quarta-feira, 14 de outubro de 2020

SÉRIE: BOM DIA, VERÔNICA e a violência doméstica

     

    No último fim de semana eu e meu amigo hibernamos assistindo essa série brasileira, que estreou na Netflix no começo de Outubro e já está causando alvoroço entre quem assistiu. Estou falando de Bom dia, Verônica, que conta com Tainá Müller, Eduardo Moscovis e Camila Morgado nos papéis principais, encabeçando uma trama frenética do começo ao fim de seus 8 episódios. Vários pontos me chamaram a atenção nessa série e é sobre isso que vamos falar agora. 

     Inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Ilana Casoy e Raphael Montes, a série conta a história de Verônica Torres (Tainá Müller), uma escrivã policial, casada e com dois filhos, que tem sua rotina virada de ponta cabeça depois de presenciar o suicídio de uma mulher na delegacia onde trabalha. Verônica fica intrigada com o acontecido, se sentindo culpada por não ter feito nada, então começa a investigar o caso, se colocando publicamente à disposição de outras mulheres que precisam de ajuda. É aí que Janete (Camila Morgado) entra em contato com ela e começa a pedir socorro porque está com medo do que o seu marido Claudio Brandão (Eduardo Moscovis) pode fazer com ela. A missão de Verônica daí pra frente será entender como ela pode ajudar Janete, e no meio disso ela acaba descobrindo várias outros esquemas de corrupção em que sua própria equipe está envolvida, além de ter que lidar com um serial killer, colocando sua vida e de sua família em risco. 

    A primeira coisa que me fez gostar de Bom dia, Verônica logo de cara é que ela é esse tipo de série que cada momento te deixa querendo saber o que vai acontecer depois. É tudo muito alucinante, toda história se passa muito rápido e sempre tem alguma coisa acontecendo. Sabe quando você pensa a todo momento "meu pai QUE QUE VAI ACONTECER AGORA?!" pois é, esse é um tipo de emoção que eu adoro sentir quando assisto algo, e essa série é um prato cheio para quem gosta disso, portanto nem comece a assistir sem tempo, porque você vai querer ver um episódio atrás do outro sem parar. 

    O terror psicológico é instaurado pelo realismo da série, pois o tema central é a violência doméstica, presente nos mais variados níveis, na vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. Aqui entra um segundo ponto que me faz realmente querer indicar Bom dia, Verônica, que é o fator crítico, a discussão que vale a pena ser discutida, o assunto que vale a pena ser falado, a verdade que precisa ser vista. O machismo e a misoginia estruturais da nossa sociedade, produzem mulheres suscetíveis à serem colocadas em posição inferiorizada, esvaziadas de si mesmas, ao ponto de muitas delas nem sequer serem capazes de compreender a violência que vivem, o perigo que correm, e acima de tudo, se culpando por isso.         

    

    É perturbador ver o sofrimento psíquico e físico que uma mulher enfrenta em uma relação abusiva, e a série trabalha muito bem essa realidade, mostrando a estratégia de manipulação do abusador e a dependência emocional em que ele coloca a vítima, retirando ela dela mesma, preenchendo os vazios que ficam com medo e culpa. A série trabalha com o extremo, o abusador aqui é um serial killer, e embora nem todos na vida real sejam assim, os homens abusivos possuem traços de personalidade muito parecidos e que os colocam na posição de possíveis assassinos. 

       Bom dia, Verônica também é sobre as infinitas dificuldades que uma mulher enfrenta quando quer pedir ajuda em situação de violência. A atitude da mulher sempre posta em dúvida, a desconfiança das autoridades que deveriam dar suporte, o descaso da sociedade, a corrupção, elementos que compõe uma instituição falida que só serve para oprimir as massas e garantir a manutenção do status quo. Na série somos apresentados a essa pessoa que se importa, e junto com isso, somos levados junto com ela, a percorrer esses espaço de dificuldade e abandono enfrentada por milhares de mulheres todos os dias. 


A indicação tá feita, massss

APROVEITANDO A DEIXA... nesse mesmo mês de lançamento da série, temos o Dia Nacional da Luta contra a violência doméstica, uma data fixada há 40 anos após a mobilização de mulheres no Theatro Municipal de São Paulo. 40 anos se passaram, o assunto já começa a penetrar com mais solidez no debate social, mas MUITO ainda precisa ser feito. Nenhuma de nós seremos livres enquanto todas não forem. A violência contra a mulher é sintoma do machismo estrutural que nos molda. Quando eu assisto novelas, filmes e séries de alguns poucos anos atrás já consigo perceber nitidamente como a sociedade sempre rebaixa o papel da mulher e sua importância. Isso tem mudado, mas ainda falta muito para chegarmos a raiz do problema, o fim do capitalismo, mas aí, já é tema pra outro textão. 

E para não deixar passar, segue alguns traços da personalidade abusiva, que precisam ser identificados para que a mulher saiba reagir na hora certa, para que ela consiga quebrar o ciclo. 

    Traços da personalidade abusiva

É preciso entender, e a série mostra isso, que o abusador não começa o relacionamento sendo violento, isso vai se desenvolvendo ao longo da relação através de várias etapas, que vão se cumprindo e imprimindo na mulher essa posição de aceitação, que começa como uma esperança de melhora na relação até ir para o estágio do medo e da culpa. Eu acho importantíssimo falarmos sobre os indícios que um abusador dá logo no começo, esses sinais precisam estar claros para todas nós, porque são esses sinais que vão nos permitir reconhecer o abusador e possibilitar dar um fim no relacionamento antes que seja tarde demais. 

Controle
Ele vai fazer parecer que é cuidado, preocupação, mas esse é um dos primeiros sinais que uma pessoa abusiva começa a mostrar, e que fica bem explícito em vários comportamentos do indivíduo. Para começar a ter controle sobre a vida da vítima, o abusador precisa saber tudo de sua rotina, com quem conversa, com quem trabalha, quais são os membros mais próximos da família, quem são os melhores amigos, os lugares que frequenta. Com o passar do tempo começa a controlar as roupas que a pessoa usa, pede acesso as suas redes sociais, suas senhas. 

   Nos relacionamentos modernos, percebo muito esse traço em atitudes como "eu posso, mas você não", onde uma pessoa faz alguma coisa, sai para algum lugar sozinha por exemplo, e a outra faz a mesma coisa, mas a reação do abusador é de repúdio, geralmente eles "terminam" a relação e culpam a outra pessoa, esperando que a pessoa peça desculpas, tente se redimir, e se isso acontece, o abusador já entende que tem o controle da situação. 

  Vale frisar que, é normal casais compartilharem essas informações ao longo do tempo, com naturalidade tudo isso vai surgindo na relação, mas é a maneira como isso é questionado que é diferente num relacionamento abusivo, percebe-se um tom investigativo, de desconfiança. A vítima responde a esses questionamentos tentando justificar que não há motivo para julgá-la mal, e é aí que está o grande X da questão, quando nos percebemos nessa posição de dar explicação sobre algo que não faz o menor sentido, é hora de repensar a relação. O melhor caminho é já pontuar logo no começo que esse tipo de comportamento não será tolerado, e terminar a relação caso perceba que esse é o modus operandi.

Ciúme excessivo
Uma vez que o controle da situação já está estabelecido, um ciúme gradualmente possessivo começa a aparecer, é aí que vem as famigeradas fuçadas no celular do outro, acusações sem sentido, perguntas invasivas de toda ordem. No começo, o abusador tenta mostrar que são só perguntas inofensivas de uma pessoa muito apaixonada que tem medo de perder a outra, mas com o passar do tempo, conforme a vítima vai se deixando envolver, a invasão de privacidade começa a se acentuar, até chegar ao nível em que a pessoa não pode ter vínculos afetivos com mais ninguém fora do relacionamento. Amigos, colegas e parentes vão sendo excluídos cada vez mais, deixando a vítima isolada e sem perspectiva. 

  O ciúme possessivo nunca começa extremo, como tudo num relacionamento abusivo, ele vai aumentando gradativamente e esse aumento é perceptível para quem está ciente que isso é um problema sério. Existe uma romantização imensa em torno do ciúme, muitas pessoas realmente acreditam que sentir ciúme é prova de amor, quando na verdade está mais relacionado ao campo da insegurança e baixa autoestima. A pessoa não tem medo de perder aquela namorada específica, mas de perder o que essa namorada faz essa pessoa sentir que é, e isso faz com que esse ciúme se repita em todas as relações do abusador. É um traço dele, não tem a ver com o parceiro. 

    Nem todo mundo que sente ciúme é abusivo, muitas pessoas têm noção do quanto esse sentimento pode ser danoso para uma relação e conseguem o controlar com maturidade, sem atacar a vida do outro. Um pouco de ciúme, insegurança e medo de perder o outro é normal, somos imperfeitos e carregamos esses traços, o grande problema é ser adulto e não saber manejar isso. E como a gente sabe se o ciúme está demais ou não? Bom, o fato de se fazer essa pergunta estando em uma relação já diz muita coisa. Se o ciúme começa a ser cada vez mais frequente, se ele atrapalha a vida de alguma forma, faz a pessoa sempre estar se sentindo mal, já está bem claro que essa relação não é saudável e essa invasão vai se agravar.

Humilhações, agressões verbais, terror psicológico
    A sensação é como se a vítima fosse tudo e ao mesmo tempo nada. Porque se por um lado, quando precisa se sentir melhor, o abusador diz ao seu parceiro tudo que ele quer ouvir, que ele é especial, que o ama mais que tudo, que faz tudo por ele e que por isso, e aí vem o outro lado, também perde a cabeça. Então tenta fazer a vítima se sentir a pior pessoa do mundo, vai minando sua autoestima, dia após dia, até que ela se entregue a essa posição de humilhada. Pequenas ofensas gratuitas, não gostou da roupa nova que comprou, achou feia a última foto postada no feed, achou vulgar falar ou agir de tal forma, a comida comprada no restaurante seria melhor, a série que outra pessoa apresentou foi mais legal, e por aí vai, a lista de exemplos é infinita, e o padrão é esse. E isso é só o começo, como já ficou claro aqui, as humilhações também se intensificam, e não vão parar.


Agressões físicas
    Até que comecem as agressões físicas. Quando uma relação chega nesse estágio, o risco da morte é eminente. A agressão física acontece dentro de um contexto de total dominação do abusador sobre a vítima, e é só por isso, que ela geralmente se prolonga. A relação doentia já se naturalizou, e para quem já perdeu a própria identidade para o outro, um tapa na cara, um beliscão, um puxão de cabelo, pode nem parecer mais tão ameaçador. A vítima já está completamente esvaziada. Vínculos financeiros, filhos, envolvimento emocional patológico, falta de apoio daqueles que perdeu no caminho, falta de apoio do estado, falta de apoio da sociedade. A mulher que vive a violência doméstica não se vê tendo alternativas. E quando a gente olha para a realidade, como vamos dizer que elas estão de todo erradas? 

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Em Bom dia, Verônica conhecemos um pouco mais dessa realidade, e por ser um entretenimento que agrega, faço questão de deixar registrado aqui nesse textão, a minha forte indicação para que todas, todos e todes assistam também, e que possamos ampliar a visão sobre a importância de discutir esse tema e abri-lo para toda sociedade. É fundamental a compreensão da complexidade que é estar em uma relação de abuso, e a última coisa que uma pessoa nessa situação precisa é de mais preconceito e julgamento. Exercitemos constantemente nossa empatia, o nosso olhar de cuidado com o outro, e não percamos de vista, a longa estrada de luta adiante. 



CANAIS DE APOIO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

A Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência - Ligue 180 – é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria Nacional de Políticas, desde 2005.

Associação Nenhuma a Menos Maringá - Apoio e suporte para mulheres de todo país na luta contra o feminicídio. 


Mais informações: https://www.mapadoacolhimento.org/


    




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O que são os SONHOS?

     

    Com certeza você já se fez essa pergunta algumas vezes na vida, afinal, trata-se de uma produção da nossa mente, muito misteriosa e difícil de decifrar, capaz de gerar longas conversas e teorias buscando compreendê-la. 
    No senso comum, os sonhos costumam ter significados diversos, uma grande parte das pessoas acredita em poderes sobrenaturais dos sonhos, que eles podem por exemplo, interferir na realidade, ser uma premonição do futuro, ou até mesmo, carregar mensagens divinas. Outros acreditam que são apenas fragmentos de memórias que se misturam, e que não significam nada demais. 

     Para a Psicanálise porém, os sonhos adquirem um outro importante significado. De acordo com Freud (1900), os sonhos são uma via direta de acesso ao nosso inconsciente. É uma produção do nosso aparelho psíquico, que tem seu funcionamento próprio, com suas regras e objetivos específicos, dos quais falaremos um pouco agora. 

     Foi à partir dos estudos sobre os sonhos que Freud escreveu o seu primeiro livro psicanalítico, A Interpretação dos Sonhos (1900), considerado o livro que inaugurou a Psicanálise e um dos mais importantes de toda obra freudiana. De acordo com o autor, os sonhos são, em sua grande parte, a realização disfarçada de desejos reprimidos

      Essa função de realização de desejo é muito fácil de identificar nos sonhos das crianças, porque geralmente a censura ainda não se estabeleceu completamente nesses pequenos, e o conteúdo de seus sonhos costumam expressar seus desejos de forma bastante clara. Não é incomum ouvirmos crianças contarem que sonharam que ganharam tal brinquedo que queriam, ou que foram passear em tal lugar que estão pedindo para ir. 

    Durante o sono a consciência diminui quase que por completo, e com isso a repressão diminui também, aumentando a possibilidade dos conteúdos inconscientes de chegarem à consciência, o que tende a fazer com que o indivíduo desperte. Sendo assim, os sonhos para Freud (1900) possuem também a função de guardar o sono, numa espécie de acordo entre o id e o ego, onde é permitida uma gratificação parcial das pulsões através das imagens oníricas produzidas ali, diminuindo a força dessas pulsões e possibilitando o indivíduo continuar dormindo, imerso nessa recompensa. Dizendo de outra maneira, ao sonharmos, essa censura que sofremos quando estamos acordados, perde sua força, e aquilo que reprimimos em nós, têm mais chances de vir à tona, podendo interromper o sono. Então, para nos manter dormindo, os sonhos oferecem uma realização parcial dessas pulsões reprimidas, que serve como uma gratificação.  

Lady Gaga - 911
 Nos sonhos temos um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, as sensações corpóreas de frio, calor, fome, e etc, nossas memórias do dia anterior, é aquele conteúdo que conseguimos contar quando acordamos. E temos o conteúdo latente, que é inconsciente e reprimido. Assim, os sonhos são compostos por 3 elementos fundamentais: 

1 - impressões sensoriais noturnas (como a sensação de sede por exemplo)

2 - resquícios de memória da experiência diurna (registros do último dia são mais fortes)

3 - pulsões do id (fantasias de natureza sexual e/ou agressiva)

       Todos esses fragmentos de memória e sensações porém, não aparecem separadinhos e bonitinhos nos sonhos, muito pelo contrário. Eles são representados de maneira dramática através de símbolos e metáforas, que são a condensação e o deslocamento desses elementos. Na condensação acontece uma fusão de representações, uma combinação entre imagens de memórias cotidianas com ideias do conteúdo reprimido, que são condensadas em uma única imagem ou símbolo. Já no deslocamento, ocorre uma transferência da importância de uma ideia para uma outra que seja um fragmento dessa ideia, que desvie a atenção da ideia principal, ou seja, esse deslocamento funciona como uma defesa para encobrir o conteúdo reprimido, protegendo o indivíduo que sonha de se defrontar com suas pulsões mais arcaicas. 

        Identificamos a condensação quando sonhamos por exemplo, com uma grande casa, uma floresta, ou qualquer símbolo que cause um sentimento muito forte, que não seria causado em circunstâncias normais, conscientes, mas causa no sonho porque representa vários outros conteúdos nossos ao mesmo tempo. Tudo nesse símbolo são partes da pessoa que sonha, que encontraram alguma conexão com essa representação e assim se expressou. Também tem aqueles sonhos em que estamos com uma pessoa, sabemos quem ela é, mas ela não tem a mesma aparência da vida real, isso também é um exemplo da condensação e deslocamento de elementos psíquicos. O deslocamento coloca uma importância muito grande em uma representação para tirar o foco do que realmente importa. 

       Esses dois mecanismos de disfarce operam juntos e ao mesmo tempo, e tornam os sonhos tão difíceis de serem decifrados para nós, porque podem fundir várias ideias em poucos símbolos, e dar muita ênfase em alguma cena que nem tenha tanta relevância, buscando fazer com que nos percamos dos detalhes, que são a parte mais reveladora dos sonhos. Isso faz com que o conteúdo manifesto, ou seja, aquele que conseguimos descrever ao acordarmos, muitas vezes, pareça não ter nenhum sentido, já que ele foi todo disfarçado para poder servir ao propósito de nos manter dormindo, através da realização parcial de nossos desejos reprimidos. 

       

    Quando esses mecanismos de disfarce por alguma razão falham, os sonhos se apresentam como pesadelos, ou seja, o desejo reprimido não pôde ser totalmente deformado para entrar na consciência, então assustou e fez o indivíduo acordar. De acordo com Freud [2019 (1900)], esses sonhos ainda cumprem a função de realização dos desejos, mesmo que se apresentando de outra forma, e assim falhando em seu outro objetivo de guardar o sono. Isso porque, se por um lado o pesadelo causa algum tipo de sofrimento e desperta o indivíduo, por outro lado, existe um ganho psíquico também, pois a catarse de ter libertado esse conteúdo, liberado certo afeto ligado à ele, economiza o uso da energia que o mantinha recalcado. Quanto mais força a mente faz para esconder um conteúdo reprimido durante os sonhos, mais perturbador fica o sono.

        À partir de 1920, num congresso de Haia, Freud traz um novo grupo de sonhos que contradiz sua teoria inicial de que eles expressam a realização de desejos inconscientes: os sonhos traumáticos. Eles acontecem normalmente em pessoas que tiveram alguma experiência traumática, mas também ocorrem nos neuróticos (a maioria de nós). Esses sonhos são a pura repetição de um trauma não elaborado, e funcionam como uma descarga pulsional, ou seja, liberação da energia psíquica ligada a esse trauma. O trauma é uma experiência vivida que não conseguiu se inscrever no aparelho psíquico porque não encontrou nenhuma representação nele que permitisse sua simbolização, e o elemento que diferencia a formação de um trauma para Freud é o susto. 

        Freud (1996 [1920]) começa a pensar então que, se os sonhos traumáticos não correspondem à sua teoria de realização de desejos reprimidos, é porque deve ter outra função psíquica ainda mais primitiva do que a obtenção de prazer e evitação de desprazer. Essa função estaria ligada a uma compulsão à repetição, uma característica fundamental da pulsão de morte, um conceito que, conforme Bonomi (2019), dá início a uma nova fase na psicanálise freudiana, e que com certeza falaremos mais em outro momento. 


Considerações finais... 

    Existem várias pesquisas recentes tanto da neurociência, quanto da psicanálise e até da neuropsicanálise (que busca juntar as contribuições de ambas), cujos resultados apontam para caminhos que podem convergir com a teoria freudiana enquanto outros nem tanto. De acordo com Cheniaux (2006) grande parte dos cientistas não acreditam que o sonho possua qualquer função, mas que serve apenas para consolidação da memória que depende do sono, mas quanto a isso também há discordâncias. O ponto é que, alguns cientistas procuram explicar os sonhos através de fenômenos puramente biológicos, enquanto outros, buscam associar as descobertas recentes com as teoria psicanalítica, e eu friso isso aqui para deixar claro que não há um consenso científico sobre os motivos da formação dos sonhos, ou suas funções, o que existem são teorias e estudos em constante andamento. 

         A área que me aprofundo é a psicanálise, portanto, minha visão sobre esse fenômeno é respaldada pela teoria freudiana, e o conteúdo que eu produzo sobre esse tema está seguindo essa lógica. Vale ressaltar também, que em um único texto como este é impossível esgotar um assunto tão abrangente como os sonhos, mas o objetivo aqui, é trazer da maneira mais simples possível, o que a Psicanálise tem a nos dizer sobre esse fenômeno da nossa vida mental tão enigmático. 

Créditos na imagem

Então para a Psicanálise os sonhos não possuem relações com o divino nem possuem funções metafísicas ou sobrenaturais. Eles são uma produção psíquica, que busca proteger nosso sono através da realização parcial de desejos reprimidos, representados através de imagens distorcidas por mecanismos de deslocamento e condensação, que produzem metáforas e símbolos propositalmente difíceis de serem decifrados pela consciência. Quando esses mecanismos falham, os sonhos se manifestam como pesadelos, e nossas pulsões recalcadas aparecem sem disfarce, nos fazendo acordar. A exceção à essas regras está nos sonhos traumáticos, que repetem a vivência traumática várias e várias vezes, pois ela não pode ser expressa de outra forma, uma vez que não encontrou representação no psiquismo. 

        Os sonhos também são para Freud, uma maneira de observar como funciona nosso inconsciente, as regras as quais ele está submetido são completamente diferentes das regras aos quais a consciência obedece. Ali não existe tempo, espaço, não há ordem cronológica, nem limites físicos ou materiais. As mensagens que ele tenta passar servem a funções e objetivos específicos da nossa vida mental, quanto mais observamos nossos sonhos, mais próximos estamos de entender nossas pulsões mais arcaicas, o que é um ótimo exercício de autoconhecimento. 

        Portanto, para a psicanálise, essa coisa de "saiba o que significa sonhar com isso ou aquilo", não existe porque, o significado de cada sonho é particular, é subjetivo, tem a ver com a própria pessoa que sonha, embora alguns elementos possuam significados comuns, como os arquétipos, no fundo, o sonho fala de quem sonha, de nada mais. 


REFERÊNCIAS

CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul,  Porto Alegre,  v.28, n.2, p.169-177. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  09  de Outubro 2020.

FREUD, Sigmund. (1900) A Interpretação dos Sonhos. São Paulo. 1°ed. Companhia das Letras. 2019.

FREUD, Sigmund. (1920) Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

BONOMI, Tomás. Função dos sonhos, pesadelos e sonhos traumáticos para Freud. Conexões Clínicas. 2019. Disponível em: <https://conexoesclinicas.com.br/funcao-dos-sonhos-pesadelos-e-sonhos-traumaticos-para-freud/#:~:text=Para%20Freud%2C%20os%20pesadelos%20falhariam,realiza%C3%A7%C3%A3o%20alucinada%20dos%20desejos%20inconscientes>. Acesso em 10 de Outubro de 2020.



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O que achei de O dilema das Redes

Ontem eu assisti O dilema das redes, um documentário da Netflix que tinha uma galera falando sobre, e quem me conhece sabe né, tudo quanto é produção que envolve drama e tecnologia tem toda minha atenção. Pois bem, acho importante pontuar primeiramente, que se trata de um documentário com viés liberal, e portanto, não problematiza as raízes de todas as questões abordadas dentro do tema que se propõe discutir, que é, como sempre, o modelo de produção capitalista. Ao meu ver, até tece algumas considerações quando questiona "até quando quem tem mais dinheiro terá o poder de manipular e controlar as pessoas dessa forma?" E a resposta é, enquanto houver capitalismo meu amor. Materialista que sou, tudo que eu consumir será atravessado pelo viés de classe, e essa é a minha forma de assistir as coisas criticamente. Pontuado isso, vamos ao documentário.


Basicamente esse documentário escancara a realidade por trás das redes sociais e como isso está impactando a saúde mental das pessoas, aumentando índices de depressão e suicídio ao redor do mundo, principalmente entre os mais jovens. Para quem estuda e entende alguma coisa sobre como funcionam os algorítimos das redes sociais, sobre como elas agem e quem as financia, muitas das informações desse documentário são bem óbvias. Embora eu tenha tido conhecimento de muita coisa dali, não sou nenhuma expertise nessa área, pelo contrário, sou leiga, o que sei aprendi com algumas aulas e cursos de comunicação digital, nada muito profundo, mas que supre a parte que interessa a minha área que é a Psicologia, e gente acredite, tecnologia e psicologia estão mais próximas do que vocês imaginam. Só gostaria de frisar aqui que, mesmo para quem já tem um conhecimento prévio do assunto, vale a pena assistir porque a maneira como o documentário conecta e apresenta essas diversas informações, é muito boa, muito instigante, ao mesmo tempo que ele te prende ele te causa diversos sentimentos e gera muitos questionamentos. É uma produção muito bem roteirizada, áudio e fotografia ao meu ver, impecáveis, o que, junto com um tema que nos toca tanto torna a narrativa muito mais interessante. 


O dilema das Redes começa nos apresentando uma galera que trabalhou em cargos importantes durante anos em empresas como Google, Facebook, Youtube, Gmail, Pinterest, e etc. que irão nos falar sobre suas experiências trabalhando nessas empresas, e como essas experiências os fizeram enxergar, ao longo do tempo, todo o mal que estavam ajudando a construir junto delas. Eu não vou me ater aos nomes deles aqui, mas depois que eles passaram a entender os efeitos nocivos das tecnologias na sociedade, se arrependeram de várias coisas, e agora lutam para romper com esse funcionamento que aprisiona e manipula as pessoas. Então depois de conhecermos essa galera com muita experiência no ramo, somos levados a acompanhar cenas cotidianas de uma família fictícia cujos membros estão fortemente conectados com seus aparelhos celulares, e no desmembrar da história, essa família vai ilustrando para nós os efeitos das informações trazidas pelos profissionais que conhecemos no começo. Um adolescente dessa família é observado por três caras que são a mesma pessoa e que o controlam através dos dados que colhem dele, esse painel de controle é uma representação simples e direta de como funciona a inteligência artificial dos algorítimos, que usam nossos dados e manipulam nosso comportamento através disso. Eu achei essa metáfora bem legal e pensei que seria muito boa para uma parte da minha família entender melhor essa parada que é um pouco complexa mesmo para quem nunca viu nada de nada do assunto. 

Vou dar uma resumida aqui no que o documentário nos revela e colocar um pouco da minha visão é claro, como sempre. 

Créditos na imagem

 Enquanto nossos cérebros não evoluíram quase nada ao longo de toda nossa história, as tecnologias de comunicação evoluíram de uma maneira sem precedentes, mais que qualquer outra tecnologia (porque será?). É citado por exemplo, o caso dos carros, que comparados com os primeiros modelos, não diferem muito de maneira geral, enquanto que as tecnologias artificiais se superam a cada dia. Tudo que a gente curte, compartilha, comenta, visualiza, não visualiza, digita, pesquisa, tudo que fazemos na internet vira dados que montam perfis comportamentais, vendidos para empresas que buscam o público alvo ideal para direcionarem seus anúncios. Todo o design das redes sociais é criado pensando em torná-las mais atraentes, mais viciantes, objetivando manter seus usuários o mais ativos possível, pois assim, eles conseguem coletar mais e mais dados, e vender cada vez mais certezas aos seus anunciantes. Meu amigo, porque você acha que as redes sociais são "gratuitas"? Porque elas não são o produto a ser vendido, o produto é você, sou eu, somos todos nós. 

Quem decide que tipo de conteúdo você vai ver na suas timelines da vida são as empresas que financiam essas redes, e quem paga mais, tem mais alcance. Quem você acha que paga mais? Estamos diante do capitalismo de vigilância. O capitalismo cuja única moeda de troca é a nossa atenção voltada para uma tela, fornecendo dados que permitem não só a previsão do nosso comportamento, mas o modelamento dele, manipulação descarada mesmo. Essa manipulação tem sido usada para fins políticos, e é claro que a política sempre se valeu de manipulação para alcançar seus objetivos, mas nunca nessa escala, nunca com esse nível de informação, o que coloca as democracias liberais num nível ainda maior de vulnerabilidade. 

Os efeitos devastadores das fake news são um grande exemplo de como o uso sem lei dessas tecnologias por essas grandes empresas, é extremamente perigoso. O brexit no Reino Unidos e as últimas eleições presidenciais do EUA e do Brasil são usados como grandes exemplos de como as fake news podem influenciar processos que deveriam ser democráticos. As estatísticas mostram que conteúdos extremistas, fantasiosos e teorias da conspiração são muito mais compartilhadas, tem muitos mais views do que informações verdadeiras, e como as redes não possuem um mecanismo de combate a isso, acabamos vivendo numa era onde não existe mais o que é verdade, as pessoas acreditam naquilo que está sendo compartilhado na sua bolha e ponto, não tem discussão. Aqui cabe ressaltar o que o documentário não ressalta, que a extrema-direita, endossada pelos seus liberais que financiam suas práticas, utilizam dessas informações para disseminar fake news em massa, dos mais variados tipos. Um anunciante pode pegar um tanto de usuários e chegar pro Facebook e dizer "eu quero direcionar minha propaganda pra mais um milhão de perfis como esses aqui", e pronto, um terço de um país está acreditando em mamadeira de piroca, a merda está feita, e quando desmentida, não tem o mesmo alcance. Quando a gente pensa que o Brasil é um dos países do mundo com mais usuários ativos em redes sociais, esse cenário se torna um campo fértil para aqueles que tem dinheiro, influenciarem uma massa de pessoas a agirem conforme seus interesses. 

As novas tecnologias de comunicação e internet nos dão instrumentos incríveis e únicos na história de nossa existência, que podem nos ajudar e nos ajudam em infinitas áreas da vida, isso é inegável. Porém, essa atuação sem regras e sem leis que busquem proteger os consumidores desses abusos, como a obtenção de dados pessoais, e até do design feito para ser viciante, prejudica nossa saúde mental, causa disfunções em nossas relações interpessoais, nos aliena e nos prende em bolhas que nos limitam cada dia mais. E a questão é realmente um paradigma porque não podemos simplesmente sair dessas redes. A questão é, como vamos aprender a fazer um bom uso delas? Acredito eu que a primeira coisa a ser feita, é apoiar um projeto que crie regras que visem proteger as pessoas de todo esse abuso, legislar mesmo, criar leis que obriguem as empresas de tecnologia a serem mais transparentes e menos tirânica com seus usuários, e é aqui que entra a contribuição da galera do direito, que unida da galera da psicologia, sociologia, antropologia, pode trabalhar para tornar o ambiente virtual cada vez menos nocivo e mais democrático de fato. Eu sei que no fundo, por mais importantes que essas medidas sejam, a coisa só vai parar de ser doentia assim quando o capitalismo acabar, porque é ele quem está na raiz do problema. Enquanto o objetivo da produção na nossa existência for o lucro, esse cenário pode até dar uma melhorada se nos esforçarmos, mas não vai ser resolvido. E enquanto isso, estou aqui me propondo a aprender e compartilhar o que eu aprendo, tentando fazer mais pessoas se interessarem em abandonar algumas amarras e pensarem um pouquinho no quanto de si mesmas estão perdendo dentro dessa lógica tão desumana. Por isso a indicação da vez é esse documentário, que com abordagem simples levanta questionamentos complexos e extremamente necessários. Precisamos todos saber do que esse documentário fala, a importância do tema é crucial para podermos ter ainda um pouco de fé no futuro.

Por hoje é isso camaradas, desativem suas notificações, coloquem limites de tempo diário em suas redes, procurem ter mais relações pessoais do que virtuais, e vamos juntos buscar aprender uma maneira mais saudável de viver nesse mundo louco. 


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

tranquila e flutuante

eu percebo que o silencio vai... se estabelecendo
trazendo calmaria
o que antes não deixaria de ser dito
agora compõe a vastidão das vozes silenciadas
porque encontraram conforto em seu eco
é um processo complexo esse de abraçar as próprias sombras
olhar não só pra dentro mas pro fundo

uma vez eu mergulhei no mar na escuridão da noite e pensei,
isso é liberdade...
as águas eram frias, mas eu não sentia
porque eram acalentadoras e quietas 
e me acariciavam
ali eu só existia 
tranquila e flutuante
nas profundezas daquelas águas negras 
não pensava se estava viva ou morta
não existia tempo nem espaço 

falar de penetrar nas próprias trevas,
idealizar menos o ego, 
se retirar do pedestal narcisista
remete a esses sonhos...
confrontar  o mais anuviado que aqui habita
dá sensação boa de liberdade
é como construir verdade
antes de erguer a ponte 
porque entende-se que
essa missão deve ser importante para mais alguém
além de mim mesma


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cinco motivos para você assistir DARK!

É difícil quem ainda não tenha se entregado para Dark nesse momento, a Netflix acabou de lançar a terceira e última temporada da série e eu ainda não vi porque vou maratonar as duas primeiras de novo com meu melhor amigo que ainda não viu, pregadora da palavra de Dark que sou, e até lá sigo me esquivando dos spoilers nas redes sociais, e para dar aquela atualizada até na minha própria cabeça, segue um pequeno post com cinco motivos pelos quais eu acredito que vale a pena ver essa série.

Bug na cabeça
Para quem gosta daquela travada no cérebro depois de assistir alguma coisa, Dark é uma das melhores pedidas. A série gira em torno da temática viagem no tempo, então o tempo todo temos que lidar com personagens que vem e que vão para diferentes anos e como isso interfere na história do tempo em que estamos acompanhando que é 2019. Só por isso já se pode ter uma ideia do nó que precisamos desamarrar para poder entender o que está acontecendo, então é importante saber que não é uma série para colocar e deixar passando, sem prestar muita atenção, se fizer isso, provavelmente não irá entender nada podendo até achar a série ruim. É preciso estar presente, não perder nenhuma fala ou acontecimento, ficar atento aos detalhes que a série vai usando para nos dar pistas do que vem pela frente, porque o bug existe, mas se assistir direitinho (talvez até mais de uma vez como eu rs) é possível entender tudo bonitinho hehe. 

Suspense no ar o tempo todo 
Sabe aquela série que você fica se perguntando o tempo todo "é o que que tá acontecendo?", "como é que isso aconteceu?", "onde isso vai dar?", pois então, Dark é essa série, e vai além. O suspense é envolvente e bebe um pouco da fonte do terror, criando uma atmosfera densa, pesada, capaz de provocar vários calafrios na espinha. Esse mix de terror e suspense mexe com nosso imaginário e nos proporciona uma experiência muito única, e claro, subjetiva, porque cada um vai, à partir da própria constituição psíquica, adentrar de uma maneira particular nesse universo de mistérios e simbolismos. O bom suspense nos coloca pra pensar, e nos leva a formular mil teorias para tentar desvendar o que está acontecendo, e quem gosta desse tipo de enigma precisa assistir Dark. 

Contato com outra cultura
Conhecer a produção de um lugar que não estamos acostumados e ver é bem enriquecedor para nossa capacidade de apreensão do mundo. Se você gosta de assistir filmes de países diferentes do nosso (eu amo o cinema nacional que fique bem claro) e dos norte americanos, que fomos acostumados a ver pelos veículos de mídia disponíveis, vai gostar também dessa série alemã misteriosa e convidativa. Através dela, é possível estabelecer contato com a produção cultural alemã, afinal estamos consumindo um produto da Alemanha, um país de muita história, que geralmente conhecemos como principal ator da Segunda Guerra Mundial. Somos imersos na sua linguagem, na sua leitura de mundo, no que eles destacam quando narram suas histórias, o que são características muito particulares de cada país em cada contexto. Resumindo, assim como qualquer produção, ao nos contar sua história, nos insere em um contexto que não é o nosso, treinando assim nossa capacidade de ver além do espectro que nos circunda na vivência comum do dia a dia. Está aí uma das características da arte que mais me tocam e que eu amo sem precedentes. 

Fotografia, trilha sonora e atuação impecáveis
Esses três elementos quando bem trabalhados são responsáveis por nos imergir ainda mais na história. Eu sou totalmente leiga nos aspectos técnicos que compõe uma produção, mas ao menos eu sei (através de algumas coisas que eu li e dos meus migos do cinema) que a fotografia envolve a capacidade de transformar em imagens aquilo que está posto no roteiro, implicando assim na iluminação, movimentos de câmera, enquadramentos, paleta de cores, enfim, se trata das imagens que vemos e na harmonia entre esses elementos. Uma boa fotografia contribui para a história na medida em que combina esses ingredientes e consegue passar com a maior clareza possível aquilo que a história se propõe a passar, seja medo, raiva, amor, reflexão, apreensão, aflição e etc. A paleta de cores de Dark é incrivelmente simbólica, o tom frio e sóbrio das cores ambiente sempre contrasta com cores vivas que estão ali para passar a sua mensagem. A cor amarela tão marcada na jaqueta do Jonas é um exemplo, já que o amarelo além de ser uma cor associada ao mês de setembro na conscientização sobre a depressão, é uma cor que por outro lado, simboliza luz, calor, e é conhecida por ser uma cor usada para chamar a atenção sob um ponto. O Jonas sabemos, é um personagem sofrendo psicologicamente o luto da perda do pai que se suicidou, e é também um personagem central na história, e eu não vou falar mais que isso pra fugir do spoiler haha. 
Já a trilha sonora como o próprio nome já indica, se refere ao áudio da série, aos sons ambiente, as músicas, tudo que diz respeito ao ambiente sonoro. A atmosfera sombria das cores é completada pela trilha sonora pesada e marcante, os sons e as cenas são perfeitamente sincronizados, desde os tic-tac dos relógios, até as entradas das músicas em cena (amo particularmente as cenas que aparecem músicas dos anos 80 que lembram muito a pegada Stranger Things) e até mesmo quando a intenção é silenciar, os ruídos se fazem presentes de forma certeira. Tudo é muito bem arranjado e combinado, de maneira que nos mergulha ainda mais na profundidade das questões que a série aborda. 
Quanto a atuação dos atores, minha particular admiração! Para mim, absolutamente todos estão impecáveis. Conseguem transmitir o peso do drama que estão vivendo, bem como todos os sentimentos que circundam, a dor, a esperança, o medo, a dúvida e etc. Esses atores alemães não brincam em cena, e como a construção dos personagens é muito bem elaborada, a atuação dos mesmos faz com que nos apeguemos ainda mais na história que eles estão vivendo. 

Dramalhão daqueles
Se você gosta de todos esses elementos que apresentei e ainda por cima, aprecia um bom drama, entre com tudo e sem medo em Dark. A história entrelaçada dos personagens entre presente, passado e futuro, é repleta de desaparecimentos misteriosos, assassinatos, traições, perdas, lutos, paixões não correspondidas, bullying, depressão, abandono... Os conflitos cercam todos os personagens de alguma maneira, e a gente fica com aquela sensação de "tá todo mundo f*dido nessa bagaça!" rs. Não existe um alívio, a história só vai ficando cada vez mais densa, cada vez mais pesada para todo mundo. Drama é meu gênero favorito do cinema, então com essa série eu me encontro na profundidade com que os temas são abordados, ao mesmo tempo em que mistura viagem no tempo, tecnologia e religião, outros temas que sou apaixonada e que eu sei que muita gente também é, não é a toa, o sucesso de Dark. 





domingo, 26 de abril de 2020

cortinas de fumaça

olhos entreabertos, neblina esvaindo com o vento
entrecortando a luz da noite refletida nas superfícies
hora quente hora fria...
ao fundo algumas notas musicais
de uma trilha que denuncia uma contemplação passiva
finca-nos no solo não como sementes
mas como meros telespectadores
que respondem no automático

a sua mensagem fingindo despretensiosidade chega
e em pouco tempo eu estou passando a língua na sua boca
abrindo o zíper da sua calça
respirando o suor da tua pele
com o corpo trêmulo que quase não consegue reagir
ao som da sua respiração
que parece que vai me devorar como um animal selvagem
mas domado pela vontade de me sentir por dentro
eu vou provar seu gosto
de todas as formas possíveis
e você vai gostar
e eu vou te fazer se sentir livre
e você vai se sentir tão livre que
depois de algum tempo nunca determinado
você não me será mais viável
e eu vou preencher a minha boca abrindo outro zíper

você vai achar que doeu
mas não teve tempo pra sua presença se tornar preenchedora
de qualquer espaço
a partida é a conclusão de um capítulo como qualquer outro
vai no máximo causar algum desconforto por algum tempo
como qualquer história que nos causa paixão
e que como qualquer história tem seu fim

nessa satisfação preguiçosa e narcisista
uma dança com corpos diferentes de diferentes formas
treina um olhar nostálgico que ensaia a a cada encontro
a provável despedida
que não vê algo em que se agarrar
mas algo que no mesmo momento em que chega
já está indo embora

quinta-feira, 26 de março de 2020

"O Poço" uma metáfora visceral da nossa realidade

Como de costume, eu assisto algo ou tenho alguma experiência que julgo interessante, e logo quero falar sobre isso até esgotar todos os debates possíveis, o que não vou conseguir fazer aqui é clar. Nessa fase de isolamento social que estamos vivendo, tem sido mais comum que o normal recorrer a filmes, séries, youtube, bbb, para tentar ter uma experiência que me tire um pouco dessa realidade. Quando assisti O Poço porém, eu só fui jogada abruptamente para um outro olhar da realidade, e os sentimentos que vieram à tona à partir dele trouxeram muito mais desconforto do que acalento, e por isso esse filme é tão marcante. Outras produções distópicas que falam sobre um lado grotesco de ser humano como Black Mirror, me fazem ter o mesmo tipo de sentimento. 
Não preciso fazer um resumo do filme aqui para contextualizar os leitores que, com certeza já  o assistiram e tiraram suas próprias conclusões. Vou focar em falar da minha interpretação, da leitura que eu consegui fazer da história como um todo, e friso que nunca pontuo características técnicas, primeiro porque não tenho conhecimento para falar sobre essa parte e segundo que para mim, a experiência que o filme é capaz de me proporcionar é que determina o quanto eu vou gostar dele ou não. Dito isso, contudo, preciso deixar uma salva de palmas especial para a atuação dos atores e a montagem das cenas, que eu vejo como elementos fundamentais na hora de nos fazer vidrar na história.  

E aí, cada obra tem a sua maneira de nos chamar a atenção, o jeito que O Poço fez isso comigo, foi me imergindo em uma prisão distópica, cujo funcionamento lembra tanto uma parte muito ruim da realidade que vivemos, daquilo que somos, que me causou náusea, vertigem, um desconforto profundo, uma sensação de pesar que me deixou reflexiva até agora. Esse filme até pode ser lido como uma representação de como podemos ser agressivos e egoístas uns com os outros, mas acredito que isso é parte de um contexto maior aqui. Para mim, o  filme fala muito mais sobre como o ambiente externo influencia e molda o comportamento humano. O contexto da prisão tanto quanto o contexto capitalista desestimula o altruísmo de diversas formas, as realidades são impostas de cima pra baixo, não existe "justiça" na distribuição de riquezas, é cada um por si com aquilo que tem. Independente de mérito, você pode começar por qualquer lugar, e geralmente aqueles que começam nos níveis mais baixos (tanto no poço quanto na vida) tem muito mais chances de conviver com a violência, com a brutalidade, e possuem muito mais dificuldade de serem empáticos quando conseguem estar um nível acima, porque não receberam isso. 
É muito óbvio que se as pessoas no poço estivessem dispostas a dividir igualmente os recursos disponíveis, todos poderiam comer, sobreviver e não teriam que se preocupar em comer ou serem comidos pelos outros presos. Isso parece bem óbvio para nossa sociedade também não é? Existem recursos suficientes no mundo para alimentar pelo menos o dobro da nossa população por centenas de anos, então porque pessoas ainda morrem de fome a cada minuto? Não era só a gente dividir tudo igualmente? É simples não é? Nem tanto. Ideia comunista demais. O próprio Trimagasi chama Goreng de comunista quando ele propõe passar uma mensagem aos demais presos para começarem a dividir a comida. Acontece que, assim como na vida real, ali no poço, o fato deles partirem de lugares muito diferentes, faz com que desenvolvam atitudes muito diferentes uns dos outros, e nem todos vão olhar para essa ideia de divisão e achar ela razoável. O nível em que cada um desperta (no poço e na vida), influencia e molda os comportamentos que cada um terá que ter caso queira sobreviver, e isso também é bem visível na sociedade capitalista. O modelo de produção capitalista se baseia na desigualdade, para que uns tenham muito é necessário que outros tenham pouco, exatamente como no poço.

Cada um desenvolve, de acordo com as próprias vivências, estratégias diferentes para lidar com os diversos tipos de ambiente. Algumas pessoas aprendem a usar a força física, outras têm a sorte de não precisar dela, outros se matam ou ficam loucos, e outros, resolvem tentar uma mudança mais ampla. Esses geralmente apanham mais. No poço, o único que se coloca para lutar contra aquele funcionamento doentio, é o sujeito que entra na prisão por vontade própria, carregando Dom Quixote, um livro espanhol que não à toa, conta a história de um fidalgo sonhador, que quer ser como os heróis favoritos dos romances que leu. Assim como Dom Quixote, nosso quase herói Goreng ousa entrar em uma luta que sabe que pode custar a própria vida, apenas para tentar passar uma mensagem. E assim como Dom Quixote, ele não faz isso sozinho, mas conta com a ajuda de seu terceiro colega de cela, Baharat, que resolve ajudar depois que percebe que se depender das pessoas que estão acima, ele nunca conseguirá sair dali. Durante o percurso dos dois fica evidente o quanto a resistência dos primeiros na cadeia alimentar em dividir a comida é muito mais ferrenha e violenta. 

O final me deixou meio confusa a princípio, até que organizei melhor meu pensamento e cheguei a teoria de que, inventar algo pelo qual se vale a pena lutar, é uma estratégia de defesa possível e muito utilizada pelo nosso ego. Então acredito que assim como Miharu inventou uma filha para lhe dar forças para enfrentar aquele ambiente, também Goreng em sua alucinação se apegou a essa ideia, criando a imagem da menina, obtendo um consolo possível diante de sua morte iminente. Para mim, Goreng chega ao último nível com Baharat já morto, e tudo que vem depois disso faz parte de sua fantasia antes de morrer. Não acho que a criança seja real, primeiro porque Imogiri disse que Miharu entrou ali sozinha, e segundo porque seria quase impossível uma criança sobreviver todo esse tempo naquele ambiente. Miharu poderia ter engravidado ali e mantido essa criança viva todo esse tempo, mas acredito que essa hipótese seja mais utópica. Não sei dizer se algum tipo de mensagem de fato chegou até a administração, o esforço dos dois pode não ter valido a pena, assim como acontece na vida real com muitos daqueles que se levantam para tentar fazer alguma mudança. 

Um detalhe que achei interessante é o número de níveis existentes no poço, 333, um número que historicamente simboliza o crescimento que existe à partir da união de uma tríplice natural divina, corpo, mente e espírito, simbolizando ajuda e encorajamento. Como são duas pessoas por nível, logo temos o número 666, que na tradição cristã remete ao oposto, a trindade satânica, "o número da besta". Eu não sou nenhuma numerologista, mas acho legal pensar no paralelo entre esses dois significados mais atribuídos culturalmente a esses números dentro do contexto do filme. Entendo como mais um elemento narrativo que reforça a ideia de que os indivíduos ali poderiam se fortalecer agindo em união, mas se transformam em verdadeiras bestas quando não o fazem. 

Então pra finalizar, para mim O Poço é isso, uma metáfora da luta de classes, que fala sobre como o ambiente externo molda os comportamentos humanos, e evidencia o quanto seria muito mais inteligente e funcional se pudéssemos pensar e agir pensando no coletivo, garantindo a sobrevivência de todos, e não uma sobrevivência mais afortunada de alguns que custa a vida de outros. O filme é um retrato visceral do quanto nossa falta de capacidade de pensar coletivamente faz com que matemos uns aos outros. Mas não é um egoísmo natural, é um egoísmo desencadeado num ambiente desigual, que não estimula o desenvolvimento da empatia. Acho que o fato de Imogiri, segunda colega de cela de Goreng, trabalhar por 25 anos na administração daquele lugar e não fazer ideia de como ele funciona ao ponto de levar seu cachorro pra lá, diz muito sobre como vários de nós, colaboramos de uma forma ou de outra, mais ou menos consciente, para a manutenção de um sistema que causa muita dor e sofrimento. É claro que ter noção disso nos causa um sentimento de culpa, que em parte é responsável pelo mal estar que o filme nos faz sentir. 



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre abraçar a própria história

Antes me mais nada, quero ressaltar que a linguagem aqui tem licença poética, e que quando eu for falar de ciência, ou passar alguma informação isso será sempre devidamente referenciado. Aqui sou eu Jessica emitindo minhas opiniões que ninguém perguntou, mas que eu gosto de registrar para análises posteriores, como sou acostumada a fazer com tudo na minha vida desde sempre. Dito isso, seguimos para nossas reflexões sobre o título do post. O que significa abraçar a própria história e porque devemos buscar fazer isso?
Olha pra você agora. Pára seus pensamentos e olha para você, olha para os seus pés, olha para suas mãos, olha para suas pernas, suas coxas, seus braços, seus dedos, sua barriga, suas marecas, se olha
no espelho, se olha no olho, se vê. Você está com esse corpo, você carrega esse corpo e esse corpo te carrega desde o dia em que você surgiu, e vocês têm uma história, uma longa e única história. Ter uma história única não quer dizer que a gente é especial não, e isso é bom. Ser especial é carregar um fardo pesado demais para os ombros humanos ainda tão falhos. Não temos nada de especial, na escala evolutiva, somos animais que pensam, e temos isso ao nosso favor, ou ao menos deveríamos ter, porque pensando bem, não temos nos esforçado para usar nossa inteligência coletivamente. 

Para abraçar a própria história você precisa se contextualizar no mundo real, entender o ambiente em que você vive, entender como funciona o coletivo. Aqui nesse mundo existem pessoas que possuem mais e outras menos, o que costumamos chamar de desigualdade social. Existe justiça para alguns, não existe para tantos outros. Aqui nesse mundo morre uma pessoa de fome por minuto. Não sabemos usar nossos recursos sabiamente, estamos destruindo o planeta para vender plástico, e por mais inteligentes que possamos ser, cada dia mais nos afundamos em guerras por dinheiro, gastando para isso, um dinheiro que poderia deixar o mundo todo bem alimentado, suprido. Aqui tem gente brigando por tudo, por território, poder, dinheiro, ideologia... Aqui nesse planeta que você e seu corpo vivem, existem coisas ruins e também coisas boas, e aleatoriamente vamos passar por umas e por outras. 

Isso mesmo, aleatoriamente. Por mais que você queira acreditar nas regras que uns velhos escreveram há dois mil anos atrás, não existe nenhum senhor atrás da cortina desse show de horrores apontando quem deve sofrer mais e quem deve sofrer menos. Seria um belo de um sacana esse ser, no mínimo, para ser educada. Tirar o peso de ser especial ou estar sendo cuidado por alguém, ou possuir qualquer tipo de karma, é entender que aqui vamos chorar e vamos sorrir, e que em todos esses momentos, devemos olhar para nossa história e entender o porque desse choro e desse riso. "Mas Jessica, porque se sentir especial ou acreditar em deus/destino me atrapalharia nisso?" Aí é que está, não precisa atrapalhar. Saber separar as crenças pessoais da ciência, é uma qualidade que todo aquele que gostaria de entender melhor a vida que o cerca e a si mesmo, deveria fazer. 

Tá tudo bem crer, ter espiritualidade e tudo mais. Se isso é claro, não te fizer se sentir mais do que outra pessoa, alguém mais especial do que os outros, ou o contrário, alguém que possui um karma e que está destinado a sofrer por algum motivo ou atrair certas coisas. Qualquer visão determinista que você usar para olhar sua história, vai te afastar de si mesmo. Você pode acreditar no que quiser, desde que entenda que você não sofre porque "merece", ou porque Deus quis, ou o contrário, que têm os privilégios que têm porque é especial, porque merece, porque atraiu porque é fodão e o universo te ama enquanto deixa o pivete baleado na esquina. Sua vida não está nas mãos de ninguém, nem de deus, nem do universo, nem signo, nem energia nem demônio, é você. Você está caminhando nessa selva de pedra, usando os materiais que conseguiu separar ao longo do caminho, pisando em flores e em espinhos, encarando e desviando para sobreviver. É você, vindo de seu pai, nascido de sua mãe, no lugar em que você nasceu. Se trata de onde você veio e com quem você têm vivido até aqui, seu contexto, sua localização geopolítica, nesse exato momento da história de um mundo que tem mais de 4 bilhões de anos. 

Abraçar a própria história é entender que, somos o que somos porque nascemos onde nascemos e vivemos o que vivemos. Isso não quer dizer que nosso meio nos determinou. Isso quer dizer que nosso ser subjetivo nasceu em um determinado lugar do mundo em um determinado tempo, onde as regras funcionam de uma determinada maneira e esse nosso eu, esse ser subjetivo, que pensa, que sente, se adaptou a isso porque é isso que a gente faz, a gente se adapta. Somos dependentes uns dos outros desde que nascemos, em todos os níveis, porque somos péssimos animais, não sabemos lutar, não sabemos correr, não temos garras nem dentes afiados, como mamíferos soltos na natureza morreríamos facilmente. As coisas são diferentes quando nos unimos. Como sociedade, somos capazes de fazer muita, mas muita coisa. E estamos longe de começar a fazer a coisa certa, embora eu não possa dizer que não temos tentado também. É difícil eu começar qualquer reflexão e não acabar correlacionando-a com questões sociais, porque na minha visão está tudo interligado, faz parte da visão macro, que nos coloca frente a uma realidade para além da nossa própria, e nos permite ver, que a vida não está limitada ao nosso mundinho, isso nos contextualiza. 
Na medida em que eu sei que dentro desse mundo existem centenas de milhares de histórias únicas, eu consigo entender que se ninguém mais poderia ter vivido o que eu vivi, o que eu senti, então eu não poderia também ter conseguido, vivido aquilo que o outro viveu ou conseguiu, porque somos essencialmente diferentes. Quando nos deparamos com as situações diversas do dia-a-dia, usamos as ferramentas que temos para lidar com elas, interpretamos com as lentes que adquirimos através dos outros, sobre como a vida deve ser vista, vivida. Vamos sendo lapidados a todo instante pelas novas circunstâncias. Somos tão capazes de aprender e isso é uma das coisas que ainda me faz sentir algum tipo de fé na humanidade. Então, porque não começarmos a investir energia nisso, entender um pouco mais de nós a cada dia? Se a gente entende bem como as coisas foram acontecendo ao longo da nossa vida, adquirimos automaticamente um olhar mais acolhedor sobre nossas cicatrizes. Somos seres complexos, profundos, enigmáticos e com um potencial, ao meu ver, ilimitado. Precisamos entender que nossas conquistas podem ser diferentes, nossos anseios podem ser diferentes, aquilo que nos aborrece ou entristece não precisa ser o mesmo que para outra pessoa. Não precisamos nos encaixar em um padrão, pelo contrário, que sejamos nós mesmos nosso próprio padrão. 

Olhar para as coisas que nos fazem bem com carinho, nossas músicas, nossos filmes e séries, nossas artes... as pessoas que nos fazem realmente bem, que nos impulsionam, que nos fazem ver o melhor em nós mesmos sem deixar de ser críticos e verdadeiros. Olhar para nosso corpo físico e remontar junto com ele essa história de vida que começa lá na infância, e vai perpassando os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras séries escolares, os primeiros amigos, os primeiros amores, as primeiras frustrações... Sua mente tentando caber em seu corpo e seu corpo tentando se adaptar a sua mente, nem sempre essa união pareceu estável, eu sei, mas a tentativa de mantê-la nos trouxe até aqui, e ao que tudo indica, vale a pena continuar, nem que seja só para, ver no que vai dar. Essa é a chance que precisamos nos dar todos os dias.