Minerbo aponta a felicidade como sendo um tema tradicionalmente da filosofia, disciplina que aborda o termo com relação ao amor e a sabedoria. Já o sentido abordado pela autora é psicanalítico:
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Comentando "Notas sobre aptidão à felicidade" de Marion Minerbo
Minerbo aponta a felicidade como sendo um tema tradicionalmente da filosofia, disciplina que aborda o termo com relação ao amor e a sabedoria. Já o sentido abordado pela autora é psicanalítico:
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
A SUBSTÂNCIA
Vi muitas pessoas comentando e fazendo análises e críticas interessantíssimas sobre esse filme que, para o bem e para o mal, chegou chamando a atenção de todo mundo e se tornou meu favorito do ano.
Inicio citando as palavras do psicanalista Fabio Belo, que classificou "A Substância" como um "mito contemporâneo de primeira grandeza", frase que gostei muito porque define bem esse filme: "um mito", que assim como todo mito, tem seus exageros, mas se conecta ao real e transmite algo do real. "contemporâneo", porque o enredo do mito tem tons de pós-modernidade, com a objetificação do corpo feminino, a exaltação da juventude e desvalorização da velhice (especialmente para as mulheres), o culto a perfeição e a performance, o endeusamento da "melhor versão"... esses mitos em alguma medida servem a manutenção da hegemonia do pensamento neoliberal ao redor do globo, e têm sido suporte para identificação em massa porque estão em todos os lugares, nas lojas, nos outdoors, nas redes que hoje são acopladas ao corpo..."de primeira grandeza" porque nos aspectos técnicos é realmente uma obra prima. Roteiro, fotografia, som, montagem, edição, tudo absolutamente impecável. É um filme com pouca fala, então a história nos é contada principalmente através de imagem, som e atuação, e que atuação meus amigos... Demi Moore e Margaret Qualley estão sensacionais.
Fabio fez uma leitura kleiniana do filme, interpretando Elisabeth como alguém em uma posição esquizoparanóide, que divide o mundo em bom e mal porque não há integração. A "cisão" da protagonista é literal. O "mal" é literalmente projetado para fora, retornando como ataque persecutório.
Eu vi críticas muito boas ressaltando o quanto o filme explora os imperativos estéticos inalcansáveis de nosso tempo, que atingem principalmente as mulheres por N razões que não caberiam aqui. Também vi análises psicológicas a partir de perspectivas variadas e tudo isso mostra como "A Substância" é uma obra com muitas camadas e diversas possibilidades de leitura e análise.
A minha leitura é sempre complementarista: posso olhar para os aspectos socioculturais do filme assim como para os aspectos psicológicos, mas não que essa divisão realmente exista, a não ser dentro de mim para poder organizar o pensamento, e o que quero dizer com esse comentário é que, o que é individual ou inato e o que vem "de fora", nas questões exploradas em “A Substância”, é um emaranhado indefinível e multideterminado.
Então nisso que "viria de fora", do contexto sociocultural de nosso tempo, temos o culto a juventude, a "melhor versão de si" e os padrões estéticos irreais e perfomáticos, disseminados pelas redes e alcançando todo o globo... agora, porque os sintomas de Elisabeth especificamente se expressaram por essa via, não é algo explicável somente a partir do contexto histórico, pois se fosse o caso, todas as mulheres do mundo sofreriam do mesmo que ela. Para entender mais sobre isso, seria necessário conhecer também o contexto familiar de Elisabeth, como ela viveu e como foi recebida por seu primeiro ambiente, qual era a dinâmica e o funcionamento ali.
Quando pensamos em Winnicott e sua teoria do amadurecimento, a não-integração tem que ver com traumas precoces, ocorridos ali nos primeiros meses de vida e que impedem que o bebê desenvolva seu potencial para o amadurecimento. A integração do Eu é um processo lento e extremamente delicado, que se inicía no começo da vida, se consolida um pouco mais ao final da primeira infância, se estende pela adolescência e de certa forma nunca está completo porque na melhor das hipóteses, continuamos tendo novas experiências e integrando-as ao nosso Eu.
Se eu puder usar livremente minha imaginação posso pensar que, Elisabeth sofreu um trauma precoce que a lançou em um padrão de defesas psicóticas, impedindo a integração do Eu. Um falso-self psicótico surgiu dessa cisão e se agarrou a fama, porque ela serviu como suporte transferencial a mãe-absoluta, ofertando a Elisabeth aquele olhar, o espelhamento que tanto se necessita no processo de integração...
O olhar de deslumbramento que a indústria e a fama lançam sobre Elisabeth é o olhar deslumbrado que um ambiente facilitador (que são os pais ou quem ocupe esse lugar) lança sobre seu bebê e que devolve ao bebê uma imagem mais inteira dele mesmo, acalmando-o diante de seu caos interno e contribuindo para seu processo de integração.
Elisabeth se torna adicta da juventude e da beleza não à toa, mas porque esses se tornaram representantes de um olhar que, por alguma razão, ela pode não ter vivido/recebido, permanecendo no caos. A fama entrou dando algum contorno a esse caos, alguma borda para que ao menos o falso-self de Elisabeth pudesse existir.
Ela não criou outros vínculos e não se desenvolveu de outras formas porque em sua ilusão psicótica, não precisava investir em mais nada além de seu objeto onipotente "fama", já que essa deveria lhe garantir sustentação e gratificação eterna...
... até que essa fama deixa de existir e o falso-self psicótico de Elisabeth não dá mais conta de suportar a angústia no aparelho psíquico, Elisabeth se fragmenta. Primeiro em Sue, depois em um monstro, depois em partes do monstro que vão se despedaçando até seu derradeiro fim.
A divisão em termos de psicose difere muito da neurose... nós todos somos seres divididos, e a divisão nos assombra quando nos obriga a escolher isso ou aquilo, em alguma medida ela nos acompanha a cada esquina e sofremos com ela.
Enquanto na neurose, o sujeito é divido, mas mantém certa noção de inteireza, que o lança na dúvida consciente, na psicose não existe dúvida, só existe certeza. O psicótico não questiona sua sanidade, assim como a versão monstro de Elisabeth, não reflete sobre a loucura de seu comportamento ao final: a expectativa de conseguir se apresentar mesmo estando daquele jeito mostra o quanto naquele momento de extrema fragmentação e psicose, não havia mais nenhum senso de realidade.
Então até aqui, essa é mais ou menos a leitura que me veio sobre esse filme body horror sensacional, que suscita tanto debate, tanta análise, tanto comentário, não sem razão, mas por ser mesmo uma obra complexa, cheia de camadas e possibilidades de reflexão. ABSOLUTE CINEMA





