quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O que achei de O dilema das Redes

Ontem eu assisti O dilema das redes, um documentário da Netflix que tinha uma galera falando sobre, e quem me conhece sabe né, tudo quanto é produção que envolve drama e tecnologia tem toda minha atenção. Pois bem, acho importante pontuar primeiramente, que se trata de um documentário com viés liberal, e portanto, não problematiza as raízes de todas as questões abordadas dentro do tema que se propõe discutir, que é, como sempre, o modelo de produção capitalista. Ao meu ver, até tece algumas considerações quando questiona "até quando quem tem mais dinheiro terá o poder de manipular e controlar as pessoas dessa forma?" E a resposta é, enquanto houver capitalismo meu amor. Materialista que sou, tudo que eu consumir será atravessado pelo viés de classe, e essa é a minha forma de assistir as coisas criticamente. Pontuado isso, vamos ao documentário.


Basicamente esse documentário escancara a realidade por trás das redes sociais e como isso está impactando a saúde mental das pessoas, aumentando índices de depressão e suicídio ao redor do mundo, principalmente entre os mais jovens. Para quem estuda e entende alguma coisa sobre como funcionam os algorítimos das redes sociais, sobre como elas agem e quem as financia, muitas das informações desse documentário são bem óbvias. Embora eu tenha tido conhecimento de muita coisa dali, não sou nenhuma expertise nessa área, pelo contrário, sou leiga, o que sei aprendi com algumas aulas e cursos de comunicação digital, nada muito profundo, mas que supre a parte que interessa a minha área que é a Psicologia, e gente acredite, tecnologia e psicologia estão mais próximas do que vocês imaginam. Só gostaria de frisar aqui que, mesmo para quem já tem um conhecimento prévio do assunto, vale a pena assistir porque a maneira como o documentário conecta e apresenta essas diversas informações, é muito boa, muito instigante, ao mesmo tempo que ele te prende ele te causa diversos sentimentos e gera muitos questionamentos. É uma produção muito bem roteirizada, áudio e fotografia ao meu ver, impecáveis, o que, junto com um tema que nos toca tanto torna a narrativa muito mais interessante. 


O dilema das Redes começa nos apresentando uma galera que trabalhou em cargos importantes durante anos em empresas como Google, Facebook, Youtube, Gmail, Pinterest, e etc. que irão nos falar sobre suas experiências trabalhando nessas empresas, e como essas experiências os fizeram enxergar, ao longo do tempo, todo o mal que estavam ajudando a construir junto delas. Eu não vou me ater aos nomes deles aqui, mas depois que eles passaram a entender os efeitos nocivos das tecnologias na sociedade, se arrependeram de várias coisas, e agora lutam para romper com esse funcionamento que aprisiona e manipula as pessoas. Então depois de conhecermos essa galera com muita experiência no ramo, somos levados a acompanhar cenas cotidianas de uma família fictícia cujos membros estão fortemente conectados com seus aparelhos celulares, e no desmembrar da história, essa família vai ilustrando para nós os efeitos das informações trazidas pelos profissionais que conhecemos no começo. Um adolescente dessa família é observado por três caras que são a mesma pessoa e que o controlam através dos dados que colhem dele, esse painel de controle é uma representação simples e direta de como funciona a inteligência artificial dos algorítimos, que usam nossos dados e manipulam nosso comportamento através disso. Eu achei essa metáfora bem legal e pensei que seria muito boa para uma parte da minha família entender melhor essa parada que é um pouco complexa mesmo para quem nunca viu nada de nada do assunto. 

Vou dar uma resumida aqui no que o documentário nos revela e colocar um pouco da minha visão é claro, como sempre. 

Créditos na imagem

 Enquanto nossos cérebros não evoluíram quase nada ao longo de toda nossa história, as tecnologias de comunicação evoluíram de uma maneira sem precedentes, mais que qualquer outra tecnologia (porque será?). É citado por exemplo, o caso dos carros, que comparados com os primeiros modelos, não diferem muito de maneira geral, enquanto que as tecnologias artificiais se superam a cada dia. Tudo que a gente curte, compartilha, comenta, visualiza, não visualiza, digita, pesquisa, tudo que fazemos na internet vira dados que montam perfis comportamentais, vendidos para empresas que buscam o público alvo ideal para direcionarem seus anúncios. Todo o design das redes sociais é criado pensando em torná-las mais atraentes, mais viciantes, objetivando manter seus usuários o mais ativos possível, pois assim, eles conseguem coletar mais e mais dados, e vender cada vez mais certezas aos seus anunciantes. Meu amigo, porque você acha que as redes sociais são "gratuitas"? Porque elas não são o produto a ser vendido, o produto é você, sou eu, somos todos nós. 

Quem decide que tipo de conteúdo você vai ver na suas timelines da vida são as empresas que financiam essas redes, e quem paga mais, tem mais alcance. Quem você acha que paga mais? Estamos diante do capitalismo de vigilância. O capitalismo cuja única moeda de troca é a nossa atenção voltada para uma tela, fornecendo dados que permitem não só a previsão do nosso comportamento, mas o modelamento dele, manipulação descarada mesmo. Essa manipulação tem sido usada para fins políticos, e é claro que a política sempre se valeu de manipulação para alcançar seus objetivos, mas nunca nessa escala, nunca com esse nível de informação, o que coloca as democracias liberais num nível ainda maior de vulnerabilidade. 

Os efeitos devastadores das fake news são um grande exemplo de como o uso sem lei dessas tecnologias por essas grandes empresas, é extremamente perigoso. O brexit no Reino Unidos e as últimas eleições presidenciais do EUA e do Brasil são usados como grandes exemplos de como as fake news podem influenciar processos que deveriam ser democráticos. As estatísticas mostram que conteúdos extremistas, fantasiosos e teorias da conspiração são muito mais compartilhadas, tem muitos mais views do que informações verdadeiras, e como as redes não possuem um mecanismo de combate a isso, acabamos vivendo numa era onde não existe mais o que é verdade, as pessoas acreditam naquilo que está sendo compartilhado na sua bolha e ponto, não tem discussão. Aqui cabe ressaltar o que o documentário não ressalta, que a extrema-direita, endossada pelos seus liberais que financiam suas práticas, utilizam dessas informações para disseminar fake news em massa, dos mais variados tipos. Um anunciante pode pegar um tanto de usuários e chegar pro Facebook e dizer "eu quero direcionar minha propaganda pra mais um milhão de perfis como esses aqui", e pronto, um terço de um país está acreditando em mamadeira de piroca, a merda está feita, e quando desmentida, não tem o mesmo alcance. Quando a gente pensa que o Brasil é um dos países do mundo com mais usuários ativos em redes sociais, esse cenário se torna um campo fértil para aqueles que tem dinheiro, influenciarem uma massa de pessoas a agirem conforme seus interesses. 

As novas tecnologias de comunicação e internet nos dão instrumentos incríveis e únicos na história de nossa existência, que podem nos ajudar e nos ajudam em infinitas áreas da vida, isso é inegável. Porém, essa atuação sem regras e sem leis que busquem proteger os consumidores desses abusos, como a obtenção de dados pessoais, e até do design feito para ser viciante, prejudica nossa saúde mental, causa disfunções em nossas relações interpessoais, nos aliena e nos prende em bolhas que nos limitam cada dia mais. E a questão é realmente um paradigma porque não podemos simplesmente sair dessas redes. A questão é, como vamos aprender a fazer um bom uso delas? Acredito eu que a primeira coisa a ser feita, é apoiar um projeto que crie regras que visem proteger as pessoas de todo esse abuso, legislar mesmo, criar leis que obriguem as empresas de tecnologia a serem mais transparentes e menos tirânica com seus usuários, e é aqui que entra a contribuição da galera do direito, que unida da galera da psicologia, sociologia, antropologia, pode trabalhar para tornar o ambiente virtual cada vez menos nocivo e mais democrático de fato. Eu sei que no fundo, por mais importantes que essas medidas sejam, a coisa só vai parar de ser doentia assim quando o capitalismo acabar, porque é ele quem está na raiz do problema. Enquanto o objetivo da produção na nossa existência for o lucro, esse cenário pode até dar uma melhorada se nos esforçarmos, mas não vai ser resolvido. E enquanto isso, estou aqui me propondo a aprender e compartilhar o que eu aprendo, tentando fazer mais pessoas se interessarem em abandonar algumas amarras e pensarem um pouquinho no quanto de si mesmas estão perdendo dentro dessa lógica tão desumana. Por isso a indicação da vez é esse documentário, que com abordagem simples levanta questionamentos complexos e extremamente necessários. Precisamos todos saber do que esse documentário fala, a importância do tema é crucial para podermos ter ainda um pouco de fé no futuro.

Por hoje é isso camaradas, desativem suas notificações, coloquem limites de tempo diário em suas redes, procurem ter mais relações pessoais do que virtuais, e vamos juntos buscar aprender uma maneira mais saudável de viver nesse mundo louco. 


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

tranquila e flutuante

eu percebo que o silencio vai... se estabelecendo
trazendo calmaria
o que antes não deixaria de ser dito
agora compõe a vastidão das vozes silenciadas
porque encontraram conforto em seu eco
é um processo complexo esse de abraçar as próprias sombras
olhar não só pra dentro mas pro fundo

uma vez eu mergulhei no mar na escuridão da noite e pensei,
isso é liberdade...
as águas eram frias, mas eu não sentia
porque eram acalentadoras e quietas 
e me acariciavam
ali eu só existia 
tranquila e flutuante
nas profundezas daquelas águas negras 
não pensava se estava viva ou morta
não existia tempo nem espaço 

falar de penetrar nas próprias trevas,
idealizar menos o ego, 
se retirar do pedestal narcisista
remete a esses sonhos...
confrontar  o mais anuviado que aqui habita
dá sensação boa de liberdade
é como construir verdade
antes de erguer a ponte 
porque entende-se que
essa missão deve ser importante para mais alguém
além de mim mesma