quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Comentando "Notas sobre aptidão à felicidade" de Marion Minerbo

Acabei de ler "Notas sobre a aptidão à felicidade" da psicanalista Marion Minerbo, e sou tomada pelo desejo de falar sobre a leitura, de continuar minha experiência com ela de alguma forma.

Penso, "vou escrever sobre isso" e aí sento para escrever sobre isso, então a angústia invade: "por onde começar? o que dizer? como eu entendi isso? como posso usar minhas palavras para descrever o que estou sentindo em relação a essa leitura?"

Preciso suportar e conter essa euforia seguida dessa angústia inicial. Preciso simbolizar a emoção que invade, metabolizar psiquicamente. Preciso acreditar que existe algum valor nessa transmissão, não só para mim, mas também para o outro que através do meu texto, entrará em contato com as ideias dessa autora... Preciso me autorizar a fazer o meu recorte do que Marion disse, entendendo que escrever esse texto, é um ato criativo e cheio de sentido para minha vida, pois encontro no estudo e na transmissão do estudo, um verdadeiro prazer, tanto narcísico, quanto objetal. 

E aí quando vejo, comecei minha escrita, já falando do que Marion fala nesse livro: os processos psíquicos que compõe a aptidão à felicidade.  

Escrever sobre esse livro me faz feliz. E para chegar nesse momento, precisei antes de tudo transferir para o livro (e para a autora) a imago de um objeto interno bom, de maneira a poder confiar e esperar algo de bom dessa leitura, para daí então, ver sentido e ter desejo de ler o livro, entrar em contato com ele, me deixar afetar por ele e por fim, me apaixonar por ele. Sinto que para fazer jus ao apaixonamento, preciso ir além da euforia que pulsa em meu coração. Preciso simbolizar (dar símbolo, palavra) para essa euforia, traduzi-la em: "eu estou apaixonada por esse livro! Quero falar sobre ele", o que me permite então pensar sobre isso e fazer a transformação da afetação em desejo: "vou escrever sobre isso". Para sustentar o desejo, realmente sentar e escrever sobre isso, também preciso projetar esperança no meu texto, acreditar no seu valor dentro de suas limitações. Vou ter que fazer recortes, escolhas do que vou falar ou não e como vou falar. Essas escolhas serão vistas pelo outro, e eu preciso aceitar emocionalmente que, vai ter quem goste, quem não goste e quem não dê a mínima. Se eu ficasse na expectativa onipotente de que ninguém poderia criticar ou não gostar do meu texto, não seria possível escrever, mas estar aqui escrevendo sobre isso, apesar de toda ambivalência envolvida, me faz feliz. 

De acordo com o que Marion traz nesse livro, é preciso ter feito o luto primário, para poder realizar todos esses processos psíquicos que acabei de mencionar, desde entrar em contato verdadeiro com o livro, me afetar por ele, querer transformar essa afetação em algo, desejar genuínamente a partir disso, até finalmente sentar e escrever sobre isso.

A autora sustenta ao longo de todo seu texto que, ter feito esse luto primário é o que "nos torna aptos a amar para além do próprio Eu" o que seria a primeira condição psíquica para a aptidão à felicidade. A segunda condição seria a capacidade de criatividade psíquica, que é o "que nos torna aptos a transcender a concretude da vida e, ao mesmo tempo, ver sentido na própria matéria cotidiana de que ela é feita". (pág. 201). Vou tentar resumir brevemente essas duas coisas, mas antes gostaria de apresentar o sentido de felicidade de que estamos falando.

Minerbo aponta a felicidade como sendo um tema tradicionalmente da filosofia, disciplina que aborda o termo com relação ao amor e a sabedoria. Já o sentido abordado pela autora é psicanalítico: 

"a felicidade se apresenta na vida cotidiana como ocorrências muito heterogêneas entre si, cada uma sendo determinada por um setor do funcionamento psíquico. Nesse sentido, a felicidade é uma experiência psíquica complexa que pode ser decomposta em diferentes elementos que participam da aptidão à felicidade." (pág. 23)

Então a felicidade se manifesta de formas diferentes para cada um de nós, e está mais relacionada a uma certa forma de se relacionar com a vida e congigo mesmo, do que a um acontecimento concreto específico como ter um bom trabalho ou uma casa na praia, embora essas duas coisas possam sim ser sentidas como algo que traz felicidade, ou não... 

É o que explica algumas pessoas nunca experimentarem felicidade, independente do que conquistam, enquanto outras sentem-se felizes com o cair da água no corpo durante o banho... 

Quando penso na felicidade nos termos que Marion nos convida a pensar, lembro desse que se tornou um dos meus personagens favoritos da vida, o queridíssimo Hirayama, personagem de "Dias perfeitos" filme de Wim Wenders.

Hirayama ilustra perfeitamente o que seria essa tal de aptidão à felicidade de que Marion nos fala... ele transcende seu cotidiano difícil e repetitivo através do investimento criativo que faz na vida, nos outros, nas coisas do mundo, a fotografia, a natureza, a leitura, a fantasia... ao mesmo tempo, está ali "vendo sentido na própria materia cotidiana" de que é feita sua vida, fazendo com amor e carinho seu trabalho porque consegue dar um sentido genuíno para aquilo. É diferente quando alguém se diz feliz, mas não entra em contato com as dores, limites e finitudes da vida, atuando uma vida de aparente felicidade porque está em negação...

Um personagem que me vem a mente como o oposto disso é o Kendall Roy, de "Succession" (mas poderia citar quase qualquer um dali do meio dele). Independente do quanto possuem e conquistam em nível de recursos materiais, estão
sempre perturbados de alguma forma e não conseguem experimentar satisfação e plenitude.



Marion também fala de dois tipos de felicidade, a regressiva e a progressiva:

Felicidade regressiva - modelo do bebê que mama no seio e tem todas suas necessidades físicas e emocionais plenamente satisfeitas, o "paraíso" fantasioso, que na melhor das hipóteses, a mãe-ambiente proporcionou. Esse modelo de satisfação tem uma dimensão ilusória, porque o paraíso nunca existiu, e pode ser problemático se o psiquismo ficar fixado nele, impedindo o luto dessa posição narcísica primária. Muitos comportamentos excitantes e adictos como a busca por poder, fama, drogas, relações amorosas e etc (tudo pode ser um sintoma dependendo de como se relaciona com aquilo) podem ser uma forma de  recuperar esse "suposto estado de completude narsísica". Kendall e a turma de Succession são perfeitos para pensarmos esse modelo de felicidade regressiva. Vão fazendo e conquistando coisas e se excitando brevemente com aquilo, mas nunca experimentam satisfação plena e genuína porque o modelo que buscam nunca existiu, é ilusório, estão fixados na satisfação absoluta narcísica primária. 

Felicidade progressiva - do tipo que vem da realização do próprio potencial e afirmação do ser; experimentada no júbilo do bebê conseguindo dar seus primeiros passos em direção a vida; é a felicidade que advém de uma vida criativa - o bebê que cria o passo também é criado por esse passo... Hirayama também ilustra bem esse tipo de felicidade, é incrível como ele consegue criar novidade em seus dias tão repetitivos.

A autora destaca ainda que, não por questões morais, mas a felicidade de tipo regressivo pode ser problemática porque pode produzir sintoma, mas contanto que não se esteja fixado a ela, tanto a felicidade de tipo regressivo quanto progressivo têm sua importância, já que a vida é composta de movimentos progressivos e regressivos...

Como Marion coloca e aqui vocês já podem perceber, a felicidade em termos psicanalíticos é uma experiência complexa, que abriga muitos elementos, camadas, emoções... em nenhuma vida, "tudo são flores", mas também não precisa ser "só espinhos". Mas para que não seja só espinhos, voltemos as duas condições psíquicas para a aptidão à felicidade (progressiva) apresentadas pela autora: 

- Ter feito o luto primário
Significa fazer o luto do narcisismo primário de forma suficientemente boa, conseguir sair da posição subjetiva em que existe "a sua Majestade, o bebê" de um lado e a "Mãe-Absoluta" de outro. Essa ilusão inicial é fundamental para a construção das bases da autoestima, do sentimento de autoconfiança, e é papel do ambiente favorecer a experiência dessa ilusão, se adaptando as necessidades da criança para que ela não perceba "a realidade do mundo" cedo demais... até que chega a hora dela começar a precisar entrar em contato com essa realidade, abandonando essa posição de completude ilusória. E também é papel do ambiente favorecer a saída dessa posição, favorecer o luto primário apresentando o mundo real devagar, e não de forma abrupta, impossível de ser processada psiquicamente e portanto traumática. Quando um trauma assim se instala, a saída dessa posição subjetiva fica prejudicada e o sujeito pode ficar inscrito numa lógica de "tudo ou nada", que irá penetrar toda sua vida, dificultando a experiência de felicidade progressiva. 

- Capacidade de criatividade
Não falamos aqui de criatividade no sentido comum de dizer que alguém é criativo porque faz músicas muito boas. Falamos da criatividade no sentido winnicottiano: o criar como uma necessidade psíquica. O bebê se encontra pela primeira vez com o seio, na tentativa de lidar com essa coisa que "surge" ele internaliza esse seio, "acredita" que é uma criação sua, essa é sua forma de lidar com esse novo do mundo que invade. E quando essa experiência se repete de novo e de novo, é instalada a capacidade de simbolizar aquilo que vem de fora e integrar aquilo ao Eu, e isso é criar.

Se não há um luto suficientemente bom do narcisismo primário, a capacidade criativa fica atrofiada: se eu estivesse presa a lógica do "tudo ou nada" não seria capaz de criar esse texto porque "alguém vai falar mal, alguém vai odiar, alguém vai pensar alguma coisa sobre mim a partir disso, isso não vai mudar o mundo (onipotência), não consigo pensar em tudo que achei sobre e vai ficar faltando coisas, se não for pra ser perfeito é melhor não escrever nada". 

Felizmente, nosso aparelho psíquico se amplia, se transforma, se o luto primário não foi feito de maneira suficientemente boa, lembremos que "ninguém realiza o luto de uma vez por todas, esse processo é sempre parcial, sujeito a regressões e será retomado muitas vezes ao longo da vida" (pág. 198). 

Esse luto ainda pode ser feito e "a psicanálise é sim um instrumento que pode ajudar as pessoas a sofrer menos, a encontrar meios de construir uma vida mais satisfatória [mas] isso não significa que uma análise pode ajudar alguém a realizar o luto primário. A humanidade não esperou a psicanálise para ser feliz. Há outros caminhos para se 'tratar'. É possível mudar de posição subjetiva, simplesmente acolhendo e elaborando as experiências com as quais a vida nos confronta." (pág. 195) 

Outro ponto que achei importante na leitura e quero destacar é a diferenciação que Marion faz da falta enquanto aquilo que relança o desejo da falta que vem da privação e que portanto relança o traumático e só causa sofrimento. Acho que é o tipo de coisa que precisamos ter sempre em mente para que não haja generalizações do tipo "é possível ser feliz na miséria", sem que haja o mínimo de condição material que construa e sustente a experiência da felicidade. Toda essa constituição psíquica precisa de um ambiente suficientemente bom que a possibilite e isso inclui ter as necessidades humanas básicas atendidas.

Um dos capítulos finais chamado "Freud era feliz?" é um verdadeiro presente da autora. Adoro ter notícias de como esse danado vivia sua vida e se relacionava com as coisas...

Bom, é um livro para ler, reler, pensar, repensar... Ao longo dele, Marion fala detalhadamente de todos esses processos, de forma leve e fluída, ela usa a cena de uma caminhada pela praia em suas muitas possíveis variantes, para ilustrar como esses processos psíquicos se manifestam nas sutilezas do cotidiano. Para psicanalistas uma leitura obrigatória! Mas que deixo como indicação para pessoas de fora da psicanálise também, já que a escrita da Marion é bem didática e acessível.








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