domingo, 16 de março de 2025

"ADOLESCÊNCIA" - a nova série da Netflix que você precisa ver

"Adolescência" é uma minissérie britânica de drama e suspense lançada pela Netflix em 13 de março de 2025. A trama acompanha a família Miller, cuja vida é drasticamente alterada quando Jamie, um adolescente de 13 anos, é acusado do assassinato de uma colega da escola. Enquanto todos buscam compreender a verdade por trás do crime, a narrativa explora as consequências desse evento sob diferentes perspectivas, incluindo de um investigador, de uma psicóloga e a da família.

Cada um dos quatro episódios é gravado em plano-sequência, onde cada tomada é única e contínua, uma abordagem que eu gosto muito porque proporciona uma experiência imersiva e aumenta a tensão e o realismo da história. A série oferece uma produção impecável, com destaque ao trabalho dos atores que é absurdo de bom. 

"Adolescência" alcançou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e têm sido amplamente elogiada pela crítica. A minissérie levanta temas complexos e atuais, como masculinidade tóxica, bullying e ciberbulliyng, "a geração do quarto", os desafios enfrentados pelos jovens na sociedade contemporânea, e oferece uma reflexão profunda sobre as consequências de nossas ações e a busca pela verdade. 

RESPONSABILIDADE DA FAMÍLIA, DA ESCOLA E DA SOCIEDADE NA PREVENÇÃO E COMBATE AO BULLYING E O CIBERBULLYING

A vítima do crime que dá início à trama, uma colega de escola de Jamie, já havia sido alvo de perseguições e humilhações por parte de outros estudantes. O bullying é mostrado em diversas cenas do cotidiano escolar e a série expõe como essas agressões, muitas vezes ignoradas pelos adultos, podem ter consequências trágicas.

O ciberbullying também é abordado de maneira intensa, mostrando como as redes sociais podem amplificar a violência psicológica. Mensagens anônimas, exposição de imagens íntimas e campanhas de difamação são usadas para atacar personagens da série. Isso reflete um problema real enfrentado por muitos jovens, onde a internet se torna um ambiente de hostilidade e julgamento constante.

A série questiona a responsabilidade da escola, dos pais e da sociedade na prevenção e no combate ao bullying. Ao acompanhar diferentes perspectivas, "Adolescência" mostra que, muitas vezes, os sinais de sofrimento são ignorados até que seja tarde demais. A trama convida o espectador a refletir sobre os impactos emocionais dessas agressões e sobre a importância do diálogo e do apoio para os jovens que passam por essas situações.

OS DESAFIOS ENFRENTADOS PELOS JOVENS NÃO ESTÃO ISOLADOS DE FATORES ECONÔMICOS E CULTURAIS

Um momento marcante que aponta para essa camada social é quando Eddie Miller, o pai de James, chora lembrando das coisas boas que deixou de viver com o filho quando sua empresa deslanxou e ele começou a trabalhar muito. A busca por estabilidade financeira no mundo capitalista é o mesmo que a busca por uma vida, uma vida com alguma qualidade. Embora a gente possa falar de um certo uso inconsciente do trabalho como fuga de lidar com outras questões, não dá pra negar a legitimidade do desejo de ter uma boa vida e dar uma boa vida para quem se ama, essa é uma preocupação verdadeira e significativa na equação dos sofrimentos psíquicos e modos de se relacionar. 

REDPILLS E INCELS - A INFLUÊNCIA ONLINE

A minissérie também aborda a influência de movimentos como Incel (celibatários involuntários) e Redpill, que promovem uma visão profundamente distorcida das relações entre homens e mulheres. O tema aparece de forma sutil, mas é fundamental para entender a mentalidade de alguns personagens, mostrando como jovens insatisfeitos com sua vida social e afetiva podem acabar encontrando refúgio em comunidades online que reforçam a frustração e o ódio, especialmente contra as mulheres. 

Ao abordar esses temas, "Adolescência" levanta questões importantes sobre como a falta de diálogos saudáveis sobre masculinidade pode levar jovens a adotarem comportamentos destrutivos. A série, assim, não apenas conta uma história de crime e mistério, mas também se torna um comentário social sobre os perigos da cultura de ódio e a necessidade de educar meninos para que possam expressar suas emoções de maneira saudável, sem cair em discursos de violência e ressentimento.

MASCULINIDADES EM JOGO

É impactante quando Eddie relata como seu pai o batia de forma sádica e de como ao longo de toda vida não quis repetir isso com os filhos. Embora Eddie seja bem intencionado, ele representa um tipo clássico de masculinidade que prioriza o trabalho e ignora a necessidade de criar um vínculo emocional forte com o filho. Esse distanciamento emocional que se cria entre pai e filho pode ter contribuído para que James buscasse referências masculinas em outros lugares, como na internet. 

TRANSGERACIONALIDADE DO SINTOMA

Quando escuto o relato de violência física que o pai de Eddie lhe ofertava, me pergunto o porque de se despejar tanto ódio em uma criança. Embora a maioria dos pais até aqui, tenham naturalizado agredir os filhos, não são todos que os espancam, e esse nível de explosão e de raiva endereçada a uma criança por um adulto, não tem a ver com a criança e o que quer que ela tenha feito, mas sim com o adulto e suas próprias questões não elaboradas. 

Posso ser um tanto freudiana aqui e teorizar sobre como o pai de Eddie, sendo um homem de seu tempo, poderia ter impulsos de ordem sexual fortemente reprimidos e portanto, produzindo muito impacto na sua forma de se relacionar com as pessoas, especialmente a família. Quanto mais forte precisar ser a repressão, maior a dificuldade de contato com o outro e como o contato também é algo que se precisa, a agressão física pode ocupar esse lugar. 

Também posso ser um tanto winnicottiana e pensar que o ambiente insuficientemente bom não possibilitou a vivência do ciclo benigno ao longo das gerações, mantendo as pulsões sexuais e agressivas pouco integradas e subjetivadas no seio familiar. Fato é que, existem elementos de ordem emocional e psicológica que atravessam produndamente os acontecimentos da série.

Eddie, cresce prometendo a si mesmo que jamais faria o mesmo com seus filhos, mas não podemos esquecer que, querer ser o oposto do pai também é tomar o pai como referência. 

Os pais serão tomados como referência de um jeito ou de outro independente do quanto se queira isso ou não, e por isso mesmo, é mais interessante aceitar o fato e começar a fazer uma certa separação possível, afim de construir novos modos de ser e estar no mundo, mais parecidos com o que se é, do que com o que os pais são. 

Como os traumas com o pai não foram suficientemente elaborados, Eddie pode nunca ter batito no filho, mas também não consegue desenvolver uma relação de intimidade com ele. Eddie tenta colocar o filho em esportes considerados "masculinos", mas não consegue esconder sua frustração quando o rapaz não corresponde suas projeções de masculinidade. Esses olhares do pai sobre James, tiveram um impacto profundo no sentimento de autoestima do rapaz, que se sente inferiorizado ao ponto de achar que só é capaz de ser amado por alguém que está fragilizado. A fragilidade dessa autoestima constituída no seio familiar encontra ressonância na sociedade do espetáculo, onde quem não é visto, e bem visto, nem sequer existe. 

PORQUE JAMIE MATOU A COLEGA? 

Como podemos perceber, não se trata de uma única razão por trás dessa passagem ao ato de James. 

Não é exatamente "culpa" de alguém específico, mas existem falhas em todos os cenários apontados. 

O meio familiar é atravessado por questões paternas não elaboradas, e essas questões por sua vez refletem um tipo de masculinidade que, embora venha sendo lentamente superada, ainda impera em muitos sentidos, e produz um profundo sofrimento nos homens, que tem suas emoções inviabilizadas. 

Essa "masculinidade tóxica" é produto de uma série de outros fatores, como o patriarcado, estruturas sociais e históricas que privilegiam os homens e reforçam papéis de gênero, em que o homem é tido como aquele que precisa ser o provedor bem sucedido e dominante. Normas culturais e religiosas muitas vezes constróem modelos masculinos baseados em dominação, controle e negação da vulnerabilidade. Desde a infância meninos são incentivados a reprimir emoções evitar comportamentos considerados "femininos" e demonstrar força e agressividade. Homens que fogem a esse padrão podem ser ridicularizados e excluídos, gerando ainda mais revolta e podendo levar a busca por ideologias extremistas que servem como canalizadores desses afetos... 

QUAL PAPEL DA SOCIEDADE E DOS PAIS FRENTE A ESSES DESAFIOS?

A complexidade dos fenômenos aqui descritos inviabilizam quaisquer soluções simples e receituais. 

A discussão é ampla e precisa continuar ganhando espaço na sociedade, e é aqui que considero ser crucial o papel do estado em promover essas reflexões: no seio educacional, na formação dos profissionais que trabalham com crianças e adolescentes e quaisquer outros espaços possíveis. 

Da parte da família, sabemos que pode ser impossível controlar tudo que os filhos veem e fazem na internet, por isso a importância do investimento no vínculo, a partir do qual os pais podem ter um maior acesso as emoções e pensamentos dos filhos e assim poder perceber quando algo estiver dando sinais de alerta. 

Por mais importante que sejam essas ações, é importante termos consciência de que, a forma como a sociedade capitalista se organiza dificulta todas essas tentativas: o cansaço e exploração que vivem os pais e professores muitas vezes é um fator determinante na promoção de um vínculo mais íntimo com as crianças e adolescentes.