Eu passei alguns anos estudando psicanálise na faculdade, mas sem fazer análise. Disse a mim mesma muitas vezes, que não era uma possibilidade naquele momento, tanto por questões de tempo e também financeiras. Hoje eu continuo achando que realmente, não era uma possibilidade, mas não pelas mesmas razões...
Não era uma possibilidade porque narcisicamente, eu não podia admitir uma porção de coisas sobre mim.
E é aqui que visualizo um dos maiores efeitos do meu processo analítico até aqui.
O furo na imagem idealizada de mim mesma. A quebra na imagem de alguém que se achava suficiente demais, boa demais, esperta demais...
"Oh Jessica, você tá dizendo que sua maior conquista na análise foi descobrir-se uma pessoa pior?"
Sim.
Foi como tirar um peso que sugava minhas energias e me limitava de muitas formas.
Que alívio a realidade...
Pois tratou-se somente de descobrir algo do real: eu só poderia mesmo ser uma pessoa "pior" comparando àquele ideal que eu tinha na minha cabeça.
Tinha muitas certezas, sobre mim e os outros. Era taxativa.
Minha forma de me expressar vinha sempre carregada de impositivos e juízos de valor... não que eu tenha acabado com isso em mim, até porque isso é impossível, mas posso dizer que a coisa se desdobrou um bocado, se complexificou, se ampliou, ganhou profundidade, graças processo analítico.
Na lógica mais neurótica, eu me angustio lendo uma página que não entendo completamente, me repetindo até achar que entendi tudo ou simplesmente desistir. Acho que tenho que pegar tudo de primeira, se assim não for, tem algo errado. A lógica do tudo ou nada, na qual tantas vezes ficamos...
Já em uma lógica mais analisada, eu vou ler um texto, entendendo que algumas coisas dali vão ficar mais ou menos registradas, eu vou precisar continuar conversando com essas ideias, através de outros textos, pessoas, situações, através da arte... aí eu vou formar uma ideia um pouco mais complexa sobre aquilo que peguei no primeiro texto e essa ideia vai continuar sofrendo alterações de acordo com o percurso da minha vida até o final dela...
Mais neurótica = tudo ou nada. Mais analisada = meio termo, complexidade, noção de limites, finitudes...
É a partir do processo analítico, que eu posso realmente sentir no meu mais íntimo ser, como que olhar profundamente, para as coisas e principalmente para si mesmo é algo doloroso, incrível, angustiante, surpreendente, alivia-dor, transforma-dor, trabalhoso e tantas outras coisas.
Sentir isso foi e é, fundamental para que eu possa acessar algo do humano que me possibilita olhar além do que é visto, o que por sua vez me permite viver do que eu amo, amando do que vivo...
É o que me possibilita olhar o belo e o horror que nos habita... só que, quando olhamos bem, não é tão belo nem tão horrível quanto achávamos que era... só que pra ver isso tem que olhar bem.
Se reparar na análise, durante uma hora inteira a cada semana, ter que dar conta de se ouvir, às vezes, como no meu caso, é difícil justamente porque não somos um alecrim dourado como na melhor das hipóteses, acreditamos ser um dia.
Estudar e intelectualizar por si só, jamais me faria sentir isso... nada se compara a experiência de ter que falar em análise.
A análise é uma experiência que me vulnerabiliza, me coloca em contato com o mundo emocional, com a complexidade dos sentimentos humanos, com tudo aquilo do qual intelectualmente eu fugia sem perceber, mas que consegui me obrigar a enfrentar quando escolhi trilhar esses caminhos psicanalíticos...
E que bom que escolhi e continuo escolhendo enfrentar.
Porque é o tipo de dor que precisa ser vivida para se chegar em outro lugar. Como a dor de puxar o ferro para ter mais saúde física. Sem uma coisa não tem outra.
Escolher envolve perder...
E cada escolha vem com suas inevitáveis e imprevisíveis consequências, e a única certeza é a de que, em cada uma delas, faltará... nenhuma trará completude ou será fácil, nenhuma trará felicidade eterna e sem limites. Todas virão com suas renúncias... e a que estamos dispostos a renunciar? Eis uma pergunta de milhões que vive aparecendo em análise...
Passei um bom tempo sem escrever porque estava com dificuldades com a falta. Começava e aí me vinha tanta coisa que queria colocar... eu paralisava porque não caberia tudo.
Continua não cabendo.
Porque não existe falar de tudo que pode ser falado.
Porque sempre haverá mais a ser dito.
Porque, parafraseando Saramago, caberá sempre muito mais palavas no texto do que somos capazes de colocar!
Uma forma que encontrei de lidar um pouco com isso foi colocando observações repetitivas como as que colocarei agora, em vias de finalizar esse texto: 1) não passei nem perto de trazer aqui todos os efeitos dos meus anos de análise, nem tenho consciência de todos eles e 2) falo da minha experiência e nenhuma mais. E cada um que se entregar a esse processo, poderá sentir as próprias dores e delícias dele, que não serão iguais as minhas nem de mais ninguém (solidão! (eita que aqui já se abririam outros desdobramentos da análise... rs))
As observações que se repetem, vem para retomar a singularidade das coisas, a finitude e a limitação delas, para relembrar, a mim e ao leitor, da importância de ir além do que está posto, de não tomar nada como regra geral ou como algo que se encerra em si mesmo.
Isso quer dizer que esse texto não é uma lei do que deveria ser efeito de uma análise, mas um recorte que fala de um processo único, por definição, irrepetível.
Um recorte que me ajuda a visualizar esses efeitos, e que pra ser sincera, poderia estar guardado só para mim, mas que compartilho porque é também um recorte que visa provocar: curiosidade, angústia, desejo pela análise... não só porque trabalho com isso, mas porque é satisfatório mesmo provocar rs


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