segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Sobre os efeitos de uma análise...

Eu passei alguns anos estudando psicanálise na faculdade, mas sem fazer análise. Disse a mim mesma muitas vezes, que não era uma possibilidade naquele momento, tanto por questões de tempo e também financeiras. Hoje eu continuo achando que realmente, não era uma possibilidade, mas não pelas mesmas razões...


Não era uma possibilidade porque narcisicamente, eu não podia admitir uma porção de coisas sobre mim.

E é aqui que visualizo um dos maiores efeitos do meu processo analítico até aqui. 

O furo na imagem idealizada de mim mesma. A quebra na imagem de alguém que se achava suficiente demais, boa demais, esperta demais...

"Oh Jessica, você tá dizendo que sua maior conquista na análise foi descobrir-se uma pessoa pior?"

Sim. 

Foi como tirar um peso que sugava minhas energias e me limitava de muitas formas.

Que alívio a realidade...

Pois tratou-se somente de descobrir algo do real: eu só poderia mesmo ser uma pessoa "pior" comparando àquele ideal que eu tinha na minha cabeça.

Tinha muitas certezas, sobre mim e os outros. Era taxativa. 

Minha forma de me expressar vinha sempre carregada de impositivos e juízos de valor... não que eu tenha acabado com isso em mim, até porque isso é impossível, mas posso dizer que a coisa se desdobrou um bocado, se complexificou, se ampliou, ganhou profundidade, graças processo analítico.

Na lógica mais neurótica, eu me angustio lendo uma página que não entendo completamente, me repetindo até achar que entendi tudo ou simplesmente desistir. Acho que tenho que pegar tudo de primeira, se assim não for, tem algo errado. A lógica do tudo ou nada, na qual tantas vezes ficamos... 

Já em uma lógica mais analisada, eu vou ler um texto, entendendo que algumas coisas dali vão ficar mais ou menos registradas, eu vou precisar continuar conversando com essas ideias, através de outros textos, pessoas, situações, através da arte... aí eu vou formar uma ideia um pouco mais complexa sobre aquilo que peguei no primeiro texto e essa ideia vai continuar sofrendo alterações de acordo com o percurso da minha vida até o final dela...

Mais neurótica = tudo ou nada. Mais analisada = meio termo, complexidade, noção de limites, finitudes...

É a partir do processo analítico, que eu posso realmente sentir no meu mais íntimo ser, como que olhar profundamente, para as coisas e principalmente para si mesmo é algo doloroso, incrível, angustiante, surpreendente, alivia-dor, transforma-dor, trabalhoso e tantas outras coisas.

Sentir isso foi e é, fundamental para que eu possa acessar algo do humano que me possibilita olhar além do que é visto, o que por sua vez me permite viver do que eu amo, amando do que vivo...

É o que me possibilita olhar o belo e o horror que nos habita... só que, quando olhamos bem, não é tão belo nem tão horrível quanto achávamos que era... só que pra ver isso tem que olhar bem.

Se reparar na análise, durante uma hora inteira a cada semana, ter que dar conta de se ouvir, às vezes, como no meu caso, é difícil justamente porque não somos um alecrim dourado como na melhor das hipóteses, acreditamos ser um dia.

Estudar e intelectualizar por si só, jamais me faria sentir isso... nada se compara a experiência de ter que falar em análise

A análise é uma experiência que me vulnerabiliza, me coloca em contato com o mundo emocional, com a complexidade dos sentimentos humanos, com tudo aquilo do qual intelectualmente eu fugia sem perceber, mas que consegui me obrigar a enfrentar quando escolhi trilhar esses caminhos psicanalíticos...

E que bom que escolhi e continuo escolhendo enfrentar. 

Porque é o tipo de dor que precisa ser vivida para se chegar em outro lugar. Como a dor de puxar o ferro para ter mais saúde física. Sem uma coisa não tem outra. 

Escolher envolve perder...

E cada escolha vem com suas inevitáveis e imprevisíveis consequências, e a única certeza é a de que, em cada uma delas, faltará... nenhuma trará completude ou será fácil, nenhuma trará felicidade eterna e sem limites. Todas virão com suas renúncias... e a que estamos dispostos a renunciar? Eis uma pergunta de milhões que vive aparecendo em análise...

Passei um bom tempo sem escrever porque estava com dificuldades com a falta. Começava e aí me vinha tanta coisa que queria colocar... eu paralisava porque não caberia tudo.

Continua não cabendo. 

Porque não existe falar de tudo que pode ser falado. 

Porque sempre haverá mais a ser dito. 

Porque, parafraseando Saramago, caberá sempre muito mais palavas no texto do que somos capazes de colocar!

Uma forma que encontrei de lidar um pouco com isso foi colocando observações repetitivas como as que colocarei agora, em vias de finalizar esse texto: 1) não passei nem perto de trazer aqui todos os efeitos dos meus anos de análise, nem tenho consciência de todos eles e 2) falo da minha experiência e nenhuma mais. E cada um que se entregar a esse processo, poderá sentir as próprias dores e delícias dele, que não serão iguais as minhas nem de mais ninguém (solidão! (eita que aqui já se abririam outros desdobramentos da análise... rs))

As observações que se repetem, vem para retomar a singularidade das coisas, a finitude e a limitação delas, para relembrar, a mim e ao leitor, da importância de ir além do que está posto, de não tomar nada como regra geral ou como algo que se encerra em si mesmo. 

Isso quer dizer que esse texto não é uma lei do que deveria ser efeito de uma análise, mas um recorte que fala de um processo único, por definição, irrepetível. 

Um recorte que me ajuda a visualizar esses efeitos, e que pra ser sincera, poderia estar guardado só para mim, mas que compartilho porque é também um recorte que visa provocar: curiosidade, angústia, desejo pela análise... não só porque trabalho com isso, mas porque é satisfatório mesmo provocar rs 

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Ser melhor pra quê?

"Aprofundar-me em mim mesmo,
não para ser melhor,
mas para ser quem sou." Lucas Lujan

Por vezes, algo que parece óbvio, não é... costumamos dizer aos 4 ventos que queremos ser melhores que ontem e normalizamos isso sem questionar, mas acho que podemos sim nos perguntar sobre isso de "ser melhor"... que raios afinal isso significa? 

Me é estranho pensar por exemplo, que a Jessica de 31 anos é "melhor" que a Jessica de 21, ou de 11, só porque, "sabe mais e tem mais coisas". Pra mim, ela não é melhor ou pior, ela é diferente. Talvez maior, no sentido de ter tido mais experiência, mas não melhor. 

Eis o meu ponto, não sou melhor que ontem e isso pra mim não existe.

Primeiro que, sei pouco disso que eu sou, sou um emaranhado de coisas. Em contante interação com o que me acontece... ora se ampliando, ora regredindo. Ora acertando o ponto da carne, ora me apressando ou deixando passar... com sorte, vou continuando e é isso.

Se desenvolver, conquistar coisas, aprender coisas, tudo isso é bom e desejável, mas isso não nos torna MELHORES, na melhor das hipóteses nos torna maiores, nos amplia, nos desdobra...

Eu tô falando aqui do ranço que passei a ter dessa palavra ao longo do tempo... 

Melhor tem uma conotação moral, meritocrática, coach vibes... se posso dizer que sou melhor que ontem, posso dizer que sou melhor que outra pessoa, quando na verdade, o que tive foi a sorte de poder me ampliar. 

Sem as condições ambientais para que eu possa continuar na vida, eu não sairia do lugar. É verdade que, com sorte, dependemos cada vez menos, mas nunca deixaremos de depender, dos outros, das circunstâncias, e o que foge do nosso controle é sempre maior do que aquilo que controlamos, então sim, sorte. 

Me embala essa reflexão uma aula do professor Pedro Heliodoro, em que ele fala sobre o mal-estar social e a clínica contemporânea, articulando autores psicanalíticos com autores de outras áreas, Heliodoro demonstra como algo do sofrimento humano vem se transformando ao longo do tempo, saindo de um funcionamento mais neurótico em direção a um funcionamento perverso, de negação da castração.

Conforme ele coloca, estamos saindo um tanto do modelo de poder como permissão e caminhando para um modelo de poder como capacidade

Antes não podia porque era proibido, agora é porque você é incapaz.

Da culpa à vergonha. 

Eis um importante marcador do sofrimento contemporâneo que me chamou a atenção na fala de Heliodoro.

Tenho recebido cada vez mais notícias disso, na vida, na clínica, onde costumo escutar meus analisandos falarem de dores muito características desse nosso tempo... uma vergonha por não ter isso ou aquilo, uma vergonha profunda, que se estende para o ser que se é e vira combustível de inibições, ansiedades, falso-self...

Para Heliodoro, o consumismo exacerbado, o culto ao corpo fantástico, a busca por fama nas redes sociais, o uso da religião na demonização do diferente, o boom de diagnósticos e a farmacologia, têm sido formas de buscar alívio para o mal-estar contemporâneo. 

O mal-estar contemporâneo de não conseguir nunca alcançar esse "melhor", porque ele não existe, é da ordem do impossível.

A manutenção desse mal-estar é fundamental para a manutenção das próprias forças hegemônicas. O neoliberalismo precisa que o sujeito se aliene dessa forma, e que acredite que se ele não consegue algo é porque ele não fez por merecer, já que é sua única e exclusiva responsabilidade "vencer ou fracassar" e mais ninguém tem nada a ver com isso. Quem fala com profundidade sobre esse tema (e tantos outros), é o professor e psicanalista Vladmir Safatle, um autor que gosto e indico para quem tem interesse em compreender mais dessas relações entre os modelos sociais e as formas de sofrimento psíquico. 

O pensamento religioso costuma ser tão perigoso aqui e por isso acaba sendo cooptado por setores que também compõe as engrenagens que fazem essa roda girar. É o tipo de pensamento em que há os que vão defender que, tem quem nasce ruim, tem quem nasce perdido, tem quem nasce com muito para resgatar, tem quem está possuído pelo demônio... e então sim, tem quem seja "pior" e tem quem seja "melhor". Recorrer ao pensamento místico para não elaborar questões complexas é compreensível, e justamente por isso, acontece muito e de muitas formas. 

Partindo de uma perspectiva complementarista, penso que são várias as lentes e olhares que podemos usar para nos aproximar desses fenômenos contemporâneos. 

Trouxe ali uma visão estruturalista, que fala de uma negação da castração e um funcionamento perverso, mas também poderia trazer uma perspectiva desenvolvimentista e apontar para severas falhas ambientais que vem produzindo um certo tipo de sofrimento narcísico profundo...

A partir desses e tantos outros pontos, venho tentando (o que significa nem sempre conseguindo), não alimentar em mim e ao meu redor, esse tipo de veneno corrosivo que é a ideia tentar ser melhor sempre... e a coisa parece caminhar mais leve quando consigo me desprender um tanto disso.

Mais leve para mim, mais leve para os outros que me acompanham... 

Estamos todos fazendo o que podemos com aquilo que temos no enfrentamento dessa louca vida. Tudo que fazemos não fazemos sozinhos, somos dependentes, e pouco controlamos. Então se fazemos o que fazemos, e conseguimos o que conseguimos, nada disso é SÓ por nossa causa, nosso único mérito ou demérito, porque viver é coletivo.  


terça-feira, 1 de outubro de 2024

O QUE ESPERAR DE UMA ANÁLISE?

Pra começar, o óbvio e o que na minha opinião se espera de qualquer tratamento psicológico: um espaço seguro de escuta e acolhimento, onde é possível refletir, questionar, construir novos caminhos e diferentes formas de viver. 

Um lugar livre de preconceito e juízo de valor, ofertado por um profissional cuidadoso que na medida do possível, permanece em constante formação.

A falar específicamente do tratamento psicanalítico, podemos discorrer mais. 

(E como a psicanálise é imensa e comporta várias linhas teóricas, friso que escrevo aqui da psicanálise que faz sentido à partir da minha experiência com ela.) 

Eu vejo a análise como um processo muito artesanal, ou seja, cujos rumos e intervenções vão sendo construídos no caso a caso, então não há como generalizar o tipo de experiência que podemos esperar desse processo.

Mas há um tipo de generalização que me parece fazer sentido nesse momento, e diz respeito a isso que se pode esperar de uma análise, que são as duas grandes formas de subjetividade descritas por André Green como neurose e não-neurose. 

No Brasil, a psicanalista Marion Minerbo aborda esse tema especialmente em seu livro "Neurose e não-neurose" de 2019, que recomendo muito a todos que quiserem saber mais sobre essa proposta dentro da psicopatologia psicanalítica,

Em linhas muito gerais, o sofrimento neurótico estaria ligado a questões edípicas, enquanto o sofrimento não-neurótico estaria ligado a questões narcísicas. Não dá pra dizer que um "sofre mais" que outro, são sofrimentos diferentes, com origens diferentes.

Caminhando nesse sentido, entendo que, o que o neurótico e o não-neurótico podem esperar de uma análise é bastante diferente também.  

O neurótico sofre porque sabe demais de si mesmo. Por isso está preso nos próprios enredos imaginários. 

O não-neurótico sofre porque sabe de menos de si mesmo. Os enredos, quando existem, são esburacados demais. O Eu mal existe. 

O neurótico chega "organizado demais" o não-neurótico "organizado de menos". 

A rede de representações bem construída do neurótico precisa ser furada na análise, para que ele consiga romper com essa forma única de existir que lhe causa sofrimento. 

A rede de representações do não-neurótico mal foi construída, e a análise pode ser então um dispositivo que promova a construção dessa rede. 

Enquanto com o neurótico, o analista aparecerá muito pouco, ficando mais em silêncio, interpretando e questionando, buscando os furos na narrativa, provocando a angústia que o analisando suporta e precisa enfrentar, o analista com o não-neurótico aparecerá muito mais, responderá mais, falará mais, emprestando seu ego como auxiliar, e se adaptando as necessidades ambientais tal como o ambiente inicial do analisando não se adaptou. 

Eu Jessica diria ainda que, pensando em termos de posição como propôs Klein, penso que há momentos em que uma pessoa pode estar mais neurótica e outros em que pode estar mais não-neurótica. Em termos bionianos, poderíamos pensar também nas partes neuróticas e psicóticas da mente que, segundo o autor, todos nós possuímos. 

É importante pensar nisso para fazer uma "leitura da sessão" da melhor maneira possível e a partir daí construir o manejo. A partir do funcionamento que está sendo apresentado ali, na particularidade daquele dia, é que se pode construir a intervenção mais adequada aquele momento específico. 

Isso quer dizer que, num momento da análise, em que o paciente está mais não-neurótico, o analista oferta um certo tipo de cuidado em que sua figura aparece mais, já em outro momento, da mesma análise, o paciente pode estar mais neurótico, e o analista ofertará então outro tipo de cuidado, em que sua figura aparece menos. 

O que cada análise pode produzir é infinito, agora, o que cada um irá esperar de uma análise? 

Aí vai depender do sintoma rs

No nível consciente, uns irão esperando encontrar um ouvido atento que testemunhe sua história, ou alguém que lhe oferte soluções para todos seus problemas, outros esperam poder se conhecer melhor ou se autorizar como analista... 

Isso que se apresenta como uma demanda consciente do que se espera, quando analisado, pode apontar para muitas outras direções incluindo a posição em que o analisando se coloca e coloca os outros de sua vida. 

Então isso que se espera, também é material para análise.

Você pode esperar o que quiser e o que você espera diz de você. 

A forma que se recebe o ofertado também diz.

Isso não quer dizer que o analista não tem nenhum papel no desenrolar desse processo e na forma como as coisas vão ou não sendo construídas, muito pelo contrário. 

Se o analista não está em constante formação e análise, não consegue sustentar a longo prazo esse "lugar não-lugar" na vida de seu analisando.

Há um imenso trabalho sendo feito para tornar possível o trabalho de manter a sensibilidade clínica, de escutar o inconsciente, "ler a sessão", captar a necessidade de cada momento da análise e a partir daí conduzir o manejo.

Então talvez a gente possa pensar que, é possível esperar isso. 


Um profissional em constante formação, orientado por essa ética analítica do inconsciente e que não tem nenhum saber prévio sobre nós. 

Podemos esperar enfrentar um desafio. 

O desafio de estar na presença de um Outro numa relação que evidencia a nossa própria presença. 

Cujo foco está em um polo da relação. 

Esse é o tipo de enquadre que não podemos esperar em quase nenhum outro lugar ao longo da vida e uma das coisas que torna a análise tão preciosa.