Como de costume, eu assisto algo ou tenho alguma experiência que julgo interessante, e logo quero falar sobre isso até esgotar todos os debates possíveis, o que não vou conseguir fazer aqui é clar. Nessa fase de isolamento social que estamos vivendo, tem sido mais comum que o normal recorrer a filmes, séries, youtube, bbb, para tentar ter uma experiência que me tire um pouco dessa realidade. Quando assisti O Poço porém, eu só fui jogada abruptamente para um outro olhar da realidade, e os sentimentos que vieram à tona à partir dele trouxeram muito mais desconforto do que acalento, e por isso esse filme é tão marcante. Outras produções distópicas que falam sobre um lado grotesco de ser humano como Black Mirror, me fazem ter o mesmo tipo de sentimento.
Não preciso fazer um resumo do filme aqui para contextualizar os leitores que, com certeza já o assistiram e tiraram suas próprias conclusões. Vou focar em falar da minha interpretação, da leitura que eu consegui fazer da história como um todo, e friso que nunca pontuo características técnicas, primeiro porque não tenho conhecimento para falar sobre essa parte e segundo que para mim, a experiência que o filme é capaz de me proporcionar é que determina o quanto eu vou gostar dele ou não. Dito isso, contudo, preciso deixar uma salva de palmas especial para a atuação dos atores e a montagem das cenas, que eu vejo como elementos fundamentais na hora de nos fazer vidrar na história.
E aí, cada obra tem a sua maneira de nos chamar a atenção, o jeito que O Poço fez isso comigo, foi me imergindo em uma prisão distópica, cujo funcionamento lembra tanto uma parte muito ruim da realidade que vivemos, daquilo que somos, que me causou náusea, vertigem, um desconforto profundo, uma sensação de pesar que me deixou reflexiva até agora. Esse filme até pode ser lido como uma representação de como podemos ser agressivos e egoístas uns com os outros, mas acredito que isso é parte de um contexto maior aqui. Para mim, o filme fala muito mais sobre como o ambiente externo influencia e molda o comportamento humano. O contexto da prisão tanto quanto o contexto capitalista desestimula o altruísmo de diversas formas, as realidades são impostas de cima pra baixo, não existe "justiça" na distribuição de riquezas, é cada um por si com aquilo que tem. Independente de mérito, você pode começar por qualquer lugar, e geralmente aqueles que começam nos níveis mais baixos (tanto no poço quanto na vida) tem muito mais chances de conviver com a violência, com a brutalidade, e possuem muito mais dificuldade de serem empáticos quando conseguem estar um nível acima, porque não receberam isso.
É muito óbvio que se as pessoas no poço estivessem dispostas a dividir igualmente os recursos disponíveis, todos poderiam comer, sobreviver e não teriam que se preocupar em comer ou serem comidos pelos outros presos. Isso parece bem óbvio para nossa sociedade também não é? Existem recursos suficientes no mundo para alimentar pelo menos o dobro da nossa população por centenas de anos, então porque pessoas ainda morrem de fome a cada minuto? Não era só a gente dividir tudo igualmente? É simples não é? Nem tanto. Ideia comunista demais. O próprio Trimagasi chama Goreng de comunista quando ele propõe passar uma mensagem aos demais presos para começarem a dividir a comida. Acontece que, assim como na vida real, ali no poço, o fato deles partirem de lugares muito diferentes, faz com que desenvolvam atitudes muito diferentes uns dos outros, e nem todos vão olhar para essa ideia de divisão e achar ela razoável. O nível em que cada um desperta (no poço e na vida), influencia e molda os comportamentos que cada um terá que ter caso queira sobreviver, e isso também é bem visível na sociedade capitalista. O modelo de produção capitalista se baseia na desigualdade, para que uns tenham muito é necessário que outros tenham pouco, exatamente como no poço.
Cada um desenvolve, de acordo com as próprias vivências, estratégias diferentes para lidar com os diversos tipos de ambiente. Algumas pessoas aprendem a usar a força física, outras têm a sorte de não precisar dela, outros se matam ou ficam loucos, e outros, resolvem tentar uma mudança mais ampla. Esses geralmente apanham mais. No poço, o único que se coloca para lutar contra aquele funcionamento doentio, é o sujeito que entra na prisão por vontade própria, carregando Dom Quixote, um livro espanhol que não à toa, conta a história de um fidalgo sonhador, que quer ser como os heróis favoritos dos romances que leu. Assim como Dom Quixote, nosso quase herói Goreng ousa entrar em uma luta que sabe que pode custar a própria vida, apenas para tentar passar uma mensagem. E assim como Dom Quixote, ele não faz isso sozinho, mas conta com a ajuda de seu terceiro colega de cela, Baharat, que resolve ajudar depois que percebe que se depender das pessoas que estão acima, ele nunca conseguirá sair dali. Durante o percurso dos dois fica evidente o quanto a resistência dos primeiros na cadeia alimentar em dividir a comida é muito mais ferrenha e violenta.
O final me deixou meio confusa a princípio, até que organizei melhor meu pensamento e cheguei a teoria de que, inventar algo pelo qual se vale a pena lutar, é uma estratégia de defesa possível e muito utilizada pelo nosso ego. Então acredito que assim como Miharu inventou uma filha para lhe dar forças para enfrentar aquele ambiente, também Goreng em sua alucinação se apegou a essa ideia, criando a imagem da menina, obtendo um consolo possível diante de sua morte iminente. Para mim, Goreng chega ao último nível com Baharat já morto, e tudo que vem depois disso faz parte de sua fantasia antes de morrer. Não acho que a criança seja real, primeiro porque Imogiri disse que Miharu entrou ali sozinha, e segundo porque seria quase impossível uma criança sobreviver todo esse tempo naquele ambiente. Miharu poderia ter engravidado ali e mantido essa criança viva todo esse tempo, mas acredito que essa hipótese seja mais utópica. Não sei dizer se algum tipo de mensagem de fato chegou até a administração, o esforço dos dois pode não ter valido a pena, assim como acontece na vida real com muitos daqueles que se levantam para tentar fazer alguma mudança.
Um detalhe que achei interessante é o número de níveis existentes no poço, 333, um número que historicamente simboliza o crescimento que existe à partir da união de uma tríplice natural divina, corpo, mente e espírito, simbolizando ajuda e encorajamento. Como são duas pessoas por nível, logo temos o número 666, que na tradição cristã remete ao oposto, a trindade satânica, "o número da besta". Eu não sou nenhuma numerologista, mas acho legal pensar no paralelo entre esses dois significados mais atribuídos culturalmente a esses números dentro do contexto do filme. Entendo como mais um elemento narrativo que reforça a ideia de que os indivíduos ali poderiam se fortalecer agindo em união, mas se transformam em verdadeiras bestas quando não o fazem.
Então pra finalizar, para mim O Poço é isso, uma metáfora da luta de classes, que fala sobre como o ambiente externo molda os comportamentos humanos, e evidencia o quanto seria muito mais inteligente e funcional se pudéssemos pensar e agir pensando no coletivo, garantindo a sobrevivência de todos, e não uma sobrevivência mais afortunada de alguns que custa a vida de outros. O filme é um retrato visceral do quanto nossa falta de capacidade de pensar coletivamente faz com que matemos uns aos outros. Mas não é um egoísmo natural, é um egoísmo desencadeado num ambiente desigual, que não estimula o desenvolvimento da empatia. Acho que o fato de Imogiri, segunda colega de cela de Goreng, trabalhar por 25 anos na administração daquele lugar e não fazer ideia de como ele funciona ao ponto de levar seu cachorro pra lá, diz muito sobre como vários de nós, colaboramos de uma forma ou de outra, mais ou menos consciente, para a manutenção de um sistema que causa muita dor e sofrimento. É claro que ter noção disso nos causa um sentimento de culpa, que em parte é responsável pelo mal estar que o filme nos faz sentir.




