Pra começar, o óbvio e o que na minha opinião se espera de qualquer tratamento psicológico: um espaço seguro de escuta e acolhimento, onde é possível refletir, questionar, construir novos caminhos e diferentes formas de viver.
Um lugar livre de preconceito e juízo de valor, ofertado por um profissional cuidadoso que na medida do possível, permanece em constante formação.
A falar específicamente do tratamento psicanalítico, podemos discorrer mais.
(E como a psicanálise é imensa e comporta várias linhas teóricas, friso que escrevo aqui da psicanálise que faz sentido à partir da minha experiência com ela.)
Eu vejo a análise como um processo muito artesanal, ou seja, cujos rumos e intervenções vão sendo construídos no caso a caso, então não há como generalizar o tipo de experiência que podemos esperar desse processo.
Mas há um tipo de generalização que me parece fazer sentido nesse momento, e diz respeito a isso que se pode esperar de uma análise, que são as duas grandes formas de subjetividade descritas por André Green como neurose e não-neurose.
No Brasil, a psicanalista Marion Minerbo aborda esse tema especialmente em seu livro "Neurose e não-neurose" de 2019, que recomendo muito a todos que quiserem saber mais sobre essa proposta dentro da psicopatologia psicanalítica,
Em linhas muito gerais, o sofrimento neurótico estaria ligado a questões edípicas, enquanto o sofrimento não-neurótico estaria ligado a questões narcísicas. Não dá pra dizer que um "sofre mais" que outro, são sofrimentos diferentes, com origens diferentes.
Caminhando nesse sentido, entendo que, o que o neurótico e o não-neurótico podem esperar de uma análise é bastante diferente também.
O neurótico sofre porque sabe demais de si mesmo. Por isso está preso nos próprios enredos imaginários.
O não-neurótico sofre porque sabe de menos de si mesmo. Os enredos, quando existem, são esburacados demais. O Eu mal existe.
O neurótico chega "organizado demais" o não-neurótico "organizado de menos".
A rede de representações bem construída do neurótico precisa ser furada na análise, para que ele consiga romper com essa forma única de existir que lhe causa sofrimento.
A rede de representações do não-neurótico mal foi construída, e a análise pode ser então um dispositivo que promova a construção dessa rede.
Enquanto com o neurótico, o analista aparecerá muito pouco, ficando mais em silêncio, interpretando e questionando, buscando os furos na narrativa, provocando a angústia que o analisando suporta e precisa enfrentar, o analista com o não-neurótico aparecerá muito mais, responderá mais, falará mais, emprestando seu ego como auxiliar, e se adaptando as necessidades ambientais tal como o ambiente inicial do analisando não se adaptou.
Eu Jessica diria ainda que, pensando em termos de posição como propôs Klein, penso que há momentos em que uma pessoa pode estar mais neurótica e outros em que pode estar mais não-neurótica. Em termos bionianos, poderíamos pensar também nas partes neuróticas e psicóticas da mente que, segundo o autor, todos nós possuímos.
É importante pensar nisso para fazer uma "leitura da sessão" da melhor maneira possível e a partir daí construir o manejo. A partir do funcionamento que está sendo apresentado ali, na particularidade daquele dia, é que se pode construir a intervenção mais adequada aquele momento específico.
Isso quer dizer que, num momento da análise, em que o paciente está mais não-neurótico, o analista oferta um certo tipo de cuidado em que sua figura aparece mais, já em outro momento, da mesma análise, o paciente pode estar mais neurótico, e o analista ofertará então outro tipo de cuidado, em que sua figura aparece menos.
O que cada análise pode produzir é infinito, agora, o que cada um irá esperar de uma análise?
Aí vai depender do sintoma rs
No nível consciente, uns irão esperando encontrar um ouvido atento que testemunhe sua história, ou alguém que lhe oferte soluções para todos seus problemas, outros esperam poder se conhecer melhor ou se autorizar como analista...
Isso que se apresenta como uma demanda consciente do que se espera, quando analisado, pode apontar para muitas outras direções incluindo a posição em que o analisando se coloca e coloca os outros de sua vida.
Então isso que se espera, também é material para análise.
Você pode esperar o que quiser e o que você espera diz de você.
A forma que se recebe o ofertado também diz.
Isso não quer dizer que o analista não tem nenhum papel no desenrolar desse processo e na forma como as coisas vão ou não sendo construídas, muito pelo contrário.
Se o analista não está em constante formação e análise, não consegue sustentar a longo prazo esse "lugar não-lugar" na vida de seu analisando.
Há um imenso trabalho sendo feito para tornar possível o trabalho de manter a sensibilidade clínica, de escutar o inconsciente, "ler a sessão", captar a necessidade de cada momento da análise e a partir daí conduzir o manejo.
Então talvez a gente possa pensar que, é possível esperar isso.
Um profissional em constante formação, orientado por essa ética analítica do inconsciente e que não tem nenhum saber prévio sobre nós.
Podemos esperar enfrentar um desafio.
O desafio de estar na presença de um Outro numa relação que evidencia a nossa própria presença.
Cujo foco está em um polo da relação.
Esse é o tipo de enquadre que não podemos esperar em quase nenhum outro lugar ao longo da vida e uma das coisas que torna a análise tão preciosa.

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