Terminei recentemente a leitura do segundo livro da autora brasileira Carla Madeira, e me pareceu ser uma boa ideia escrever sobre isso, até como tentativa de elaborar o mar de emoções que me atravessaram ao longo da leitura. Gostaria de começar com uma breve sinopse, para mais adiante, numa parte com spoilers, poder falar um pouco mais de minhas impressões pessoais.
"A natureza da mordida" é uma história narrada por duas personagens: uma jovem jornalista e uma psicanalista aposentada que está sofrendo com demência.
As duas se conhecem em um sebo charmoso num domingo bonito, e a história se desenrola em torno da amizade das duas, com cada uma contando a outra, sobre suas dores da vida.
Uma atmosfera de mistério logo se instala, porque o que realmente aconteceu com essas pobres almas não nos é dado tão as claras, e nos perguntamos angustiados diversas vezes ao longo da leitura, para onde é que estamos indo, até chegar no derradeiro fim...
Em resumo, essa é a história.
E pra mim, o mais cativante nela é a forma como é contada.
Eu me descobri apaixonada pela escrita de Carla Madeira desde quando li seu primeiro livro "Tudo é rio", sobre o qual já escrevi alguma coisa no Instagram e que também me arrebatou(arrebentou) em muitos lugares, me levando a aquisição do segundo.
Eu amo como ela sobrepõe bem-mal, como seus personagens são cinzas e cheios de ambiguidades. Ela dá contornos de palavra a instintos e emoções tão vicerais que até então pareciam impossíveis de serem traduzidos.
No dia que terminei a leitura de "A natureza da mordida", assisti uma entrevista da Carla Madeira no Roda Viva, interessada em saber mais dessa mulher com escrita tão cativante. E nessa entrevista ela fala algo sobre como a literatura tem um poder de organizar em palavras algumas coisas que só existem de forma muito caótica dentro de nós.
E eu achei isso muito bonito. E muito verdadeiro.
Carla especialmente, sabe fazer isso muito bem.
Ler Carla Madeira é ficar topando o tempo todo com verdades sobre nós mesmos.
É possível ver algo nosso em qualquer direção que olhemos bem, mas Carla escreve de um jeito que impossibilita não olhar, não ver... a gente vê e vê bem, vê com várias outras lentes, o horror e o belo e o mediano...
Gosto e me identifico com a escrita dela, cheia de frases muito potentes e repletas de significado, que se entrelaçam e costuram histórias com muitas camadas, com muita profundidade, e de uma forma única e capaz de nos capturar de maneiras muito diferentes.
Cito um trecho do início que ilustra bem o que me atraiu no escrever de Carla:
Desculpe-me, tenho pensado muito na morte... inevitável diante do tempo corrido. Adiamos a ideia desse confronto o quanto podemos, mas só os mortos possuem todo o tempo do mundo e nenhuma consideração com os vivos. Não nos dão uma miserável pista do que devemos levar dessa para a melhor, uma vez que vamos sem as mãos. Talvez os mortos estejam mortos. Precisamos considerar esta possibilidade que tanto nos assusta: a morte pode mesmo ser o fim. E eu já não luto para introduzir no tempo de cada dia eternidades. Eu já não luto por coisa alguma. Sou uma avestruz deprimida. Tenho meu pequeno lote, onde enterro minha cabeça e no escuro do buraco me esqueço de tudo. Você acredita no escuro do buraco? [...] Acredita em um lugar absolutamente escuro, onde nada do que vemos pudéssemos ver? Quem me dera... não consigo apagar as luzes. É tão claro o que não tenho mais. (pág. 17)
E dando início as minhas próprias considerações do livro (com spoilers a partir daqui), eu diria que o fator identificação marca a minha relação com a obra, e acredito que pode ser assim com qualquer outra pessoa que se entregue a ela.
Quando leio as primeiras páginas, me encontro com dores conhecidas, me identifico e vejo a identificação acontecendo entre duas personagens que encarnam uma para a outra justamente as figuras que estão no pano de fundo de suas questões mais profundas (e das minhas! ((e de tantos de nós!!))
Carla não conta a história de duas mulheres aleatórias que se conheceram e vivaram amigas. Ela conta a história de todo aquele que já sofreu por alguma perda. Brusca. Implacável. Irreparável.
Carla conta a história de todo aquele que diante de um horror, paralisou.
Conta a história de todo aquele que errou por não saber fazer diferente e mesmo assim nunca se perdoou.
A história de todo aquele que em algum momento sentiu o amor e depois sentiu também esse amor indo embora...
Olhemos um pouco mais para uma personagem de cada vez.
Emma, (ou Biá, seu nome de louca) é uma psicanalista aposentada e sofrendo com demência. Vive com a filha Teresa, que acabou de se separar do marido. O pai de teresa, Téo, grande amor da vida de Emma, deixou as duas quando Teresa ainda era uma criança.
Foi-se embora sem avisar e sem deixar vestígios.
Embora Emma soubesse dos motivos de Téo, nunca contou nada para a filha, que passou anos imaginando e sofrendo com esse não-saber.
Penso que parte de Emma realmente tentou proteger a filha de saber do terrível motivo pelo qual seu pai foi embora, parecia acreditar que o "não-saber às vezes é o melhor lugar"... mas não consigo não pensar que alguma outra parte de Emma descarregava impulsos agressivos na filha, que embora sem ter culpa alguma, estava lá e tinha corpo, estava diretamente ligada a partida do pai...
Emma não pôde conter a própria agressividade, lidar com o ódio que sentiu da filha pelo que aconteceu, e se esconder e se omitir acabou servindo a mais a uma forma de agredir do que de proteger.
Penso que, se ela tivesse feito a escolha de não contar, mas tivesse se mantido realmente ali, viva, ao lado de Teresa, vendo a filha, os efeitos do que aconteceu poderiam ter sido bem diferentes.
Um acontecimento pode ser traumático, mas como se dará a elaboração e integração desse trauma está diretamente relacionado a maneira como se dará o cuidado dessa ferida. Os efeitos de um trauma são muito diferentes em quem precisa suportar uma dor sozinho do que e em quem conta com um suporte ambiental suficientemente bom.
Suficientemente bom é um termo winnicottiano que amo porque remete a ideia de que não é preciso perfeição, remete a ideia de que é inevitável e até necessário que em alguma medida haja falhas, faltas, mas isso até um limite e Emma parece ter ultrapassado um tanto esse limite com a filha.
Na velhice Emma desenvolve uma demência, que parece muito conveniente ao seu profundo desejo de esquecer.
Ela diz em alguns momentos que o difícil é desapegar do bom: "Fossem só dor as nossas lembranças, nos desapegaríamos" (pág. 11), e seguindo essa lógica, Emma deu um jeito de não se apegar a mais nada, se isolando do mundo, da filha, construiu um muro que a separava de todo o resto. Quem não se apega não precisa desapegar né?
E parece ter feito isso a vida toda, até antes de Téo, que a conheceu bem antes dela o conhecer, tão imersa ela estava em seu próprio mundo com seus livros. Imagino que Emma já tinha essa inclinação a introversão antes de Téo. Ela o deixou entrar, se envolveu com ele, mas não tanto, e mesmo assim, tomando esse cuidado de não conectar demais, quando o perdeu, parece ter perdido a vida...
Quando me pergunto, porque Emma não conseguiu seguir em frente, me vem o título do livro "A natureza da mordida"...
...não se trataria então da mordida em si, que nesse caso é o perder um amor, ser abandonada, mas sim da natureza da mordida, ou seja, as razões pelas quais essa perda e esse abandono aconteceram e que nesse caso, são razões realmente absurdas e chocantes.
Emma não podia deixar de saber do que sabia e essa era uma de suas grandes dores.
Mas não ter sido capaz de elaborar essa dor, de ir além dessa dor, deixando a filha tão sozinha, parece ter se tornado seu grande sofrimento no depois.
Olívia foi o suporte transferencial que Emma encontrou para realizar algum tipo de reparação com a filha.
Ela dizia em suas anotações "Ah como eu a via!", e era o que desejava ter conseguido fazer com a filha, vê-la.
Eu senti que através da relação com Olívia, Emma se redimiu. Viu e foi vista. Apoiou e recebeu apoio. Relacionou-se tal como gostaria de ter se relacionado com a filha...
Já do lado de Olívia, temos uma outra natureza da mordida que vem em complemento a de Emma.
A natureza do não-saber. Da eterna pergunta sem resposta.
Olívia perdeu o pai muito nova, e sua mãe Laura, que sempre foi especialmente bela, atraía com essa beleza todo tipo de conflito, um dos quais, descobrimos no final, esteve por trás da grande perda de Olívia.
Na infância, Olívia sofreu com o desprezo dos colegas do bairro (já por razão de um fofoca envolvendo sua mãe) e quando finalmente foi acolhida e VISTA por Rita, ganhou uma grande amiga, um grande amor, alguém com quem podia ser... (ao menos era assim que sentia, embora eu tenha cá minhas questões com Rita também... mas enfim) e a forma apaixonada como ela fala de seus momentos com Rita nos transmite a força desse afeto então quando vem o rompimento, tão repentino e sem explicações, nos identificamos com a dor e atordoamento de Olívia.
Ela foi a filha não-vista. A filha que não sabia o que aconteceu. E por isso Biá também lhe serviu como suporte tranferencial perfeito para elaboração das feridas de quem ocupou esse lugar.
A mãe que não viu com a filha que não foi vista.
Indiretamente contando uma para a outra e vivendo uma com a outra, tudo aquilo que gostariam de ter podido fazer bem antes desse mesmo encontro...
E esse encontro né... teria acontecido dessa forma não fossem as dores dessas duas e essas conexões?
Penso que não...
Poderiam ter se visto, se falado até, mas a coisa não continuaria, não daria seguimento, não fosse os lugares que cada uma ocupava dentro de si mesmas e as posições que representavam uma para a outra.
A gente encontra muita gente nessa vida... boa parte não fica, e as que ficam não ficam aleatoriamente.
Freud dizia que todo encontro é na verdade um reencontro...
Nada é mais verdadeiro nessa história de "A natureza da mordida".
E em que medida nossos encontros são também reencontros?
O que é isso que nos conecta a cada uma das pessoas das nossas vidas?
Acho que é tão interessantes refletirmos sobre essas coisas sabe... pra não caírmos nas narrativas simplórias que por vezes criamos para nós mesmos quando dizemos que "ah, não sei, só sei que foi assim!"...
Antes de finalizar vale ainda comentar uma questão que fica: saber ou não-saber, qual é o pior lugar afinal?
Essa pergunta me remete também a uma série que vi recentemente na Netflix, "Pedaço de mim", protagonizada por Juliana Paes, que interpreta essa mãe que também apostou no não-saber com o filho.
Para mim, tanto no livro da Carla quanto na série, é bastante claro que o não-saber tem um caráter mais destrutivo, apagador.
Não sei se dói menos ou mais que o saber, não sei se dá pra quantificar isso... mas acho que o não-saber tá mais para um buraco negro que para uma estrela... sugando as coisas para dentro, jogando elas no escuro para não olhar, não (re-)encontrar. Já o saber joga luz, ilumina, dá ao menos uma chance de construir caminhos, de seguir em frente, afinal de contas, uma página precisa ser escrita para poder ser virada...
Esse post é uma análise, uma exploração, uma elaboração e também um convite. Um convite a leitura, ao contato com Carla e sua escrita apaixonante <3