Vi uma publicação no Instagram ontem que indicava séries sobre temas específicos, e entre essas indicações estava Califado, tendo a Síria como tema. Curiosa que sou pelo oriente médio de forma geral, fui correndo pra Netflix ver o primeiro episódio.
E foi assim, de primeira. Assisti três episódios ontem e os outros cinco hoje, finalizando a temporada em dois dias. A série sueca foi lançada em Março do ano passado, e é daquele tipo que te pega no primeiro episódio e te prende até o final.
Califado é um suspense dramático, que conta a história de 3 mulheres cujas histórias se cruzam por motivos interligados. Uma delas, Pervin, está morando na Síria e tentando fugir de lá com a filha de quatro meses. Ela consegue contato com Fatima, uma policial sueca que tentará ajudá-la a fugir, em troca de informações sobre um atentado terrorista que está para acontecer na Suíça. Enquanto isso temos Sulle (Suleika), uma jovem de 16 anos que está sendo cooptada pelo Estado Islâmico através de Ibbe, um soldado disfarçado do grupo terrorista.
No desenrolar desses conflitos, temos outros personagens como os irmãos Emil e Jakob, que foram recrutados pelo Estado Islâmico e irão fazer parte dos atentados planejados. Temos também Kerima, uma jovem amiga de Sulle, que sofre maus tratos em casa por conta de uma doença do pai, e que também está sendo recrutada por Ibbe.
É muito interessante ver essa história, porque além do suspense que paira o tempo todo no ar, deixando sempre aquele mix de curiosidade e medo do que está para acontecer, temos também uma história muito bem amarrada, que te leva de um ponto a outro da narrativa de forma progressiva e muito imersiva.
Atores muito bons entregam uma atuação perfeita de personagens complexos e bem desenvolvidos, que conseguem nos fazer sentir com muita veracidade seus dramas, dores, medos e conflitos existenciais.
Tudo isso somado ao fato da série tratar de temas polêmicos, como a guerra na Síria, conflitos de extremismos religiosos envolvendo o grupo terrorista Estado Islâmico, bem como a vulnerabilidade humana dessas pessoas que são absorvidas por essas ideologias violentas e autodestrutivas.
Não vou me alongar na descrição porque isso aqui é uma indicação e eu não vou dar spoilers, mas é interessante ressaltar, que para mim, enquanto profissional e estudante de psicologia, uma das coisas mais legais de se observar na série, é justamente essa condição humana de fragilidade, que torna possível algumas pessoas serem capazes de cometer atos totalmente insanos.
Muitas vezes olhamos para o noticiário e nos perguntamos, "como alguém pode se explodir, matando a si mesma e outros inocentes, em nome de Ala? Qual sentido disso?"
Pessoas em estado de sofrimento, que não se sentem aceitas, que sentem que suas vidas não têm sentido, normalmente adolescentes que já são assim devido a características próprias desse período da vida, são pessoas fortemente influenciáveis por grupos que se apresentem como os detentores da verdade. A mensagem é clara, se você não vê sentido na sua vida nós damos um sentido à você.
O frágil encontra força no grupo, passa a se sentir pertencente de algo, e isso dá um novo sentido a sua existência. Agora ele existe para defender o nome de Ala acima de qualquer coisa, mesmo que isso custe sua vida e a vida de outras pessoas.
Me parece que aderir a esses grupos, é uma forma de conseguir "permissão" para por em ato, instintos agressivos e autodestrutivos, sob a justificativa de estar lutando por um objetivo louvável. E acredito nisso porque não se trata da religião aqui, não é o que ela prega, mas como alguns fiéis interpretam. O Islamismo é uma das maiores religiões do mundo, e a imensa maioria de seus milhares de adeptos, se opõe fortemente a esse tipo de grupo extremista, ou seja, o problema não é o Islã, mas sim as pessoas. Friso isso para que não haja espaço para intolerância religiosa aqui: ser muçulmano não significa ser terrorista.
Então é isso, a indicação de hoje não é pra quem espera final feliz, ou qualquer coisa mais romantizada, ou hollywoodiana, mas sim para quem gosta se emocionar de várias formas, sentindo aflição, curiosidade, indignação, medo, refletindo sobre coisas desconfortáveis, que fogem do nosso cotidiano normal.
O paralelo que eu traço com a nossa realidade, é que na série, informações manipuladas, fake news, e teorias da conspiração, servem de instrumento para convencer pessoas vulneráveis a morrerem e matarem voluntariamente. No cenário que vivemos aqui no ocidente, com a pandemia do corona vírus, não é muito diferente né? Somos testemunhas de milhares de pessoas sendo influenciadas por teorias negacionistas de diversas ordens, colocando a vida de todos em risco, levando uma massa para a morte.