domingo, 17 de novembro de 2019

moral sexual civilizada

maldito processo de avaliação...
por onde se iniciam caminhos, lá estão eles
nos pressionando e nos obrigando a abdicar
de nossas primitivas pulsões
eu sei que se fazem necessários à civilidade
mas como os odeio nem consigo descrever
busco subterfúgios, fugas...
não quero a eles pertencer
de certa liberdade eu preciso gozar
não é nesse mar que pretendo me perder

todas as regras morais a que aprendemos a seguir
defesas que nos confrontam com o pior que existe em nós
a falta, o vazio, o nada
a preguiça, a invalidez
a noção do tamanho que se tem
frente ao infinito que rodeia
e que deixa muito claro a nossa insignificância
uma vida que não serve para nada
só para ser sentida
única e exclusivamente por quem a vive

a rotina insuportável de um emprego que te esgota
e não te acrescenta em nada além do dinheiro
imposto como necessidade de fora
te mantém como passivo refém por inteiro
te manuseia como um fantoche
substitui suas satisfações por outras capitalizadas
e você retribui com um like
um coração de plástico no seu mundo de plástico
servindo ao seu deus abstrato de plástico

as incessantes substituições do mundo moderno
desgastantes, roubam uma energia valiosa
que poderia estar sendo usada de outra forma...
aqui nós sabemos, cada momento que passa
não volta
tudo é sempre perdido no limbo do passado
a única coisa que realmente existe é o agora
e é tão desolador saber que vários agoras
são desperdiçados com futilidades...
situações descartáveis, pessoas descartáveis
em relações descartáveis...

e a agressividade que não pôde ser demonstrada
se vira contra o ego e o massacra diariamente
num movimento masoquista de culpabilização
por não ter sido suficiente nem para si
e por saber que nunca o será
histérica insatisfação que envolve os laços
que unem as pessoas umas as outras
e que são tão facilmente cortados
e depois disso
nenhum remendo é suficiente

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

movimentos circulares

circulares movimentos que vão e que vem...
e na ponta dos dedos eu sinto
a textura de uma pele que queima
uma pele que me atrai e me submete
a sentir o vibrar das teias que circundam as veias do coração e do meu estomago
numa pulsão que me envolve
de li ci o sa men te
e não me aprisiona
onde está o medo?

e então eu imagino alguns capítulos dessa história
em cenas que se apresentam sempre de forma leve
como algumas nuvens passando rápido por causa do vento
e eu vejo mãos sendo estendidas
abraços sendo aproveitados
risadas sendo compartilhadas
e algumas poéticas lágrimas pra manter a sanidade
histórias vivendo em contato com outras histórias...
onde está o medo?

incrível como nossos pensamentos se envolvem facilmente
em clichês hollywoodianos que aprendemos a gostar
e ao longo da vida vamos descobrindo
que nada tem a ver com grandes histórias,
que a coisa real e gostosa de sentir,
está entre as gentilezas do dia a dia
os por favor, com licença, obrigada, de nada
e as batidas no ombro
misturadas a um olhar que transborda sinceridade
e diz que te quer ali
onde está o medo?

a proposta desperta esse nosso apetite em alimentar o ego
e o jogo parece valer a pena
porque sentimos o que é ser esse ser de desejo do outro
e as relações flutuam em mares de ludíbrio
deixamos o bonde seguir...
para se sabe onde?
ninguém sabe não
mas vez ou outra,
nos permitimos embarcar nesse navio fantasma
a troco de que?
sei lá eu
o medo pode estar
na possibilidade de tudo isso ter
e disso tudo nada merecer

mas quem será o juiz dessa sentença?
ainda existe algum sentido na palavra "merecimento"?
diz assim o querido mecanismo que quer manter sua alma viva
mas que logo te faz lembrar que
foda se
se você quiser e não conseguir ter
vai doer
e você sabe muito bem que é isso ai mesmo

recomeça logo esse círculo vicioso que virou a tua busca
tímida, encurvada, quase que recuando
mas ultimamente lembrando que
antes sentir dor do que nada sentir
será?
certeza eu não tenho não,
certeza de nada eu tenho
e é bem melhor assim

mas tem uma última coisa que eu queria dizer
as pupilas dilatadas dos seus olhos são hipnotizantes
às vezes eu queria entrar nelas
me banhar da densidade delas
parece um lugar gostoso de se enfiar
confortável...
acalentador....

um lugar de paz...

terça-feira, 27 de agosto de 2019

YEARS and YEARS - QUE SÉRIE MEUS AMIGOS!! (sem spoiler)

No último fim de semana fiquei presa a telinha por seis horas seguidas sem conseguir fazer outra coisa que não, consumir essa obra maravilhosa e cheia de significados tão importantes para nossa vida, devido ao seu enredo que provavelmente, permanecerá atual por tempo indeterminado. Estamos falando de Years and Years, série da HBO em parceria com a BBC que foi lançada no começo desse ano e que eu só assisti agora depois da indicação de dois dos meus amigos com ótimo gosto para séries haha. Na descrição da trama souberam cativar minha atenção ao adiantarem: é uma mistura de política com Black Mirror. Pronto. Apenas mais algumas palavras já foram suficientes para me convencer a começar a assistir, e uma vez iniciada meus amigos, não tem como parar até chegar ao final (que é relativamente curto, só tem 6 episódios), e é desse tipo de série que a gente gosta né? Então cá estou, para deixar registradas minhas percepções sobre a obra e também a indicação forte para que assistam, sejam na HBO, seja baixando ou por outros sites clandestinos, vale a pena e eu vou dizer porque, assinalando os pontos que considero mais fortes da trama e que me prenderam por tantas horas seguidas.

Sinopse
A história principal envolve os acontecimentos cotidianos da vida de uma família bem inclusiva composta por quatro irmãos, duas irmãs, Rosie que é cadeirante, mãe de dois filhos, Lee e Lincon, e Edith, lésbica e ativista política. Também tem os dois irmãos, Daniel, que é oficial de imigração e casado com Ralph, e o irmão mais velho Stephen, consultor financeiro casado com Celeste com quem tem duas filhas, Ruby, uma adolescente comum e Bethany que é apaixonada por tecnologia. A mãe dessa galera morreu e o pai acaba morrendo no meio da série também e nem chegamos a conhecê-los, quem os une é a matriarca Muriel, avó dos irmãos, que é aquela parente que reúne todo mundo em volta dela sempre que pode. Acompanhamos o dia-a-dia dessa família de 2019 à 2033, e todos esses anos se passam em apenas 6 episódios, então a série passa essa impressão de acabar muito rápido por que muita coisa acontece o tempo todo. Como pano de fundo dessas histórias temos o desenvolvimento da tecnologia e dos meios de comunicação, junto de um cenário político onde uma figura começa a se destacar na mídia por falar diversos absurdos que chocam alguns e impressionam outros, e que aos poucos vai conquistando seu espaço e criando um futuro cada vez mais catastrófico.

A gritante conexão com a realidade
Seja série ou seja filme, se tem algum tipo de ligação com o mundo real já tem um ponto muito positivo pra mim. Valorizo e aprecio extremamente produções fictícias, entro em diferentes universos quando se trata de algo fantasioso, mas se tem elementos que podem ser conectados com a materialidade eu fico fascinada, e nesse quesito a série faz isso tanto no que diz respeito a política quando a tecnologia, fazendo jus a comparação com Black Mirror que é uma das minhas séries favoritas (embora a última temporada tenha sido bem ruim). A evolução tecnológica é impressionante, mas o que mais se conecta a nossa realidade atual diz respeito a política e ao meio ambiente. Para qualquer um que possua uma leitura um pouco mais apurada e crítica da nossa realidade material, traçar as semelhanças com a série se torna bem fácil, pois as conexões ficam bem nítidas: governantes se elegendo à base da estratégia de discurso de ódio e fake news, sendo usados como marionetes por um poder real, que por trás trabalha para enriquecer poucos enquanto enfraquece e oprime a classe trabalhadora, que assiste a tudo isso acontecendo sem entender muito bem, porque estão envolvidos em outras coisas. A natureza cobrando o preço pela sua destruição, chuvas que duram 100 dias e alagam cidades inteiras produzindo milhares de refugiados. Colapso econômico, bancos e instituições indo a falência e levando consigo milhares de pessoas, produzindo um cenário onde a mão de obra qualificada não é mais necessária, e podemos ver cientistas
trabalhando como operários por um salário mísero e tendo que ter outros empregos para se sustentar. Tudo isso acontecendo porque, sem pensar muito sobre a importância da política, as pessoas elegeram um governo sem plano algum, desestruturado e incapaz de lidar de forma assertiva com os problemas que se apresentam, produzindo uma crise geral totalmente desestabilizadora. Se isso não te faz pensar na realidade, você não pode dizer que compreende o que estamos vivendo porque não está. Até mesmo nos diálogos entre os personagens fica muito claro como funciona essa estratégia de despolitização, e que estamos no meio desse processo de enfraquecimento das estruturas sociais. O primeiro passo nesse sentido nós já demos na vida real, ao elegemos um governo com as mesmas estratégias políticas, despreparado, perdido quanto as próprias funções e acima de tudo, manipulado por interesses de uma centralidade capitalista que não está preocupada com um colapso que pode atingir a maioria, mas deveria. Talvez demore ainda muito tempo para os apoiadores de Bolsonaro perceberem o tiro no pé que deram colocando esse boçal para governar um país tão plural e complexo como o Brasil, talvez percebam antes de 2022 porque ele faz muita merda diariamente, mas mesmo assim, não tenho grandes esperanças para esse momento, que poderemos ter aí um Luciano Hulk, Dória ou alguém até pior que o Bolsonaro um Witzel por exemplo, o que não me agrada em nada obviamente. 

A inclusão - diferenças não são um problema 
Uma das coisas mais lindas e cativantes nessa série é a forma como essa família lida com as diferenças. Tem homossexuais, negros, imigrante, uma criança trans, uma cadeirante, e a relação entre todos eles ocorre de uma forma tão natural e espontânea, sem qualquer preconceito ou taxação, exatamente como deveria ser na realidade. O que é um paradoxo interessante de se pensar, pois é um ponto da série que deveria estar mais conectado com a vida real mas não está. Isso porque nossa sociedade ainda evoluiu muito pouco na maneira de lidar com o diferente, e ainda existe muito sofrimento no mundo porque as pessoas não são preparadas para isso, preferindo a exclusão, a fuga do debate, olham pro outro lado, chamam a luta do outro de mimimi e seguem a vida como se essas diferenças não existissem e não fossem parte de um sistema que necessita urgentemente ser repensado e transformado. As cenas transmitem muito amor, intimidade, respeito com a pluralidade da vida, sem deixar de retratar os conflitos humanos, inerentes a nossa complexidade e subjetividade.

A pegada Black Mirror
Claro que esse ponto crucial não poderia deixar de ser melhor elaborado nesse pequeno texto haha. A evolução da tecnologia se coloca como realidade presente e que demanda nossa urgente atenção em diversos pontos, pois ela traz consigo diversos ganhos, e representa também muitas perdas, sendo uma temática que sempre atrai minha reflexão. A personagem Beth me fez pensar em várias problemáticas quando misturou a questão da adolescência sendo vivida nessa imersão tecnológica. Bauman já falava sobre a modernidade liquida apontando para uma sociedade com valores cada vez mais individualistas, fluída e efêmera em suas relações, o que deve ser cada vez mais aprofundado
dentro dessa nova dinâmica de comunicação virtual que troca o contato físico pelo toque frígido da tela. Na série já se é possível fazer implantes tecnológicos que aos poucos vão modificando o corpo humano e lhe atribuindo dons incríveis que podem ser usados tanto de forma positiva quanto negativa, e não é o desenvolvimento da tecnologia em si que ditará como ela será usada por nós, mas sim a maneira como ela será inserida em nosso cotidiano, e em qual contexto ela será inserida, a qual objetivo ela se colocará a servir. Na série a personagem Beth quase é levada a cometer suicídio acreditando estar se transformando em algo maior que um humano pode ser. Estamos lidando com novas formas de expressão do sofrimento e o uso que se faz da tecnologia quando bem interpretado pode denunciar muito desse sofrimento. A grande questão é, não importa o quanto avancemos tecnologicamente, se a lógica que nos move permanecer privilegiando alguns e massacrando outros milhares, é bem provável que a evolução atinga essa parte mais desfavorecida de forma bem mais desgastante. 

sábado, 22 de junho de 2019

madrugada a dentro

quanto mais complexos nos tornamos
 mais precisamos criar mecanismos para lidar com essa complexidade
e todos os dias há uma tentativa de fragmentação disso,
como se ser complexo fosse uma ideologia emancipadora.
deve muito que ser.
por isso tantos deles tem medo de assumir.
não é fácil ser um ser humano,
um ser humano de verdade,
na teoria e na prática,
sentindo a responsabilidade nisso,
o vazio emergindo
e a superfície ficando inundada dessa substância cósmica e pálida.
os lapsos todos em movimento,
tudo girando, tudo em uma esfera,
expelindo pedaços de momentos e dando contornos a personalidades
pouco flexíveis, previsíveis, clichês, acríticas...
viva os tempos modernos!
onde os olhares se perdem em telas que brilham
o que está presente não se faz ali
a onipresença não é atributo mais tão somente de Deus
estamos sendo testados...

como estratégia,
as fugas
elas também se transformam,
se complexificam...
tem como não ser assim?
a profundidade dá um ar de tristeza
na falta de adjetivos que expliquem melhor esse sentimento
de compreensão da beleza no significado do nada
a emoção que sentimos quando damos conta de nossa pequenez
insignificância
diante de um universo tão infinito
e saber que essa magnitude nos engole
é libertador
nos obriga a focar no presente
ser consciente agora
não teremos tempo depois
não há tempo para depois...

quem nunca se sentiu confortável com o barulho da noite
os sons de carros e motos entrando madrugada a dentro
competindo com sons de cachorros latindo e um vento gelado
que balança os galhos das árvores lhes dando um movimento
que emite aconchego e paz
mais perto só os sons do teclado sendo tocado pelos dedos
quando a frase toma conotação sexual ela desperta outros desejos
talvez os sonhos dessa noite cheguem mais tarde...
e talvez possuam ousados olhos castanhos
com alguns diplomas que o conferem esse ar
no mínimo, incitante...
e esse é sempre um bom momento para encerrar uma catarse 





sábado, 20 de abril de 2019

só catarse do ócio

eu gosto de abraçar a roupa de cama e me sentir confortável dentro dela
é um momento de pura paz em meio ao caos
um momento de proteção
a hora mais feliz de cada dia
ninguém quer parecer fraco
mas poderíamos mesmo dizer que alguém é?
se estamos por aqui há uns 300 mil anos como espécie
e num tem nem 10 mil que aprendemos a escrever
a ter algo de civilizatório
sei lá cara...
é meio que algo esperado

ô raça que me deixa intrigada
num é à toa que fomos por onde temos ido...
coisa difícil de entender
coisa difícil de explicar
faz umas sublimação que dá gosto
consegue ser perverso, inadequado
danificado
e o oposto de cada coisa que consegue ser

nunca se sabe o suficiente
é sempre só algo a mais que se sabe
só precisamos parar de estacionar
é certo que depois que começamos a aprender destrinchamos
mas para quantos lados?
são tantas possibilidades e ao que temos nos agarrado?
cada coisa a qual despendemos nosso tempo
tem que valer muito a pena
porque tudo é infinito e ao mesmo limitado
está tudo começando aqui e está tudo acabando ali
tudo tem que valer a pena
caso contrário
revise
repense
realoque prioridades
o momento seguinte é incerto
ele flutua
não se banha nessa onda mais de uma vez
aproveite

domingo, 6 de janeiro de 2019

YOU - Netflix: mais uma série maratonada no fim de semana e que eu preciso falar sobre

Amante de séries que sou sempre que termino uma vou atrás de outra pra suprir o vazio que fica. Quando a série escolhida já tem início meio e fim eu praticamente não consigo fazer outra coisa se não acabá-la, e quando a série ainda está acontecendo eu simplesmente me torno refém da espera de novos episódios e quando percebo estou acompanhando 10 séries de uma vez. Normal até aqui. Geralmente quando sai alguma nova série que hita, que bomba, que todo mundo só fala sobre, assim

que surge um tempo eu a pego pra assistir e tirar minhas conclusões, isso porque tenho uma forte tendência a gostar de analisar coisas populares, elas parecem me dizer muito sobre as pessoas e é quase um instrumento de estudo pra mim rs. Friends e La Casa de Papel foram séries que assisti dentro dessa perspectiva e que particularmente gostei demais, o que não quer dizer que não tenha minhas críticas, mas de forma geral não foi em nada tempo perdido, embora nenhuma delas entre no meu hall das melhores séries até aqui. You foi a última que peguei pra assistir porque notei toda uma movimentação de uma galera assistindo, e cara, parece que tenho muita coisa a refletir sobre essa série.
Há vinte minutos terminei o último episódio, e preciso dizer que os pensamentos que passaram pela minha cabeça enquanto assistia a série ecoaram de uma maneira mais intensa do que eu achei que ecoariam dentro de mim. É preciso avisar que teremos spoilers aqui preciosxs. Enquanto assistia You eu pensava coisas como "Cara isso é tão errado porque ele faz parecer que tem sentido?", "Quão séria pode ser essa questão da vulnerabilidade não é?", "Eu estou sentindo empatia por um assassino? Eu estou 'torcendo' pra um assassino?". Esses pensamentos me fizeram traçar um paralelo com Norman Bates, um psicopata que aprendi a amar(?) quando fui apresentada à sua maneira peculiar de ver e fazer parte do mundo em Bates Motel. Esse tipo de reflexão buga totalmente a minha cabeça. Eu já não sou uma pessoa que acredita em bem ou mau, acredito que o juízo de valor de qualquer comportamento é relativo e depende do ponto de vista de quem o julga. Porém existem limites que cerceiam esses julgamentos, como matar ou machucar alguém, ações que deveriam ser vistas como ruins em quaisquer circunstâncias. E dai quando me deparo com séries como You ou Bates Motel eu sou obrigada a revisar essas cercas, revisar esses limites. A visão de Joe e de Norman sobre o mundo não justificam suas ações sob o nosso ponto de vista, mas sob o ponto de vista deles, é quase como se fizesse sentido! Isso é muito cabuloso. Me faz repensar os limites da justiça, me faz pensar no quanto a nossa justiça ainda está distante de ser acertada. 
Joe é um psicopata que usa as relações para satisfazer os próprios instintos selvagens e a racionalização que ele usa para isso é minuciosa. Ao que parece ele foi abandonado pelos pais e depois de passar por um orfanato foi adotado por esse senhor dono da livraria em que ele trabalha e que o criou à sua maneira. Esses detalhes sobre a vida de Joe são bem fundamentais para compreender sua visão do mundo. Toda vez que ele errava, esse senhor (que eu esqueci completamente o nome) o prendia em uma espécie de "jaula de vidro", obrigando-o a ficar ali por tempo indeterminado até que refletisse sobre as próprias ações. Joe cresceu assim, ao redor de muitos livros, o que o tornou uma pessoa muito culta e inteligente, talvez seja esse o motivo pelo qual Joe use a racionalização como um dos principais mecanismos de defesa de seu ego. Ele traça toda uma linha de raciocínio para justificar suas ações para si mesmo uma vez que, ele não quer se ver como uma pessoa ruim, como um assassino ou um psicopata, embora ele haja como tal. A racionalização faz seu ego se manter estável, faz com que ele não imploda. 
Joe aprendeu também que algumas pessoas merecem morrer e que tudo bem fazer algo ruim por uma pessoa que se ama, pois o amor é mais importante. É muito fácil perceber o quanto essa visão oferece a Joe o conforto necessário para fazer o que ele realmente quer fazer, matar pessoas. Ao longo dessa primeira temporada vemos Joe matar cinco pessoas, o amante de Candace sua ex namorada, Benji um peguete de Beck sua obsessão atual, Peach uma amiga de Beck, a própria Beck e Ron, o namorado agressivo da vizinha. A forma como esses assassinatos são narrados quase nos faz acreditar que foram necessários e isso é uma coisa muito bizarra porque torna a linha entre o certo e o errado, entre a loucura e a sanidade muito mais tênue. Através da visão de Joe, podemos entender como se o caso do amante de Candace tivesse sido um impulso, algo totalmente momentâneo e aparentemente não calculado que aconteceu no calor de um momento de muita dor pra Joe. Benji era uma típico canalha, o cara usava Beck da maneira como queria fazendo muito mal à ela e além de tudo era um assassino, então quando morreu foi quase como se tivéssemos permissão para dizer "Yes!" e comemorar internamente. Peach era outra pessoa que usava Beck como queria, manipulava-a e a sabotava
quando achasse necessário, era egoísta, achava que o mundo girava ao seu redor e nutria uma paixão secreta por Beck. Quando ela morreu Beck finalmente pôde ser livre e pôde fazer o que gostava de fazer. A analogia que Beck faz entre a perda da amiga e a perda de um objeto que ela tinha na infância e que ela sentiu alívio em perder porque não conseguiria abandonar por conta própria quase parece justificar para Joe (e para nós) mais uma vez, a morte de Peach. Sobre Ron eu nem preciso dizer o quanto comemoramos a morte dele não é? O mal que o cara fazia para o menino Paco e sua mãe nos faz sentir borbulhas de raiva, é como se ele tivesse tido o que mereceu, e cara, eu tenho medo de sentir esse tipo de coisa. As pessoas merecem morrer se elas se comportarem de determinada maneira afinal? Como se determina isso? Porque ao assistir esses assassinatos pela visão de Joe nós praticamente torcemos para ele? Se ele morresse sentiríamos mais pena dele do que das outras vitimas? 
O assassinato de Beck é de longe o que mais nos faz repensar Joe, ele dizia não ser capaz de machucar quem ele ama, e com ela ele ultrapassa essa linha, e agora? Pela forma como a série termina fica claro que teremos uma segunda temporada e eu espero que sim, afinal tem muito mais de Joe para descobrimos. Joe é vilão e ao mesmo tempo é mocinho, é protagonista. Gosto muito dessas
obras que nos trazem a visão daquele que é tido como mau, é sempre uma experiência enriquecedora, pois somos muito acostumados à ver tudo pela ótica do "bonzinho". No caso de Joe, acredito que uma das coisas que nos faz sentir empatia pela sua história é a maneira cordial com que ele vive a sua vida
e a forma como racionaliza suas ações. Ele nos faz acreditar que ama Beck e que tudo o que faz é por ela, ele nos faz acreditar que tem bons sentimentos através da relação que estabelece com Paco, um menino que é seu vizinho e que sofre constantemente abusos psicológicos presenciando brigas terríveis entre sua mãe e seu namorado agressivo, que a agride de todas as formas. A preocupação de Joe com Paco nos fornece um elemento humano necessário para nos conectarmos com Joe, ele tem sentimentos! Pensamos. E assim, nos deixamos levar pela sua narrativa mórbida. Sentimos raiva de Ron, mas não sentimos raiva de Joe. Isso me faz pensar em uma frase que ele diz ao longo da série que diz algo mais ou menos como, se você agir naturalmente e for gentil as pessoas tenderão à acreditar em você. Ron e Joe fazem coisas horríveis, mas porque vemos as justificativas de Joe e não vemos as de Ron, gostamos de um e odiamos o outro. Sim meus caros eu gosto do Joe e isso é difícil de admitir, mas estaria mentindo se dissesse o contrário. Gostar desse personagem é a coisa que mais me intriga em todo esse processo de reflexão.
Eu sempre enxergo o sucesso de obras de ficção como projeções arquetípicas em grande escala, em outras palavras, acredito que quando algo faz sucesso popular esse algo contém algum elemento arquetípico sob o qual muitas pessoas conseguem depositar suas projeções. Projeção pra quem não sabe é um vocábulo psicanalista que significa resumidamente colocar para fora o que existe dentro de si. Dessa forma, sempre que olhamos para alguma coisa, os primeiros julgamentos, as primeiras
impressões, serão quase sempre projetivas, pois não temos informações suficientes sobre as coisas quando acabamos de nos deparar com ela para poder avaliá-la imparcialmente, ou mais objetivamente, logo, avaliamos com o que temos. Quanto mais informações captamos sobre algum fenômeno, mais pode ser objetiva ou não a nossa visão sobre tal, e é muito difícil avaliar quando estamos sendo projetivos ou não, por isso todo cuidado é pouco ao julgar as coisas, quando fazemos isso, estamos falando muito mais sobre nós mesmos. Um arquétipo que podemos encontrar em You diz respeito à esse homem gentil e preocupado, que a maioria das mulheres sonha em conhecer, o príncipe encantado que torna tudo mais leve, mais estável. Faz tempo que não acredito mais nisso mas eu sei que a quantidade de pessoas que realmente esperam por isso é muito grande. Também sei que a quantidade de pessoas que arriscaram tudo por seus pares ideais e acabaram sofrendo muito com decepções diversas é imensa, eu me encaixo nessa segunda assertiva. 
Por algumas vezes me deixei enganar, por algumas vezes criei expectativa sobre outro ser humano e demorou pra aprender o quão isso é um erro terrível que nos custa a própria paz. Me envolvi com pessoas que se colocaram como centro da minha vida e prometeram nas entrelinhas "cuidar de mim"
e me proteger do mundo. Na época eu era jovem demais pra saber que eu não precisava que ninguém me protegesse de nada, e era jovem demais pra saber que realmente isso não estava ao alcance de ninguém, logo, qualquer promessa nesse sentido seria ilusória. Eu entrei em um jogo perigoso, onde os jogadores não enxergavam as coisas da mesma forma, até que comecei a sentir na pele tudo que um relacionamento abusivo poderia oferecer. Então veio o choque, em seguida o desespero e agradeço por ter tido o apoio necessário para sair desse ciclo à tempo de manter minha sanidade e me reequilibrar, nem todos tem à mesma sorte. E essa realidade é tão comum que se torna um tema arquetípico, e faz com que obras como You ganhem grande espaço dentro de nossas casas, queremos entender como isso acontece. Queremos entender como podemos deixar a vulnerabilidade nos tornar seres desprezíveis e desprezados. Queremos saber se isso acontece com as outras pessoas, em que nível acontece, porque acontece. Acho que os produtores da atualidade entenderam o quanto a nossa sombra pode render muito mais do que tudo aquilo que está fora dela. O conflito da nossa sociedade atual é entre nós e a aquilo que há de pior em nós. Precisamos nos reconciliar com os nossos elementos ignorados, precisamos entender aquilo que julgamos ruim e precisamos aprender a lidar com isso. Cara, isso ainda vai render muitas histórias, isso é só o começo. Se eu tivesse que dar uma nota para You nesse momento eu daria um 8,5. Um nota consideravelmente alta e que significa que eu gostei muito e que quero parte II pra continuar falando sobre, sabe se lá quando teremos não é? Não me preocupo em esperar se a espera valer à pena.