"Aprofundar-me em mim mesmo,
não para ser melhor,
mas para ser quem sou." Lucas Lujan
Por vezes, algo que parece óbvio, não é... costumamos dizer aos 4 ventos que queremos ser melhores que ontem e normalizamos isso sem questionar, mas acho que podemos sim nos perguntar sobre isso de "ser melhor"... que raios afinal isso significa?
Me é estranho pensar por exemplo, que a Jessica de 31 anos é "melhor" que a Jessica de 21, ou de 11, só porque, "sabe mais e tem mais coisas". Pra mim, ela não é melhor ou pior, ela é diferente. Talvez maior, no sentido de ter tido mais experiência, mas não melhor.
Eis o meu ponto, não sou melhor que ontem e isso pra mim não existe.
Primeiro que, sei pouco disso que eu sou, sou um emaranhado de coisas. Em contante interação com o que me acontece... ora se ampliando, ora regredindo. Ora acertando o ponto da carne, ora me apressando ou deixando passar... com sorte, vou continuando e é isso.
Se desenvolver, conquistar coisas, aprender coisas, tudo isso é bom e desejável, mas isso não nos torna MELHORES, na melhor das hipóteses nos torna maiores, nos amplia, nos desdobra...
Eu tô falando aqui do ranço que passei a ter dessa palavra ao longo do tempo...
Melhor tem uma conotação moral, meritocrática, coach vibes... se posso dizer que sou melhor que ontem, posso dizer que sou melhor que outra pessoa, quando na verdade, o que tive foi a sorte de poder me ampliar.
Sem as condições ambientais para que eu possa continuar na vida, eu não sairia do lugar. É verdade que, com sorte, dependemos cada vez menos, mas nunca deixaremos de depender, dos outros, das circunstâncias, e o que foge do nosso controle é sempre maior do que aquilo que controlamos, então sim, sorte.
Me embala essa reflexão uma aula do professor Pedro Heliodoro, em que ele fala sobre o mal-estar social e a clínica contemporânea, articulando autores psicanalíticos com autores de outras áreas, Heliodoro demonstra como algo do sofrimento humano vem se transformando ao longo do tempo, saindo de um funcionamento mais neurótico em direção a um funcionamento perverso, de negação da castração.
Conforme ele coloca, estamos saindo um tanto do modelo de poder como permissão e caminhando para um modelo de poder como capacidade.
Antes não podia porque era proibido, agora é porque você é incapaz.
Da culpa à vergonha.
Eis um importante marcador do sofrimento contemporâneo que me chamou a atenção na fala de Heliodoro.
Tenho recebido cada vez mais notícias disso, na vida, na clínica, onde costumo escutar meus analisandos falarem de dores muito características desse nosso tempo... uma vergonha por não ter isso ou aquilo, uma vergonha profunda, que se estende para o ser que se é e vira combustível de inibições, ansiedades, falso-self...
Para Heliodoro, o consumismo exacerbado, o culto ao corpo fantástico, a busca por fama nas redes sociais, o uso da religião na demonização do diferente, o boom de diagnósticos e a farmacologia, têm sido formas de buscar alívio para o mal-estar contemporâneo.
O mal-estar contemporâneo de não conseguir nunca alcançar esse "melhor", porque ele não existe, é da ordem do impossível.
A manutenção desse mal-estar é fundamental para a manutenção das próprias forças hegemônicas. O neoliberalismo precisa que o sujeito se aliene dessa forma, e que acredite que se ele não consegue algo é porque ele não fez por merecer, já que é sua única e exclusiva responsabilidade "vencer ou fracassar" e mais ninguém tem nada a ver com isso. Quem fala com profundidade sobre esse tema (e tantos outros), é o professor e psicanalista Vladmir Safatle, um autor que gosto e indico para quem tem interesse em compreender mais dessas relações entre os modelos sociais e as formas de sofrimento psíquico.
O pensamento religioso costuma ser tão perigoso aqui e por isso acaba sendo cooptado por setores que também compõe as engrenagens que fazem essa roda girar. É o tipo de pensamento em que há os que vão defender que, tem quem nasce ruim, tem quem nasce perdido, tem quem nasce com muito para resgatar, tem quem está possuído pelo demônio... e então sim, tem quem seja "pior" e tem quem seja "melhor". Recorrer ao pensamento místico para não elaborar questões complexas é compreensível, e justamente por isso, acontece muito e de muitas formas.
Partindo de uma perspectiva complementarista, penso que são várias as lentes e olhares que podemos usar para nos aproximar desses fenômenos contemporâneos.
Trouxe ali uma visão estruturalista, que fala de uma negação da castração e um funcionamento perverso, mas também poderia trazer uma perspectiva desenvolvimentista e apontar para severas falhas ambientais que vem produzindo um certo tipo de sofrimento narcísico profundo...
A partir desses e tantos outros pontos, venho tentando (o que significa nem sempre conseguindo), não alimentar em mim e ao meu redor, esse tipo de veneno corrosivo que é a ideia tentar ser melhor sempre... e a coisa parece caminhar mais leve quando consigo me desprender um tanto disso.
Mais leve para mim, mais leve para os outros que me acompanham...
Estamos todos fazendo o que podemos com aquilo que temos no enfrentamento dessa louca vida. Tudo que fazemos não fazemos sozinhos, somos dependentes, e pouco controlamos. Então se fazemos o que fazemos, e conseguimos o que conseguimos, nada disso é SÓ por nossa causa, nosso único mérito ou demérito, porque viver é coletivo.
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