir de perspectivas variadas e tudo isso mostra como "A Substância" é uma obra com muitas camadas e diversas possibilidades de leitura e análise.
A minha leitura é sempre complementarista: posso olhar para os aspectos socioculturais do filme assim como para os aspectos psicológicos, mas não que essa divisão realmente exista, a não ser dentro de mim para poder organizar o pensamento, e o que quero dizer com esse comentário é que, o que é individual ou inato e o que vem "de fora", nas questões exploradas em “A Substância”, é um emaranhado indefinível e multideterminado.
Então nisso que "viria de fora", do contexto sociocultural de nosso tempo, temos o culto a juventude, a "melhor versão de si" e os padrões estéticos irreais e perfomáticos, disseminados pelas redes e alcançando todo o globo... agora, porque os sintomas de Elisabeth especificamente se expressaram por essa via, não é algo explicável somente a partir do contexto histórico, pois se fosse o caso, todas as mulheres do mundo sofreriam do mesmo que ela. Para entender mais sobre isso, seria necessário conhecer também o contexto familiar de Elisabeth, como ela viveu e como foi recebida por seu primeiro ambiente, qual era a dinâmica e o funcionamento ali.
Quando pensamos em Winnicott e sua teoria do amadurecimento, a não-integração tem que ver com traumas precoces, ocorridos ali nos primeiros meses de vida e que impedem que o bebê desenvolva seu potencial para o amadurecimento. A integração do Eu é um processo lento e extremamente delicado, que se inicía no começo da vida, se consolida um pouco mais ao final da primeira infância, se estende pela adolescência e de certa forma nunca está completo porque na melhor das hipóteses, continuamos tendo novas experiências e integrando-as ao nosso Eu.
Se eu puder usar livremente minha imaginação posso pensar que, Elisabeth sofreu um trauma precoce que a lançou em um padrão de defesas psicóticas, impedindo a integração do Eu. Um falso-self psicótico surgiu dessa cisão e se agarrou a fama, porque ela serviu como suporte transferencial a mãe-absoluta, ofertando a Elisabeth aquele olhar, o espelhamento que tanto se necessita no processo de integração...
O olhar de deslumbramento que a indústria e a fama lançam sobre Elisabeth é o olhar deslumbrado que um ambiente facilitador (que são os pais ou quem ocupe esse lugar) lança sobre seu bebê e que devolve ao bebê uma imagem mais inteira dele mesmo, acalmando-o diante de seu caos interno e contribuindo para seu processo de integração.
Elisabeth se torna adicta da juventude e da beleza não à toa, mas porque esses se tornaram representantes de um olhar que, por alguma razão, ela pode não ter vivido/recebido, permanecendo no caos. A fama entrou dando algum contorno a esse caos, alguma borda para que ao menos o falso-self de Elisabeth pudesse existir.
Ela não criou outros vínculos e não se desenvolveu de outras formas porque em sua ilusão psicótica, não precisava investir em mais nada além de seu objeto onipotente "fama", já que essa deveria lhe garantir sustentação e gratificação eterna...
... até que essa fama deixa de existir e o falso-self psicótico de Elisabeth não dá mais conta de suportar a angústia no aparelho psíquico, Elisabeth se fragmenta. Primeiro em Sue, depois em um monstro, depois em partes do monstro que vão se despedaçando até seu derradeiro fim.
A divisão em termos de psicose difere muito da neurose... nós todos somos seres divididos, e a divisão nos assombra quando nos obriga a escolher isso ou aquilo, em alguma medida ela nos acompanha a cada esquina e sofremos com ela.
Enquanto na neurose, o sujeito é divido, mas mantém certa noção de inteireza, que o lança na dúvida consciente, na psicose não existe dúvida, só existe certeza. O psicótico não questiona sua sanidade, assim como a versão monstro de Elisabeth, não reflete sobre a loucura de seu comportamento ao final: a expectativa de conseguir se apresentar mesmo estando daquele jeito mostra o quanto naquele momento de extrema fragmentação e psicose, não havia mais nenhum senso de realidade.
Então até aqui, essa é mais ou menos a leitura que me veio sobre esse filme body horror sensacional, que suscita tanto debate, tanta análise, tanto comentário, não sem razão, mas por ser mesmo uma obra complexa, cheia de camadas e possibilidades de reflexão. ABSOLUTE CINEMA
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Sobre os efeitos de uma análise...
Eu passei alguns anos estudando psicanálise na faculdade, mas sem fazer análise. Disse a mim mesma muitas vezes, que não era uma possibilidade naquele momento, tanto por questões de tempo e também financeiras. Hoje eu continuo achando que realmente, não era uma possibilidade, mas não pelas mesmas razões...
Não era uma possibilidade porque narcisicamente, eu não podia admitir uma porção de coisas sobre mim.
E é aqui que visualizo um dos maiores efeitos do meu processo analítico até aqui.
O furo na imagem idealizada de mim mesma. A quebra na imagem de alguém que se achava suficiente demais, boa demais, esperta demais...
"Oh Jessica, você tá dizendo que sua maior conquista na análise foi descobrir-se uma pessoa pior?"
Sim.
Foi como tirar um peso que sugava minhas energias e me limitava de muitas formas.
Que alívio a realidade...
Pois tratou-se somente de descobrir algo do real: eu só poderia mesmo ser uma pessoa "pior" comparando àquele ideal que eu tinha na minha cabeça.
Tinha muitas certezas, sobre mim e os outros. Era taxativa.
Minha forma de me expressar vinha sempre carregada de impositivos e juízos de valor... não que eu tenha acabado com isso em mim, até porque isso é impossível, mas posso dizer que a coisa se desdobrou um bocado, se complexificou, se ampliou, ganhou profundidade, graças processo analítico.
Na lógica mais neurótica, eu me angustio lendo uma página que não entendo completamente, me repetindo até achar que entendi tudo ou simplesmente desistir. Acho que tenho que pegar tudo de primeira, se assim não for, tem algo errado. A lógica do tudo ou nada, na qual tantas vezes ficamos...
Já em uma lógica mais analisada, eu vou ler um texto, entendendo que algumas coisas dali vão ficar mais ou menos registradas, eu vou precisar continuar conversando com essas ideias, através de outros textos, pessoas, situações, através da arte... aí eu vou formar uma ideia um pouco mais complexa sobre aquilo que peguei no primeiro texto e essa ideia vai continuar sofrendo alterações de acordo com o percurso da minha vida até o final dela...
Mais neurótica = tudo ou nada. Mais analisada = meio termo, complexidade, noção de limites, finitudes...
É a partir do processo analítico, que eu posso realmente sentir no meu mais íntimo ser, como que olhar profundamente, para as coisas e principalmente para si mesmo é algo doloroso, incrível, angustiante, surpreendente, alivia-dor, transforma-dor, trabalhoso e tantas outras coisas.
Sentir isso foi e é, fundamental para que eu possa acessar algo do humano que me possibilita olhar além do que é visto, o que por sua vez me permite viver do que eu amo, amando do que vivo...
É o que me possibilita olhar o belo e o horror que nos habita... só que, quando olhamos bem, não é tão belo nem tão horrível quanto achávamos que era... só que pra ver isso tem que olhar bem.
Se reparar na análise, durante uma hora inteira a cada semana, ter que dar conta de se ouvir, às vezes, como no meu caso, é difícil justamente porque não somos um alecrim dourado como na melhor das hipóteses, acreditamos ser um dia.
Estudar e intelectualizar por si só, jamais me faria sentir isso... nada se compara a experiência de ter que falar em análise.
A análise é uma experiência que me vulnerabiliza, me coloca em contato com o mundo emocional, com a complexidade dos sentimentos humanos, com tudo aquilo do qual intelectualmente eu fugia sem perceber, mas que consegui me obrigar a enfrentar quando escolhi trilhar esses caminhos psicanalíticos...
E que bom que escolhi e continuo escolhendo enfrentar.
Porque é o tipo de dor que precisa ser vivida para se chegar em outro lugar. Como a dor de puxar o ferro para ter mais saúde física. Sem uma coisa não tem outra.
Escolher envolve perder...
E cada escolha vem com suas inevitáveis e imprevisíveis consequências, e a única certeza é a de que, em cada uma delas, faltará... nenhuma trará completude ou será fácil, nenhuma trará felicidade eterna e sem limites. Todas virão com suas renúncias... e a que estamos dispostos a renunciar? Eis uma pergunta de milhões que vive aparecendo em análise...
Passei um bom tempo sem escrever porque estava com dificuldades com a falta. Começava e aí me vinha tanta coisa que queria colocar... eu paralisava porque não caberia tudo.
Continua não cabendo.
Porque não existe falar de tudo que pode ser falado.
Porque sempre haverá mais a ser dito.
Porque, parafraseando Saramago, caberá sempre muito mais palavas no texto do que somos capazes de colocar!
Uma forma que encontrei de lidar um pouco com isso foi colocando observações repetitivas como as que colocarei agora, em vias de finalizar esse texto: 1) não passei nem perto de trazer aqui todos os efeitos dos meus anos de análise, nem tenho consciência de todos eles e 2) falo da minha experiência e nenhuma mais. E cada um que se entregar a esse processo, poderá sentir as próprias dores e delícias dele, que não serão iguais as minhas nem de mais ninguém (solidão! (eita que aqui já se abririam outros desdobramentos da análise... rs))
As observações que se repetem, vem para retomar a singularidade das coisas, a finitude e a limitação delas, para relembrar, a mim e ao leitor, da importância de ir além do que está posto, de não tomar nada como regra geral ou como algo que se encerra em si mesmo.
Isso quer dizer que esse texto não é uma lei do que deveria ser efeito de uma análise, mas um recorte que fala de um processo único, por definição, irrepetível.
Um recorte que me ajuda a visualizar esses efeitos, e que pra ser sincera, poderia estar guardado só para mim, mas que compartilho porque é também um recorte que visa provocar: curiosidade, angústia, desejo pela análise... não só porque trabalho com isso, mas porque é satisfatório mesmo provocar rs
terça-feira, 15 de outubro de 2024
Ser melhor pra quê?
"Aprofundar-me em mim mesmo,
não para ser melhor,
mas para ser quem sou." Lucas Lujan
Por vezes, algo que parece óbvio, não é... costumamos dizer aos 4 ventos que queremos ser melhores que ontem e normalizamos isso sem questionar, mas acho que podemos sim nos perguntar sobre isso de "ser melhor"... que raios afinal isso significa?
Me é estranho pensar por exemplo, que a Jessica de 31 anos é "melhor" que a Jessica de 21, ou de 11, só porque, "sabe mais e tem mais coisas". Pra mim, ela não é melhor ou pior, ela é diferente. Talvez maior, no sentido de ter tido mais experiência, mas não melhor.
Eis o meu ponto, não sou melhor que ontem e isso pra mim não existe.
Primeiro que, sei pouco disso que eu sou, sou um emaranhado de coisas. Em contante interação com o que me acontece... ora se ampliando, ora regredindo. Ora acertando o ponto da carne, ora me apressando ou deixando passar... com sorte, vou continuando e é isso.
Se desenvolver, conquistar coisas, aprender coisas, tudo isso é bom e desejável, mas isso não nos torna MELHORES, na melhor das hipóteses nos torna maiores, nos amplia, nos desdobra...
Eu tô falando aqui do ranço que passei a ter dessa palavra ao longo do tempo...
Melhor tem uma conotação moral, meritocrática, coach vibes... se posso dizer que sou melhor que ontem, posso dizer que sou melhor que outra pessoa, quando na verdade, o que tive foi a sorte de poder me ampliar.
Sem as condições ambientais para que eu possa continuar na vida, eu não sairia do lugar. É verdade que, com sorte, dependemos cada vez menos, mas nunca deixaremos de depender, dos outros, das circunstâncias, e o que foge do nosso controle é sempre maior do que aquilo que controlamos, então sim, sorte.
Me embala essa reflexão uma aula do professor Pedro Heliodoro, em que ele fala sobre o mal-estar social e a clínica contemporânea, articulando autores psicanalíticos com autores de outras áreas, Heliodoro demonstra como algo do sofrimento humano vem se transformando ao longo do tempo, saindo de um funcionamento mais neurótico em direção a um funcionamento perverso, de negação da castração.
Conforme ele coloca, estamos saindo um tanto do modelo de poder como permissão e caminhando para um modelo de poder como capacidade.
Antes não podia porque era proibido, agora é porque você é incapaz.
Da culpa à vergonha.
Eis um importante marcador do sofrimento contemporâneo que me chamou a atenção na fala de Heliodoro.
Tenho recebido cada vez mais notícias disso, na vida, na clínica, onde costumo escutar meus analisandos falarem de dores muito características desse nosso tempo... uma vergonha por não ter isso ou aquilo, uma vergonha profunda, que se estende para o ser que se é e vira combustível de inibições, ansiedades, falso-self...
Para Heliodoro, o consumismo exacerbado, o culto ao corpo fantástico, a busca por fama nas redes sociais, o uso da religião na demonização do diferente, o boom de diagnósticos e a farmacologia, têm sido formas de buscar alívio para o mal-estar contemporâneo.
O mal-estar contemporâneo de não conseguir nunca alcançar esse "melhor", porque ele não existe, é da ordem do impossível.
A manutenção desse mal-estar é fundamental para a manutenção das próprias forças hegemônicas. O neoliberalismo precisa que o sujeito se aliene dessa forma, e que acredite que se ele não consegue algo é porque ele não fez por merecer, já que é sua única e exclusiva responsabilidade "vencer ou fracassar" e mais ninguém tem nada a ver com isso. Quem fala com profundidade sobre esse tema (e tantos outros), é o professor e psicanalista Vladmir Safatle, um autor que gosto e indico para quem tem interesse em compreender mais dessas relações entre os modelos sociais e as formas de sofrimento psíquico.
O pensamento religioso costuma ser tão perigoso aqui e por isso acaba sendo cooptado por setores que também compõe as engrenagens que fazem essa roda girar. É o tipo de pensamento em que há os que vão defender que, tem quem nasce ruim, tem quem nasce perdido, tem quem nasce com muito para resgatar, tem quem está possuído pelo demônio... e então sim, tem quem seja "pior" e tem quem seja "melhor". Recorrer ao pensamento místico para não elaborar questões complexas é compreensível, e justamente por isso, acontece muito e de muitas formas.
Partindo de uma perspectiva complementarista, penso que são várias as lentes e olhares que podemos usar para nos aproximar desses fenômenos contemporâneos.
Trouxe ali uma visão estruturalista, que fala de uma negação da castração e um funcionamento perverso, mas também poderia trazer uma perspectiva desenvolvimentista e apontar para severas falhas ambientais que vem produzindo um certo tipo de sofrimento narcísico profundo...
A partir desses e tantos outros pontos, venho tentando (o que significa nem sempre conseguindo), não alimentar em mim e ao meu redor, esse tipo de veneno corrosivo que é a ideia tentar ser melhor sempre... e a coisa parece caminhar mais leve quando consigo me desprender um tanto disso.
Mais leve para mim, mais leve para os outros que me acompanham...
Estamos todos fazendo o que podemos com aquilo que temos no enfrentamento dessa louca vida. Tudo que fazemos não fazemos sozinhos, somos dependentes, e pouco controlamos. Então se fazemos o que fazemos, e conseguimos o que conseguimos, nada disso é SÓ por nossa causa, nosso único mérito ou demérito, porque viver é coletivo.
terça-feira, 1 de outubro de 2024
O QUE ESPERAR DE UMA ANÁLISE?
Pra começar, o óbvio e o que na minha opinião se espera de qualquer tratamento psicológico: um espaço seguro de escuta e acolhimento, onde é possível refletir, questionar, construir novos caminhos e diferentes formas de viver.
Um lugar livre de preconceito e juízo de valor, ofertado por um profissional cuidadoso que na medida do possível, permanece em constante formação.
A falar específicamente do tratamento psicanalítico, podemos discorrer mais.
(E como a psicanálise é imensa e comporta várias linhas teóricas, friso que escrevo aqui da psicanálise que faz sentido à partir da minha experiência com ela.)
Eu vejo a análise como um processo muito artesanal, ou seja, cujos rumos e intervenções vão sendo construídos no caso a caso, então não há como generalizar o tipo de experiência que podemos esperar desse processo.
Mas há um tipo de generalização que me parece fazer sentido nesse momento, e diz respeito a isso que se pode esperar de uma análise, que são as duas grandes formas de subjetividade descritas por André Green como neurose e não-neurose.
No Brasil, a psicanalista Marion Minerbo aborda esse tema especialmente em seu livro "Neurose e não-neurose" de 2019, que recomendo muito a todos que quiserem saber mais sobre essa proposta dentro da psicopatologia psicanalítica,
Em linhas muito gerais, o sofrimento neurótico estaria ligado a questões edípicas, enquanto o sofrimento não-neurótico estaria ligado a questões narcísicas. Não dá pra dizer que um "sofre mais" que outro, são sofrimentos diferentes, com origens diferentes.
Caminhando nesse sentido, entendo que, o que o neurótico e o não-neurótico podem esperar de uma análise é bastante diferente também.
O neurótico sofre porque sabe demais de si mesmo. Por isso está preso nos próprios enredos imaginários.
O não-neurótico sofre porque sabe de menos de si mesmo. Os enredos, quando existem, são esburacados demais. O Eu mal existe.
O neurótico chega "organizado demais" o não-neurótico "organizado de menos".
A rede de representações bem construída do neurótico precisa ser furada na análise, para que ele consiga romper com essa forma única de existir que lhe causa sofrimento.
A rede de representações do não-neurótico mal foi construída, e a análise pode ser então um dispositivo que promova a construção dessa rede.
Enquanto com o neurótico, o analista aparecerá muito pouco, ficando mais em silêncio, interpretando e questionando, buscando os furos na narrativa, provocando a angústia que o analisando suporta e precisa enfrentar, o analista com o não-neurótico aparecerá muito mais, responderá mais, falará mais, emprestando seu ego como auxiliar, e se adaptando as necessidades ambientais tal como o ambiente inicial do analisando não se adaptou.
Eu Jessica diria ainda que, pensando em termos de posição como propôs Klein, penso que há momentos em que uma pessoa pode estar mais neurótica e outros em que pode estar mais não-neurótica. Em termos bionianos, poderíamos pensar também nas partes neuróticas e psicóticas da mente que, segundo o autor, todos nós possuímos.
É importante pensar nisso para fazer uma "leitura da sessão" da melhor maneira possível e a partir daí construir o manejo. A partir do funcionamento que está sendo apresentado ali, na particularidade daquele dia, é que se pode construir a intervenção mais adequada aquele momento específico.
Isso quer dizer que, num momento da análise, em que o paciente está mais não-neurótico, o analista oferta um certo tipo de cuidado em que sua figura aparece mais, já em outro momento, da mesma análise, o paciente pode estar mais neurótico, e o analista ofertará então outro tipo de cuidado, em que sua figura aparece menos.
O que cada análise pode produzir é infinito, agora, o que cada um irá esperar de uma análise?
Aí vai depender do sintoma rs
No nível consciente, uns irão esperando encontrar um ouvido atento que testemunhe sua história, ou alguém que lhe oferte soluções para todos seus problemas, outros esperam poder se conhecer melhor ou se autorizar como analista...
Isso que se apresenta como uma demanda consciente do que se espera, quando analisado, pode apontar para muitas outras direções incluindo a posição em que o analisando se coloca e coloca os outros de sua vida.
Então isso que se espera, também é material para análise.
Você pode esperar o que quiser e o que você espera diz de você.
A forma que se recebe o ofertado também diz.
Isso não quer dizer que o analista não tem nenhum papel no desenrolar desse processo e na forma como as coisas vão ou não sendo construídas, muito pelo contrário.
Se o analista não está em constante formação e análise, não consegue sustentar a longo prazo esse "lugar não-lugar" na vida de seu analisando.
Há um imenso trabalho sendo feito para tornar possível o trabalho de manter a sensibilidade clínica, de escutar o inconsciente, "ler a sessão", captar a necessidade de cada momento da análise e a partir daí conduzir o manejo.
Então talvez a gente possa pensar que, é possível esperar isso.
Um profissional em constante formação, orientado por essa ética analítica do inconsciente e que não tem nenhum saber prévio sobre nós.
Podemos esperar enfrentar um desafio.
O desafio de estar na presença de um Outro numa relação que evidencia a nossa própria presença.
Cujo foco está em um polo da relação.
Esse é o tipo de enquadre que não podemos esperar em quase nenhum outro lugar ao longo da vida e uma das coisas que torna a análise tão preciosa.
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Experimentar a si mesmo
"Você nunca será capaz de experimentar tudo. Então por favor, faça justiça poética a sua alma e simplesmente experiemente a si mesmo". Albert Camus
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Vi essa frase por aí e achei bonita, e então passei a tentar elaborar uma resposta para perguntas que me emergem dela:
E o que seria isso de experimentar a si mesmo?
(E tem como NÃO experimentar a si mesmo?)
A primeira coisa que me vem é que, sim, tem como não experimentar a si mesmo.
Da perspectiva que eu parto, isso que chamamos de "si mesmo", o EU, não é dado à priori.
No começo da vida, não existe um Eu e demora um tanto para que ele comece a realmente existir.
A gente costuma brincar com perguntas como: "qual sua lembrança mais antiga? desde quando você lembra que existe?"
E Winnicott fala desse momento em que nos damos conta: "EU SOU!"
E o que acontece é que esse momento é fruto de uma conquista maturacional, não está garantido que irá ocorrer e não ocorre para muitos de nós.
No início só existe um corpo, cheio de pulsões e necessidades que precisam ser atendidas para que esse corpo possa construir um EU.
O eu é uma construção. Simbólica. Fruto da capacidade de se pensar, pensar o mundo, sentir, organizar, conter...
Capacidades que podem ser mais ou menos desenvolvidas a depender do ambiente que recebe e cuida.
Quando as necessidades básicas para essa construção do EU não são atendidas, o si-mesmo não realiza seu potencial de ser.
O que chamamos de trauma na psicanálise winnicottiana, diz daquilo que interrompe a continuidade do Eu.
O EU ali em pleno desenvolvimento, armazenando em si aquilo que irá permitir que ele pense, simbolize, compreenda, viva... é interrompido em sua primordial missão. Precisa se defender para tão somente sobreviver e nada mais.
Não dá para dizer que um EU que se desenvolve precisando se defender o tempo todo se perceba e viva a si mesmo da mesma forma que aquele que passou por poucas falhas e teve sua existência garantida na maior parte do tempo...
Então é preciso cuidar das necessidades para amadurecer um tanto e aí então poder criar o si-mesmo (o verdadeiro).
Então nem todo mundo experimenta a si-mesmo o tempo todo.
E eu também não acho que precisa ser assim, um pouco de loucura é necessária, não sou do time 100% nada, mas acho interessante que na maior parte do tempo ao menos, possamos saber o que somos e viver o máximo de acordo com isso...
Ser o que se é, experimentar o si mesmo, não são coisas que nascemos sabendo fazer e se não tivermos ajuda num primeiro momento, é bom poder contar com essa ajuda no depois... para mim, a psicanálise parece ser um desses instrumentos que auxiliam nesse caminho...
Reitero ainda que não existe SIMPLESMENTE ser.
Ser, como vocês puderam perceber, não é algo simples...
Referências:
WINNICOTT, D. O brincar e a realidade. Editora Ubu.
quarta-feira, 21 de agosto de 2024
"A natureza da mordida" - breve resenha à partir de um olhar psicanalítico
Terminei recentemente a leitura do segundo livro da autora brasileira Carla Madeira, e me pareceu ser uma boa ideia escrever sobre isso, até como tentativa de elaborar o mar de emoções que me atravessaram ao longo da leitura.
Gostaria de começar com uma breve sinopse, para mais adiante, numa parte com spoilers, poder falar um pouco mais de minhas impressões pessoais.
"A natureza da mordida" é uma história narrada por duas personagens: uma jovem jornalista e uma psicanalista aposentada que está sofrendo com demência.
As duas se conhecem em um sebo charmoso num domingo bonito, e a história se desenrola em torno da amizade das duas, com cada uma contando a outra, sobre suas dores da vida.
Uma atmosfera de mistério logo se instala, porque o que realmente aconteceu com essas pobres almas não nos é dado tão as claras, e nos perguntamos angustiados diversas vezes ao longo da leitura, para onde é que estamos indo, até chegar no derradeiro fim...
Em resumo, essa é a história.
E pra mim, o mais cativante nela é a forma como é contada.
Eu me descobri apaixonada pela escrita de Carla Madeira desde quando li seu primeiro livro "Tudo é rio", sobre o qual já escrevi alguma coisa no Instagram e que também me arrebatou(arrebentou) em muitos lugares, me levando a aquisição do segundo.
Eu amo como ela sobrepõe bem-mal, como seus personagens são cinzas e cheios de ambiguidades. Ela dá contornos de palavra a instintos e emoções tão vicerais que até então pareciam impossíveis de serem traduzidos.
No dia que terminei a leitura de "A natureza da mordida", assisti uma entrevista da Carla Madeira no Roda Viva, interessada em saber mais dessa mulher com escrita tão cativante. E nessa entrevista ela fala algo sobre como a literatura tem um poder de organizar em palavras algumas coisas que só existem de forma muito caótica dentro de nós.
E eu achei isso muito bonito. E muito verdadeiro.
Carla especialmente, sabe fazer isso muito bem.
Ler Carla Madeira é ficar topando o tempo todo com verdades sobre nós mesmos.
É possível ver algo nosso em qualquer direção que olhemos bem, mas Carla escreve de um jeito que impossibilita não olhar, não ver... a gente vê e vê bem, vê com várias outras lentes, o horror e o belo e o mediano...
Gosto e me identifico com a escrita dela, cheia de frases muito potentes e repletas de significado, que se entrelaçam e costuram histórias com muitas camadas, com muita profundidade, e de uma forma única e capaz de nos capturar de maneiras muito diferentes.
Cito um trecho do início que ilustra bem o que me atraiu no escrever de Carla:
Desculpe-me, tenho pensado muito na morte... inevitável diante do tempo corrido. Adiamos a ideia desse confronto o quanto podemos, mas só os mortos possuem todo o tempo do mundo e nenhuma consideração com os vivos. Não nos dão uma miserável pista do que devemos levar dessa para a melhor, uma vez que vamos sem as mãos. Talvez os mortos estejam mortos. Precisamos considerar esta possibilidade que tanto nos assusta: a morte pode mesmo ser o fim. E eu já não luto para introduzir no tempo de cada dia eternidades. Eu já não luto por coisa alguma. Sou uma avestruz deprimida. Tenho meu pequeno lote, onde enterro minha cabeça e no escuro do buraco me esqueço de tudo. Você acredita no escuro do buraco? [...] Acredita em um lugar absolutamente escuro, onde nada do que vemos pudéssemos ver? Quem me dera... não consigo apagar as luzes. É tão claro o que não tenho mais. (pág. 17)
E dando início as minhas próprias considerações do livro (com spoilers a partir daqui), eu diria que o fator identificação marca a minha relação com a obra, e acredito que pode ser assim com qualquer outra pessoa que se entregue a ela.
Quando leio as primeiras páginas, me encontro com dores conhecidas, me identifico e vejo a identificação acontecendo entre duas personagens que encarnam uma para a outra justamente as figuras que estão no pano de fundo de suas questões mais profundas (e das minhas! ((e de tantos de nós!!))
Carla não conta a história de duas mulheres aleatórias que se conheceram e vivaram amigas. Ela conta a história de todo aquele que já sofreu por alguma perda. Brusca. Implacável. Irreparável.
Carla conta a história de todo aquele que diante de um horror, paralisou.
Conta a história de todo aquele que errou por não saber fazer diferente e mesmo assim nunca se perdoou.
A história de todo aquele que em algum momento sentiu o amor e depois sentiu também esse amor indo embora...
Olhemos um pouco mais para uma personagem de cada vez.
Emma, (ou Biá, seu nome de louca) é uma psicanalista aposentada e sofrendo com demência. Vive com a filha Teresa, que acabou de se separar do marido. O pai de teresa, Téo, grande amor da vida de Emma, deixou as duas quando Teresa ainda era uma criança.
Foi-se embora sem avisar e sem deixar vestígios.
Embora Emma soubesse dos motivos de Téo, nunca contou nada para a filha, que passou anos imaginando e sofrendo com esse não-saber.
Penso que parte de Emma realmente tentou proteger a filha de saber do terrível motivo pelo qual seu pai foi embora, parecia acreditar que o "não-saber às vezes é o melhor lugar"... mas não consigo não pensar que alguma outra parte de Emma descarregava impulsos agressivos na filha, que embora sem ter culpa alguma, estava lá e tinha corpo, estava diretamente ligada a partida do pai...
Emma não pôde conter a própria agressividade, lidar com o ódio que sentiu da filha pelo que aconteceu, e se esconder e se omitir acabou servindo a mais a uma forma de agredir do que de proteger.
Penso que, se ela tivesse feito a escolha de não contar, mas tivesse se mantido realmente ali, viva, ao lado de Teresa, vendo a filha, os efeitos do que aconteceu poderiam ter sido bem diferentes.
Um acontecimento pode ser traumático, mas como se dará a elaboração e integração desse trauma está diretamente relacionado a maneira como se dará o cuidado dessa ferida. Os efeitos de um trauma são muito diferentes em quem precisa suportar uma dor sozinho do que e em quem conta com um suporte ambiental suficientemente bom.
Suficientemente bom é um termo winnicottiano que amo porque remete a ideia de que não é preciso perfeição, remete a ideia de que é inevitável e até necessário que em alguma medida haja falhas, faltas, mas isso até um limite e Emma parece ter ultrapassado um tanto esse limite com a filha.
Na velhice Emma desenvolve uma demência, que parece muito conveniente ao seu profundo desejo de esquecer.
Ela diz em alguns momentos que o difícil é desapegar do bom: "Fossem só dor as nossas lembranças, nos desapegaríamos" (pág. 11), e seguindo essa lógica, Emma deu um jeito de não se apegar a mais nada, se isolando do mundo, da filha, construiu um muro que a separava de todo o resto. Quem não se apega não precisa desapegar né?
E parece ter feito isso a vida toda, até antes de Téo, que a conheceu bem antes dela o conhecer, tão imersa ela estava em seu próprio mundo com seus livros. Imagino que Emma já tinha essa inclinação a introversão antes de Téo. Ela o deixou entrar, se envolveu com ele, mas não tanto, e mesmo assim, tomando esse cuidado de não conectar demais, quando o perdeu, parece ter perdido a vida...
Quando me pergunto, porque Emma não conseguiu seguir em frente, me vem o título do livro "A natureza da mordida"...
...não se trataria então da mordida em si, que nesse caso é o perder um amor, ser abandonada, mas sim da natureza da mordida, ou seja, as razões pelas quais essa perda e esse abandono aconteceram e que nesse caso, são razões realmente absurdas e chocantes.
Emma não podia deixar de saber do que sabia e essa era uma de suas grandes dores.
Mas não ter sido capaz de elaborar essa dor, de ir além dessa dor, deixando a filha tão sozinha, parece ter se tornado seu grande sofrimento no depois.
Olívia foi o suporte transferencial que Emma encontrou para realizar algum tipo de reparação com a filha.
Ela dizia em suas anotações "Ah como eu a via!", e era o que desejava ter conseguido fazer com a filha, vê-la.
Eu senti que através da relação com Olívia, Emma se redimiu. Viu e foi vista. Apoiou e recebeu apoio. Relacionou-se tal como gostaria de ter se relacionado com a filha...
Já do lado de Olívia, temos uma outra natureza da mordida que vem em complemento a de Emma.
A natureza do não-saber. Da eterna pergunta sem resposta.
Olívia perdeu o pai muito nova, e sua mãe Laura, que sempre foi especialmente bela, atraía com essa beleza todo tipo de conflito, um dos quais, descobrimos no final, esteve por trás da grande perda de Olívia.
Na infância, Olívia sofreu com o desprezo dos colegas do bairro (já por razão de um fofoca envolvendo sua mãe) e quando finalmente foi acolhida e VISTA por Rita, ganhou uma grande amiga, um grande amor, alguém com quem podia ser... (ao menos era assim que sentia, embora eu tenha cá minhas questões com Rita também... mas enfim) e a forma apaixonada como ela fala de seus momentos com Rita nos transmite a força desse afeto então quando vem o rompimento, tão repentino e sem explicações, nos identificamos com a dor e atordoamento de Olívia.
Ela foi a filha não-vista. A filha que não sabia o que aconteceu. E por isso Biá também lhe serviu como suporte tranferencial perfeito para elaboração das feridas de quem ocupou esse lugar.
A mãe que não viu com a filha que não foi vista.
Indiretamente contando uma para a outra e vivendo uma com a outra, tudo aquilo que gostariam de ter podido fazer bem antes desse mesmo encontro...
E esse encontro né... teria acontecido dessa forma não fossem as dores dessas duas e essas conexões?
Penso que não...
Poderiam ter se visto, se falado até, mas a coisa não continuaria, não daria seguimento, não fosse os lugares que cada uma ocupava dentro de si mesmas e as posições que representavam uma para a outra.
A gente encontra muita gente nessa vida... boa parte não fica, e as que ficam não ficam aleatoriamente.
Freud dizia que todo encontro é na verdade um reencontro...
Nada é mais verdadeiro nessa história de "A natureza da mordida".
E em que medida nossos encontros são também reencontros?
O que é isso que nos conecta a cada uma das pessoas das nossas vidas?
Acho que é tão interessantes refletirmos sobre essas coisas sabe... pra não caírmos nas narrativas simplórias que por vezes criamos para nós mesmos quando dizemos que "ah, não sei, só sei que foi assim!"...
Antes de finalizar vale ainda comentar uma questão que fica: saber ou não-saber, qual é o pior lugar afinal?
Essa pergunta me remete também a uma série que vi recentemente na Netflix, "Pedaço de mim", protagonizada por Juliana Paes, que interpreta essa mãe que também apostou no não-saber com o filho.
Para mim, tanto no livro da Carla quanto na série, é bastante claro que o não-saber tem um caráter mais destrutivo, apagador.
Não sei se dói menos ou mais que o saber, não sei se dá pra quantificar isso... mas acho que o não-saber tá mais para um buraco negro que para uma estrela... sugando as coisas para dentro, jogando elas no escuro para não olhar, não (re-)encontrar. Já o saber joga luz, ilumina, dá ao menos uma chance de construir caminhos, de seguir em frente, afinal de contas, uma página precisa ser escrita para poder ser virada...
Esse post é uma análise, uma exploração, uma elaboração e também um convite. Um convite a leitura, ao contato com Carla e sua escrita apaixonante <3











