Ontem eu assisti O dilema das redes, um documentário da Netflix que tinha uma galera falando sobre, e quem me conhece sabe né, tudo quanto é produção que envolve drama e tecnologia tem toda minha atenção. Pois bem, acho importante pontuar primeiramente, que se trata de um documentário com viés liberal, e portanto, não problematiza as raízes de todas as questões abordadas dentro do tema que se propõe discutir, que é, como sempre, o modelo de produção capitalista. Ao meu ver, até tece algumas considerações quando questiona "até quando quem tem mais dinheiro terá o poder de manipular e controlar as pessoas dessa forma?" E a resposta é, enquanto houver capitalismo meu amor. Materialista que sou, tudo que eu consumir será atravessado pelo viés de classe, e essa é a minha forma de assistir as coisas criticamente. Pontuado isso, vamos ao documentário.

Basicamente esse documentário escancara a realidade por trás das redes sociais e como isso está impactando a saúde mental das pessoas, aumentando índices de depressão e suicídio ao redor do mundo, principalmente entre os mais jovens. Para quem estuda e entende alguma coisa sobre como funcionam os algorítimos das redes sociais, sobre como elas agem e quem as financia, muitas das informações desse documentário são bem óbvias. Embora eu tenha tido conhecimento de muita coisa dali, não sou nenhuma expertise nessa área, pelo contrário, sou leiga, o que sei aprendi com algumas aulas e cursos de comunicação digital, nada muito profundo, mas que supre a parte que interessa a minha área que é a Psicologia, e gente acredite, tecnologia e psicologia estão mais próximas do que vocês imaginam. Só gostaria de frisar aqui que, mesmo para quem já tem um conhecimento prévio do assunto, vale a pena assistir porque a maneira como o documentário conecta e apresenta essas diversas informações, é muito boa, muito instigante, ao mesmo tempo que ele te prende ele te causa diversos sentimentos e gera muitos questionamentos. É uma produção muito bem roteirizada, áudio e fotografia ao meu ver, impecáveis, o que, junto com um tema que nos toca tanto torna a narrativa muito mais interessante.

O dilema das Redes começa nos apresentando uma galera que trabalhou em cargos importantes durante anos em empresas como Google, Facebook, Youtube, Gmail, Pinterest, e etc. que irão nos falar sobre suas experiências trabalhando nessas empresas, e como essas experiências os fizeram enxergar, ao longo do tempo, todo o mal que estavam ajudando a construir junto delas. Eu não vou me ater aos nomes deles aqui, mas depois que eles passaram a entender os efeitos nocivos das tecnologias na sociedade, se arrependeram de várias coisas, e agora lutam para romper com esse funcionamento que aprisiona e manipula as pessoas. Então depois de conhecermos essa galera com muita experiência no ramo, somos levados a acompanhar cenas cotidianas de uma família fictícia cujos membros estão fortemente conectados com seus aparelhos celulares, e no desmembrar da história, essa família vai ilustrando para nós os efeitos das informações trazidas pelos profissionais que conhecemos no começo. Um adolescente dessa família é observado por três caras que são a mesma pessoa e que o controlam através dos dados que colhem dele, esse painel de controle é uma representação simples e direta de como funciona a inteligência artificial dos algorítimos, que usam nossos dados e manipulam nosso comportamento através disso. Eu achei essa metáfora bem legal e pensei que seria muito boa para uma parte da minha família entender melhor essa parada que é um pouco complexa mesmo para quem nunca viu nada de nada do assunto.
Vou dar uma resumida aqui no que o documentário nos revela e colocar um pouco da minha visão é claro, como sempre.
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Enquanto nossos cérebros não evoluíram quase nada ao longo de toda nossa história, as tecnologias de comunicação evoluíram de uma maneira sem precedentes, mais que qualquer outra tecnologia (porque será?). É citado por exemplo, o caso dos carros, que comparados com os primeiros modelos, não diferem muito de maneira geral, enquanto que as tecnologias artificiais se superam a cada dia. Tudo que a gente curte, compartilha, comenta, visualiza, não visualiza, digita, pesquisa, tudo que fazemos na internet vira dados que montam perfis comportamentais, vendidos para empresas que buscam o público alvo ideal para direcionarem seus anúncios. Todo o design das redes sociais é criado pensando em torná-las mais atraentes, mais viciantes, objetivando manter seus usuários o mais ativos possível, pois assim, eles conseguem coletar mais e mais dados, e vender cada vez mais certezas aos seus anunciantes. Meu amigo, porque você acha que as redes sociais são "gratuitas"? Porque elas não são o produto a ser vendido, o produto é você, sou eu, somos todos nós.
Quem decide que tipo de conteúdo você vai ver na suas timelines da vida são as empresas que financiam essas redes, e quem paga mais, tem mais alcance. Quem você acha que paga mais? Estamos diante do capitalismo de vigilância. O capitalismo cuja única moeda de troca é a nossa atenção voltada para uma tela, fornecendo dados que permitem não só a previsão do nosso comportamento, mas o modelamento dele, manipulação descarada mesmo. Essa manipulação tem sido usada para fins políticos, e é claro que a política sempre se valeu de manipulação para alcançar seus objetivos, mas nunca nessa escala, nunca com esse nível de informação, o que coloca as democracias liberais num nível ainda maior de vulnerabilidade.

Os efeitos devastadores das fake news são um grande exemplo de como o uso sem lei dessas tecnologias por essas grandes empresas, é extremamente perigoso. O brexit no Reino Unidos e as últimas eleições presidenciais do EUA e do Brasil são usados como grandes exemplos de como as fake news podem influenciar processos que deveriam ser democráticos. As estatísticas mostram que conteúdos extremistas, fantasiosos e teorias da conspiração são muito mais compartilhadas, tem muitos mais views do que informações verdadeiras, e como as redes não possuem um mecanismo de combate a isso, acabamos vivendo numa era onde não existe mais o que é verdade, as pessoas acreditam naquilo que está sendo compartilhado na sua bolha e ponto, não tem discussão. Aqui cabe ressaltar o que o documentário não ressalta, que a extrema-direita, endossada pelos seus liberais que financiam suas práticas, utilizam dessas informações para disseminar fake news em massa, dos mais variados tipos. Um anunciante pode pegar um tanto de usuários e chegar pro Facebook e dizer "eu quero direcionar minha propaganda pra mais um milhão de perfis como esses aqui", e pronto, um terço de um país está acreditando em mamadeira de piroca, a merda está feita, e quando desmentida, não tem o mesmo alcance. Quando a gente pensa que o Brasil é um dos países do mundo com mais usuários ativos em redes sociais, esse cenário se torna um campo fértil para aqueles que tem dinheiro, influenciarem uma massa de pessoas a agirem conforme seus interesses.

As novas tecnologias de comunicação e internet nos dão instrumentos incríveis e únicos na história de nossa existência, que podem nos ajudar e nos ajudam em infinitas áreas da vida, isso é inegável. Porém, essa atuação sem regras e sem leis que busquem proteger os consumidores desses abusos, como a obtenção de dados pessoais, e até do design feito para ser viciante, prejudica nossa saúde mental, causa disfunções em nossas relações interpessoais, nos aliena e nos prende em bolhas que nos limitam cada dia mais. E a questão é realmente um paradigma porque não podemos simplesmente sair dessas redes. A questão é, como vamos aprender a fazer um bom uso delas? Acredito eu que a primeira coisa a ser feita, é apoiar um projeto que crie regras que visem proteger as pessoas de todo esse abuso, legislar mesmo, criar leis que obriguem as empresas de tecnologia a serem mais transparentes e menos tirânica com seus usuários, e é aqui que entra a contribuição da galera do direito, que unida da galera da psicologia, sociologia, antropologia, pode trabalhar para tornar o ambiente virtual cada vez menos nocivo e mais democrático de fato. Eu sei que no fundo, por mais importantes que essas medidas sejam, a coisa só vai parar de ser doentia assim quando o capitalismo acabar, porque é ele quem está na raiz do problema. Enquanto o objetivo da produção na nossa existência for o lucro, esse cenário pode até dar uma melhorada se nos esforçarmos, mas não vai ser resolvido. E enquanto isso, estou aqui me propondo a aprender e compartilhar o que eu aprendo, tentando fazer mais pessoas se interessarem em abandonar algumas amarras e pensarem um pouquinho no quanto de si mesmas estão perdendo dentro dessa lógica tão desumana. Por isso a indicação da vez é esse documentário, que com abordagem simples levanta questionamentos complexos e extremamente necessários. Precisamos todos saber do que esse documentário fala, a importância do tema é crucial para podermos ter ainda um pouco de fé no futuro.
Por hoje é isso camaradas, desativem suas notificações, coloquem limites de tempo diário em suas redes, procurem ter mais relações pessoais do que virtuais, e vamos juntos buscar aprender uma maneira mais saudável de viver nesse mundo louco.