"Você nunca será capaz de experimentar tudo. Então por favor, faça justiça poética a sua alma e simplesmente experiemente a si mesmo". Albert Camus
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Vi essa frase por aí e achei bonita, e então passei a tentar elaborar uma resposta para perguntas que me emergem dela:
E o que seria isso de experimentar a si mesmo?
(E tem como NÃO experimentar a si mesmo?)
A primeira coisa que me vem é que, sim, tem como não experimentar a si mesmo.
Da perspectiva que eu parto, isso que chamamos de "si mesmo", o EU, não é dado à priori.
No começo da vida, não existe um Eu e demora um tanto para que ele comece a realmente existir.
A gente costuma brincar com perguntas como: "qual sua lembrança mais antiga? desde quando você lembra que existe?"
E Winnicott fala desse momento em que nos damos conta: "EU SOU!"
E o que acontece é que esse momento é fruto de uma conquista maturacional, não está garantido que irá ocorrer e não ocorre para muitos de nós.
No início só existe um corpo, cheio de pulsões e necessidades que precisam ser atendidas para que esse corpo possa construir um EU.
O eu é uma construção. Simbólica. Fruto da capacidade de se pensar, pensar o mundo, sentir, organizar, conter...
Capacidades que podem ser mais ou menos desenvolvidas a depender do ambiente que recebe e cuida.
Quando as necessidades básicas para essa construção do EU não são atendidas, o si-mesmo não realiza seu potencial de ser.
O que chamamos de trauma na psicanálise winnicottiana, diz daquilo que interrompe a continuidade do Eu.
O EU ali em pleno desenvolvimento, armazenando em si aquilo que irá permitir que ele pense, simbolize, compreenda, viva... é interrompido em sua primordial missão. Precisa se defender para tão somente sobreviver e nada mais.
Não dá para dizer que um EU que se desenvolve precisando se defender o tempo todo se perceba e viva a si mesmo da mesma forma que aquele que passou por poucas falhas e teve sua existência garantida na maior parte do tempo...
Então é preciso cuidar das necessidades para amadurecer um tanto e aí então poder criar o si-mesmo (o verdadeiro).
Então nem todo mundo experimenta a si-mesmo o tempo todo.
E eu também não acho que precisa ser assim, um pouco de loucura é necessária, não sou do time 100% nada, mas acho interessante que na maior parte do tempo ao menos, possamos saber o que somos e viver o máximo de acordo com isso...
Ser o que se é, experimentar o si mesmo, não são coisas que nascemos sabendo fazer e se não tivermos ajuda num primeiro momento, é bom poder contar com essa ajuda no depois... para mim, a psicanálise parece ser um desses instrumentos que auxiliam nesse caminho...
Reitero ainda que não existe SIMPLESMENTE ser.
Ser, como vocês puderam perceber, não é algo simples...
Referências:
WINNICOTT, D. O brincar e a realidade. Editora Ubu.
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