No último fim de semana fiquei presa a telinha por seis horas seguidas sem conseguir fazer outra coisa que não, consumir essa obra maravilhosa e cheia de significados tão importantes para nossa vida, devido ao seu enredo que provavelmente, permanecerá atual por tempo indeterminado. Estamos falando de Years and Years, série da HBO em parceria com a BBC que foi lançada no começo desse ano e que eu só assisti agora depois da indicação de dois dos meus amigos com ótimo gosto para séries haha. Na descrição da trama souberam cativar minha atenção ao adiantarem: é uma mistura de política com Black Mirror. Pronto. Apenas mais algumas palavras já foram suficientes para me convencer a começar a assistir, e uma vez iniciada meus amigos, não tem como parar até chegar ao final (que é relativamente curto, só tem 6 episódios), e é desse tipo de série que a gente gosta né? Então cá estou, para deixar registradas minhas percepções sobre a obra e também a indicação forte para que assistam, sejam na HBO, seja baixando ou por outros sites clandestinos, vale a pena e eu vou dizer porque, assinalando os pontos que considero mais fortes da trama e que me prenderam por tantas horas seguidas.
Sinopse
A história principal envolve os acontecimentos cotidianos da vida de uma família bem inclusiva composta por quatro irmãos, duas irmãs, Rosie que é cadeirante, mãe de dois filhos, Lee e Lincon, e Edith, lésbica e ativista política. Também tem os dois irmãos, Daniel, que é oficial de imigração e casado com Ralph, e o irmão mais velho Stephen, consultor financeiro casado com Celeste com quem tem duas filhas, Ruby, uma adolescente comum e Bethany que é apaixonada por tecnologia. A mãe dessa galera morreu e o pai acaba morrendo no meio da série também e nem chegamos a conhecê-los, quem os une é a matriarca Muriel, avó dos irmãos, que é aquela parente que reúne todo mundo em volta dela sempre que pode. Acompanhamos o dia-a-dia dessa família de 2019 à 2033, e todos esses anos se passam em apenas 6 episódios, então a série passa essa impressão de acabar muito rápido por que muita coisa acontece o tempo todo. Como pano de fundo dessas histórias temos o desenvolvimento da tecnologia e dos meios de comunicação, junto de um cenário político onde uma figura começa a se destacar na mídia por falar diversos absurdos que chocam alguns e impressionam outros, e que aos poucos vai conquistando seu espaço e criando um futuro cada vez mais catastrófico.
A gritante conexão com a realidade
Seja série ou seja filme, se tem algum tipo de ligação com o mundo real já tem um ponto muito positivo pra mim. Valorizo e aprecio extremamente produções fictícias, entro em diferentes universos quando se trata de algo fantasioso, mas se tem elementos que podem ser conectados com a materialidade eu fico fascinada, e nesse quesito a série faz isso tanto no que diz respeito a política quando a tecnologia, fazendo jus a comparação com Black Mirror que é uma das minhas séries favoritas (embora a última temporada tenha sido bem ruim). A evolução tecnológica é impressionante, mas o que mais se conecta a nossa realidade atual diz respeito a política e ao meio ambiente. Para qualquer um que possua uma leitura um pouco mais apurada e crítica da nossa realidade material, traçar as semelhanças com a série se torna bem fácil, pois as conexões ficam bem nítidas: governantes se elegendo à base da estratégia de discurso de ódio e fake news, sendo usados como marionetes por um poder real, que por trás trabalha para enriquecer poucos enquanto enfraquece e oprime a classe trabalhadora, que assiste a tudo isso acontecendo sem entender muito bem, porque estão envolvidos em outras coisas. A natureza cobrando o preço pela sua destruição, chuvas que duram 100 dias e alagam cidades inteiras produzindo milhares de refugiados. Colapso econômico, bancos e instituições indo a falência e levando consigo milhares de pessoas, produzindo um cenário onde a mão de obra qualificada não é mais necessária, e podemos ver cientistas
trabalhando como operários por um salário mísero e tendo que ter outros empregos para se sustentar. Tudo isso acontecendo porque, sem pensar muito sobre a importância da política, as pessoas elegeram um governo sem plano algum, desestruturado e incapaz de lidar de forma assertiva com os problemas que se apresentam, produzindo uma crise geral totalmente desestabilizadora. Se isso não te faz pensar na realidade, você não pode dizer que compreende o que estamos vivendo porque não está. Até mesmo nos diálogos entre os personagens fica muito claro como funciona essa estratégia de despolitização, e que estamos no meio desse processo de enfraquecimento das estruturas sociais. O primeiro passo nesse sentido nós já demos na vida real, ao elegemos um governo com as mesmas estratégias políticas, despreparado, perdido quanto as próprias funções e acima de tudo, manipulado por interesses de uma centralidade capitalista que não está preocupada com um colapso que pode atingir a maioria, mas deveria. Talvez demore ainda muito tempo para os apoiadores de Bolsonaro perceberem o tiro no pé que deram colocando esse boçal para governar um país tão plural e complexo como o Brasil, talvez percebam antes de 2022 porque ele faz muita merda diariamente, mas mesmo assim, não tenho grandes esperanças para esse momento, que poderemos ter aí um Luciano Hulk, Dória ou alguém até pior que o Bolsonaro um Witzel por exemplo, o que não me agrada em nada obviamente.
Seja série ou seja filme, se tem algum tipo de ligação com o mundo real já tem um ponto muito positivo pra mim. Valorizo e aprecio extremamente produções fictícias, entro em diferentes universos quando se trata de algo fantasioso, mas se tem elementos que podem ser conectados com a materialidade eu fico fascinada, e nesse quesito a série faz isso tanto no que diz respeito a política quando a tecnologia, fazendo jus a comparação com Black Mirror que é uma das minhas séries favoritas (embora a última temporada tenha sido bem ruim). A evolução tecnológica é impressionante, mas o que mais se conecta a nossa realidade atual diz respeito a política e ao meio ambiente. Para qualquer um que possua uma leitura um pouco mais apurada e crítica da nossa realidade material, traçar as semelhanças com a série se torna bem fácil, pois as conexões ficam bem nítidas: governantes se elegendo à base da estratégia de discurso de ódio e fake news, sendo usados como marionetes por um poder real, que por trás trabalha para enriquecer poucos enquanto enfraquece e oprime a classe trabalhadora, que assiste a tudo isso acontecendo sem entender muito bem, porque estão envolvidos em outras coisas. A natureza cobrando o preço pela sua destruição, chuvas que duram 100 dias e alagam cidades inteiras produzindo milhares de refugiados. Colapso econômico, bancos e instituições indo a falência e levando consigo milhares de pessoas, produzindo um cenário onde a mão de obra qualificada não é mais necessária, e podemos ver cientistas
trabalhando como operários por um salário mísero e tendo que ter outros empregos para se sustentar. Tudo isso acontecendo porque, sem pensar muito sobre a importância da política, as pessoas elegeram um governo sem plano algum, desestruturado e incapaz de lidar de forma assertiva com os problemas que se apresentam, produzindo uma crise geral totalmente desestabilizadora. Se isso não te faz pensar na realidade, você não pode dizer que compreende o que estamos vivendo porque não está. Até mesmo nos diálogos entre os personagens fica muito claro como funciona essa estratégia de despolitização, e que estamos no meio desse processo de enfraquecimento das estruturas sociais. O primeiro passo nesse sentido nós já demos na vida real, ao elegemos um governo com as mesmas estratégias políticas, despreparado, perdido quanto as próprias funções e acima de tudo, manipulado por interesses de uma centralidade capitalista que não está preocupada com um colapso que pode atingir a maioria, mas deveria. Talvez demore ainda muito tempo para os apoiadores de Bolsonaro perceberem o tiro no pé que deram colocando esse boçal para governar um país tão plural e complexo como o Brasil, talvez percebam antes de 2022 porque ele faz muita merda diariamente, mas mesmo assim, não tenho grandes esperanças para esse momento, que poderemos ter aí um Luciano Hulk, Dória ou alguém até pior que o Bolsonaro um Witzel por exemplo, o que não me agrada em nada obviamente.
A inclusão - diferenças não são um problema
Uma das coisas mais lindas e cativantes nessa série é a forma como essa família lida com as diferenças. Tem homossexuais, negros, imigrante, uma criança trans, uma cadeirante, e a relação entre todos eles ocorre de uma forma tão natural e espontânea, sem qualquer preconceito ou taxação, exatamente como deveria ser na realidade. O que é um paradoxo interessante de se pensar, pois é um ponto da série que deveria estar mais conectado com a vida real mas não está. Isso porque nossa sociedade ainda evoluiu muito pouco na maneira de lidar com o diferente, e ainda existe muito sofrimento no mundo porque as pessoas não são preparadas para isso, preferindo a exclusão, a fuga do debate, olham pro outro lado, chamam a luta do outro de mimimi e seguem a vida como se essas diferenças não existissem e não fossem parte de um sistema que necessita urgentemente ser repensado e transformado. As cenas transmitem muito amor, intimidade, respeito com a pluralidade da vida, sem deixar de retratar os conflitos humanos, inerentes a nossa complexidade e subjetividade.
A pegada Black Mirror
Claro que esse ponto crucial não poderia deixar de ser melhor elaborado nesse pequeno texto haha. A evolução da tecnologia se coloca como realidade presente e que demanda nossa urgente atenção em diversos pontos, pois ela traz consigo diversos ganhos, e representa também muitas perdas, sendo uma temática que sempre atrai minha reflexão. A personagem Beth me fez pensar em várias problemáticas quando misturou a questão da adolescência sendo vivida nessa imersão tecnológica. Bauman já falava sobre a modernidade liquida apontando para uma sociedade com valores cada vez mais individualistas, fluída e efêmera em suas relações, o que deve ser cada vez mais aprofundado
dentro dessa nova dinâmica de comunicação virtual que troca o contato físico pelo toque frígido da tela. Na série já se é possível fazer implantes tecnológicos que aos poucos vão modificando o corpo humano e lhe atribuindo dons incríveis que podem ser usados tanto de forma positiva quanto negativa, e não é o desenvolvimento da tecnologia em si que ditará como ela será usada por nós, mas sim a maneira como ela será inserida em nosso cotidiano, e em qual contexto ela será inserida, a qual objetivo ela se colocará a servir. Na série a personagem Beth quase é levada a cometer suicídio acreditando estar se transformando em algo maior que um humano pode ser. Estamos lidando com novas formas de expressão do sofrimento e o uso que se faz da tecnologia quando bem interpretado pode denunciar muito desse sofrimento. A grande questão é, não importa o quanto avancemos tecnologicamente, se a lógica que nos move permanecer privilegiando alguns e massacrando outros milhares, é bem provável que a evolução atinga essa parte mais desfavorecida de forma bem mais desgastante.





