domingo, 26 de abril de 2020

cortinas de fumaça

olhos entreabertos, neblina esvaindo com o vento
entrecortando a luz da noite refletida nas superfícies
hora quente hora fria...
ao fundo algumas notas musicais
de uma trilha que denuncia uma contemplação passiva
finca-nos no solo não como sementes
mas como meros telespectadores
que respondem no automático

a sua mensagem fingindo despretensiosidade chega
e em pouco tempo eu estou passando a língua na sua boca
abrindo o zíper da sua calça
respirando o suor da tua pele
com o corpo trêmulo que quase não consegue reagir
ao som da sua respiração
que parece que vai me devorar como um animal selvagem
mas domado pela vontade de me sentir por dentro
eu vou provar seu gosto
de todas as formas possíveis
e você vai gostar
e eu vou te fazer se sentir livre
e você vai se sentir tão livre que
depois de algum tempo nunca determinado
você não me será mais viável
e eu vou preencher a minha boca abrindo outro zíper

você vai achar que doeu
mas não teve tempo pra sua presença se tornar preenchedora
de qualquer espaço
a partida é a conclusão de um capítulo como qualquer outro
vai no máximo causar algum desconforto por algum tempo
como qualquer história que nos causa paixão
e que como qualquer história tem seu fim

nessa satisfação preguiçosa e narcisista
uma dança com corpos diferentes de diferentes formas
treina um olhar nostálgico que ensaia a a cada encontro
a provável despedida
que não vê algo em que se agarrar
mas algo que no mesmo momento em que chega
já está indo embora