O narcisista é de fato muito centrado em si, mas embora essa seja uma dimensão muito falada sobre ele, não é a única.
Também podemos nos perguntar sobre os motivos pelos quais uma pessoa investe tanta energia em si mesma e se idealiza tanto.
Para falar sobre isso, iremos usar um conhecido personagem narcisista da cultura pop, Bojack Horseman, pois sua personalidade, seus comportamentos e sua história de vida, fornecem uma ilustração que nos permite visualizar bem as nuances desse termo.
Bojack é um cara que só fala dele mesmo, só presta atenção ao que lhe diz respeito diretamente, um alcoólatra que faz s3x0 assistindo a si mesmo, e não mede esforços para conseguir o que quer, sem refletir muito sobre os prejuízos que causa aos outros ao seu redor.
À primeira vista, só um cara egoísta que não se importa com ninguém, mas aí a história avança e nós passamos a conhecer melhor a vida desse complexo personagem. Descobrimos por exemplo, que foi fruto de um casamento conturbado, e desde muito cedo teve que sobreviver a um ambiente hostil, onde sempre foi muito mal tratado.
A falta desse cuidado e desse afeto fez com que Bojack desenvolvesse um eu muito frágil, e aí ao mesmo tempo que esse eu frágil depende totalmente do outro, também não pode admitir essa dependência, já que o outro foi sentido como uma ameaça a sua existência.
Esse impasse está na raiz de diversos tipos de conflito, por exemplo, a angústia da perda do objeto de amor, que funciona como um apoio para o eu frágil. Ao mesmo tempo em que Bojack vive mandando Todd embora, ele também sabota as tentativas dele ir. Quer mostrar que não precisa do Todd, mas age de forma contrária sem perceber isso conscientemente.
Para Freud (1914) haveria um narcisismo primário, que seria uma fase intermediária do desenvolvimento mental, localizada entre a fase do autoerotismo e a de escolha de objeto.
Na fase do autoerotismo, o bebê sentiria certo prazer consigo mesmo, mas a experiência é vivida num corpo fragmentado, desorganizado. Para o autor, “algo precisa ser adicionado” ao autoerotismo para que ele alcance o narcisismo, para que ele sinta em si mesmo, tendo alguma noção da própria existência de forma mais integrada, se concebendo como aquele capaz de criar tudo à sua volta, suas dores e prazeres, aquele que ocupa uma posição onipotente perante a vida.
Para alcançar essa “noção de si” mais integrada, estabilizar uma percepção de si mesmo, um bebê precisa ter internalizado uma memória de si sento satisfeito. Por isso é tão importante que as experiências de satisfação sejam repetitivas e estáveis nos primeiros meses de vida. O bebê vai sentir fome, dor, tensão, e esses sentimentos são aterradores para um psiquismo tão imaturo e sem recursos. É como se experiências de insatisfação prolongadas fossem verdadeiras ameaças de morte, de aniquilamento.
Conforme uma criança vai registrando em sua memória que aquela dor será acudida, que ela será acalmada, isso possibilitando que o ego continue se formando e desenvolva recursos para lidar com o que vem pela frente.
Esse momento em que um bebê se percebe como um ser integrado e sente que ele cria tudo com a magia de seus pensamentos e emoções, que Freud chamou de narcisismo, é um momento muito importante para que ele possa fortalecer-se internamente, aprender que tudo lhe é possível. Vai nascendo esse sentimento de poder realizar coisas, componente importante da autoestima, da autoconfiança.
Amar o outro e enxergá-lo como importante não é tarefa fácil. Só depois de formar uma imagem integrada de si mesmo, passando por tudo isso que descrevi, é que se torna possível suportar a frustração que é descobrir que não somos tudo, que algo nos falta e esse algo está fora de nós.
Se um bebê não consegue formar essa imagem integrada de si, com recursos internos suficientes para reconhecer e tolerar essa falta, será muito difícil que ele enxergue o outro de forma integrada também. Se perceber e perceber o outro de forma integrada significa reconhecer que ambos possuem qualidades e defeitos, imperfeições. Quando um psiquismo não consegue alcançar essa visão acaba cindindo, e aí divide tudo em bom ou ruim, e nada pode ser as duas coisas, não consegue lidar com a ambivalência.
Quando Bojack conhece Diane ela se torna seu objeto de amor logo de cara. Ela surge como uma figura compreensiva, tem uma profundidade na alma com a qual ele se identifica. Ele acredita estar apaixonado por ela e a idealiza, até que ela termina de escrever sua biografia, e quando ele lê fica enfurecido com ela, desdenha de suas capacidades, a demite. O sujeito narcisista, que não integrou uma imagem de si então vê as coisas de forma dividida, não tem recursos para processar internamente que alguém que ele ama também pode lhe causar dor. Ou a pessoa está num patamar muito idealizado e ela é TUDO, ou ela é péssima e não tem valor algum.
Falhas muito severas no período inicial do desenvolvimento do psiquismo, podem acarretar em sofrimentos profundos, descritos como “não-neuróticos” por Marion Minerbo (2019), ou como narcísicos, manifestos em quadros borderlines, psicóticos e depressões profundas, conforme analisados por Hegenberg (2021). Quando olhamos a história de Bojack vemos um sujeito que desde sempre precisou lidar com um ambiente hostil, severo, que o punia simplesmente por existir, um ambiente repleto de faltas e falhas.
Para se defender da frustração, o bebê volta o seu investimento de energia para si mesmo, cria sua própria realidade, e isso acontece com todos nós em algum nível, pois é necessário para que a gente desenvolva o pensamento, a fantasia, precisamos investir energia em nós mesmos também, para continuar nos desenvolvendo. Nesse sentido, a frustração é um componente fundamental para a construção da nossa percepção de nós mesmos, é ela quem faz voltarmos a atenção para dentro, e assim podemos criar ali um espaço que podemos habitar e nos reconhecer.
Porém, tudo precisa ter sua medida. Frustração demais pode levar a uma desintegração do eu, um trauma. Um ego frágil pode tentar se defender disso, buscando voltar a um estado anterior ao trauma, entrando num movimento regressivo que pode se estender e se prolongar ao longo da vida.
Quando regredimos não agimos conforme a idade que temos. É comum isso acontecer quando nos aborrecemos com algo. Quando um adulto se aborrece com uma criança por exemplo, e ao invés de falar sobre isso e canalizar sua raiva de forma madura, ele bate na criança, temos uma cena que ilustra bem uma regressão. O sujeito não consegue resolver sua angústia de outro jeito que não partindo para o ato.
E essa coisa de partir para o ato é o que fazem os bebês quando lidam com a frustração, portanto uma forma primitiva de buscar alívio.
Se sentem fome ou dor, choram, esperneiam, chutam, mordem. É a única maneira que eles têm de expressar sua angústia, até descobrirem e dominarem a linguagem, quando poderão simplesmente dizer “eu estou com fome, me alimente”.
Balint (1968) defende que essa coisa de “regredirmos” a um estado anterior, tem seus aspectos positivos e negativos. Por um lado, quando ocorre numa situação terapêutica com um profissional capaz de manejar essa regressão, ela pode ajudar a editar ou reeditar uma experiência anterior que ficou sem significado, que não foi “metabolizada” pelo ego, e isso pode ajudar na integração do eu. Conforme o autor, enquanto para alguns pacientes essa regressão se transforma em “um novo começo”, para outros isso nunca é alcançado, e o sujeito desenvolve uma espécie de ciclo vicioso.
Se a falha do narcisista está nesse momento inicial de construção do eu, buscar voltar a uma fase anterior é buscar voltar ao ventre. Buscar voltar a um estado sem tensão, é pulsão de morte no comando. Por isso a regressão nessas pessoas pode ser tão intensa e difícil de conter. Para um paciente em estado regressivo, importa menos uma interpretação do que a oferta de um ambiente acolhedor, tolerante, continente, capaz de criar e manter condições que permitam que o paciente possa viver as coisas dentro dele mesmo. (BALINT, [1968] 2014, pág. 149)
Como pudemos perceber, as falhas no desenvolvimento do narcisismo acarretam em diversos tipos de consequência no futuro. Conforme coloca Hegenberg (2021), se um sujeito mal pôde constituir a si mesmo, vai precisar usar o outro como objeto de apoio para sua própria existência, e essa dependência profunda é manifesta nas diversas formas que os narcisistas usam para tentar evitar o abandono.
Essa má constituição do self também se reflete num senso de identidade frágil, o sujeito não consegue construir sentidos e ideais para a própria vida. Está sempre dando as voltas com uma sensação de vazio e superficialidade, muitas vezes buscando nos comportamentos mais extremos e exageros, uma forma de sentir alguma coisa.
Finalizo esse texto ressaltando a importância do tema para nossa prática enquanto psicólogos e psicanalistas. Há muito o que se discutir sobre o fenômeno dos narcisismos, cada vez mais presentes na atualidade, cujo contexto ambíguo, promove o individualismo e ao mesmo tempo aniquila as subjetividades tentando encaixar pessoas em modelos pré-estabelecidos. As diversas formas de abordar e estudar esse tema o tornam inesgotável, portanto continuaremos falando muito sobre isso por aqui.
Freud, S. [1914] Sobre o narcisismo: uma introdução. ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1980. V. XIV.
Minerbo, M. Neurose e não neurose. 2 ed. São Paulo: Blucher, 2019.
Hegenberg, M. Borderline. 8 ed. Belo Horizonte: Artesã, 2021.
Balint, M. [1968] A falha básica: aspectos terapêuticos da regressão. 2 ed. São Paulo: Zagodoni, 2014.



