quarta-feira, 14 de outubro de 2020

SÉRIE: BOM DIA, VERÔNICA e a violência doméstica

     

    No último fim de semana eu e meu amigo hibernamos assistindo essa série brasileira, que estreou na Netflix no começo de Outubro e já está causando alvoroço entre quem assistiu. Estou falando de Bom dia, Verônica, que conta com Tainá Müller, Eduardo Moscovis e Camila Morgado nos papéis principais, encabeçando uma trama frenética do começo ao fim de seus 8 episódios. Vários pontos me chamaram a atenção nessa série e é sobre isso que vamos falar agora. 

     Inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Ilana Casoy e Raphael Montes, a série conta a história de Verônica Torres (Tainá Müller), uma escrivã policial, casada e com dois filhos, que tem sua rotina virada de ponta cabeça depois de presenciar o suicídio de uma mulher na delegacia onde trabalha. Verônica fica intrigada com o acontecido, se sentindo culpada por não ter feito nada, então começa a investigar o caso, se colocando publicamente à disposição de outras mulheres que precisam de ajuda. É aí que Janete (Camila Morgado) entra em contato com ela e começa a pedir socorro porque está com medo do que o seu marido Claudio Brandão (Eduardo Moscovis) pode fazer com ela. A missão de Verônica daí pra frente será entender como ela pode ajudar Janete, e no meio disso ela acaba descobrindo várias outros esquemas de corrupção em que sua própria equipe está envolvida, além de ter que lidar com um serial killer, colocando sua vida e de sua família em risco. 

    A primeira coisa que me fez gostar de Bom dia, Verônica logo de cara é que ela é esse tipo de série que cada momento te deixa querendo saber o que vai acontecer depois. É tudo muito alucinante, toda história se passa muito rápido e sempre tem alguma coisa acontecendo. Sabe quando você pensa a todo momento "meu pai QUE QUE VAI ACONTECER AGORA?!" pois é, esse é um tipo de emoção que eu adoro sentir quando assisto algo, e essa série é um prato cheio para quem gosta disso, portanto nem comece a assistir sem tempo, porque você vai querer ver um episódio atrás do outro sem parar. 

    O terror psicológico é instaurado pelo realismo da série, pois o tema central é a violência doméstica, presente nos mais variados níveis, na vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. Aqui entra um segundo ponto que me faz realmente querer indicar Bom dia, Verônica, que é o fator crítico, a discussão que vale a pena ser discutida, o assunto que vale a pena ser falado, a verdade que precisa ser vista. O machismo e a misoginia estruturais da nossa sociedade, produzem mulheres suscetíveis à serem colocadas em posição inferiorizada, esvaziadas de si mesmas, ao ponto de muitas delas nem sequer serem capazes de compreender a violência que vivem, o perigo que correm, e acima de tudo, se culpando por isso.         

    

    É perturbador ver o sofrimento psíquico e físico que uma mulher enfrenta em uma relação abusiva, e a série trabalha muito bem essa realidade, mostrando a estratégia de manipulação do abusador e a dependência emocional em que ele coloca a vítima, retirando ela dela mesma, preenchendo os vazios que ficam com medo e culpa. A série trabalha com o extremo, o abusador aqui é um serial killer, e embora nem todos na vida real sejam assim, os homens abusivos possuem traços de personalidade muito parecidos e que os colocam na posição de possíveis assassinos. 

       Bom dia, Verônica também é sobre as infinitas dificuldades que uma mulher enfrenta quando quer pedir ajuda em situação de violência. A atitude da mulher sempre posta em dúvida, a desconfiança das autoridades que deveriam dar suporte, o descaso da sociedade, a corrupção, elementos que compõe uma instituição falida que só serve para oprimir as massas e garantir a manutenção do status quo. Na série somos apresentados a essa pessoa que se importa, e junto com isso, somos levados junto com ela, a percorrer esses espaço de dificuldade e abandono enfrentada por milhares de mulheres todos os dias. 


A indicação tá feita, massss

APROVEITANDO A DEIXA... nesse mesmo mês de lançamento da série, temos o Dia Nacional da Luta contra a violência doméstica, uma data fixada há 40 anos após a mobilização de mulheres no Theatro Municipal de São Paulo. 40 anos se passaram, o assunto já começa a penetrar com mais solidez no debate social, mas MUITO ainda precisa ser feito. Nenhuma de nós seremos livres enquanto todas não forem. A violência contra a mulher é sintoma do machismo estrutural que nos molda. Quando eu assisto novelas, filmes e séries de alguns poucos anos atrás já consigo perceber nitidamente como a sociedade sempre rebaixa o papel da mulher e sua importância. Isso tem mudado, mas ainda falta muito para chegarmos a raiz do problema, o fim do capitalismo, mas aí, já é tema pra outro textão. 

E para não deixar passar, segue alguns traços da personalidade abusiva, que precisam ser identificados para que a mulher saiba reagir na hora certa, para que ela consiga quebrar o ciclo. 

    Traços da personalidade abusiva

É preciso entender, e a série mostra isso, que o abusador não começa o relacionamento sendo violento, isso vai se desenvolvendo ao longo da relação através de várias etapas, que vão se cumprindo e imprimindo na mulher essa posição de aceitação, que começa como uma esperança de melhora na relação até ir para o estágio do medo e da culpa. Eu acho importantíssimo falarmos sobre os indícios que um abusador dá logo no começo, esses sinais precisam estar claros para todas nós, porque são esses sinais que vão nos permitir reconhecer o abusador e possibilitar dar um fim no relacionamento antes que seja tarde demais. 

Controle
Ele vai fazer parecer que é cuidado, preocupação, mas esse é um dos primeiros sinais que uma pessoa abusiva começa a mostrar, e que fica bem explícito em vários comportamentos do indivíduo. Para começar a ter controle sobre a vida da vítima, o abusador precisa saber tudo de sua rotina, com quem conversa, com quem trabalha, quais são os membros mais próximos da família, quem são os melhores amigos, os lugares que frequenta. Com o passar do tempo começa a controlar as roupas que a pessoa usa, pede acesso as suas redes sociais, suas senhas. 

   Nos relacionamentos modernos, percebo muito esse traço em atitudes como "eu posso, mas você não", onde uma pessoa faz alguma coisa, sai para algum lugar sozinha por exemplo, e a outra faz a mesma coisa, mas a reação do abusador é de repúdio, geralmente eles "terminam" a relação e culpam a outra pessoa, esperando que a pessoa peça desculpas, tente se redimir, e se isso acontece, o abusador já entende que tem o controle da situação. 

  Vale frisar que, é normal casais compartilharem essas informações ao longo do tempo, com naturalidade tudo isso vai surgindo na relação, mas é a maneira como isso é questionado que é diferente num relacionamento abusivo, percebe-se um tom investigativo, de desconfiança. A vítima responde a esses questionamentos tentando justificar que não há motivo para julgá-la mal, e é aí que está o grande X da questão, quando nos percebemos nessa posição de dar explicação sobre algo que não faz o menor sentido, é hora de repensar a relação. O melhor caminho é já pontuar logo no começo que esse tipo de comportamento não será tolerado, e terminar a relação caso perceba que esse é o modus operandi.

Ciúme excessivo
Uma vez que o controle da situação já está estabelecido, um ciúme gradualmente possessivo começa a aparecer, é aí que vem as famigeradas fuçadas no celular do outro, acusações sem sentido, perguntas invasivas de toda ordem. No começo, o abusador tenta mostrar que são só perguntas inofensivas de uma pessoa muito apaixonada que tem medo de perder a outra, mas com o passar do tempo, conforme a vítima vai se deixando envolver, a invasão de privacidade começa a se acentuar, até chegar ao nível em que a pessoa não pode ter vínculos afetivos com mais ninguém fora do relacionamento. Amigos, colegas e parentes vão sendo excluídos cada vez mais, deixando a vítima isolada e sem perspectiva. 

  O ciúme possessivo nunca começa extremo, como tudo num relacionamento abusivo, ele vai aumentando gradativamente e esse aumento é perceptível para quem está ciente que isso é um problema sério. Existe uma romantização imensa em torno do ciúme, muitas pessoas realmente acreditam que sentir ciúme é prova de amor, quando na verdade está mais relacionado ao campo da insegurança e baixa autoestima. A pessoa não tem medo de perder aquela namorada específica, mas de perder o que essa namorada faz essa pessoa sentir que é, e isso faz com que esse ciúme se repita em todas as relações do abusador. É um traço dele, não tem a ver com o parceiro. 

    Nem todo mundo que sente ciúme é abusivo, muitas pessoas têm noção do quanto esse sentimento pode ser danoso para uma relação e conseguem o controlar com maturidade, sem atacar a vida do outro. Um pouco de ciúme, insegurança e medo de perder o outro é normal, somos imperfeitos e carregamos esses traços, o grande problema é ser adulto e não saber manejar isso. E como a gente sabe se o ciúme está demais ou não? Bom, o fato de se fazer essa pergunta estando em uma relação já diz muita coisa. Se o ciúme começa a ser cada vez mais frequente, se ele atrapalha a vida de alguma forma, faz a pessoa sempre estar se sentindo mal, já está bem claro que essa relação não é saudável e essa invasão vai se agravar.

Humilhações, agressões verbais, terror psicológico
    A sensação é como se a vítima fosse tudo e ao mesmo tempo nada. Porque se por um lado, quando precisa se sentir melhor, o abusador diz ao seu parceiro tudo que ele quer ouvir, que ele é especial, que o ama mais que tudo, que faz tudo por ele e que por isso, e aí vem o outro lado, também perde a cabeça. Então tenta fazer a vítima se sentir a pior pessoa do mundo, vai minando sua autoestima, dia após dia, até que ela se entregue a essa posição de humilhada. Pequenas ofensas gratuitas, não gostou da roupa nova que comprou, achou feia a última foto postada no feed, achou vulgar falar ou agir de tal forma, a comida comprada no restaurante seria melhor, a série que outra pessoa apresentou foi mais legal, e por aí vai, a lista de exemplos é infinita, e o padrão é esse. E isso é só o começo, como já ficou claro aqui, as humilhações também se intensificam, e não vão parar.


Agressões físicas
    Até que comecem as agressões físicas. Quando uma relação chega nesse estágio, o risco da morte é eminente. A agressão física acontece dentro de um contexto de total dominação do abusador sobre a vítima, e é só por isso, que ela geralmente se prolonga. A relação doentia já se naturalizou, e para quem já perdeu a própria identidade para o outro, um tapa na cara, um beliscão, um puxão de cabelo, pode nem parecer mais tão ameaçador. A vítima já está completamente esvaziada. Vínculos financeiros, filhos, envolvimento emocional patológico, falta de apoio daqueles que perdeu no caminho, falta de apoio do estado, falta de apoio da sociedade. A mulher que vive a violência doméstica não se vê tendo alternativas. E quando a gente olha para a realidade, como vamos dizer que elas estão de todo erradas? 

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Em Bom dia, Verônica conhecemos um pouco mais dessa realidade, e por ser um entretenimento que agrega, faço questão de deixar registrado aqui nesse textão, a minha forte indicação para que todas, todos e todes assistam também, e que possamos ampliar a visão sobre a importância de discutir esse tema e abri-lo para toda sociedade. É fundamental a compreensão da complexidade que é estar em uma relação de abuso, e a última coisa que uma pessoa nessa situação precisa é de mais preconceito e julgamento. Exercitemos constantemente nossa empatia, o nosso olhar de cuidado com o outro, e não percamos de vista, a longa estrada de luta adiante. 



CANAIS DE APOIO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

A Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência - Ligue 180 – é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria Nacional de Políticas, desde 2005.

Associação Nenhuma a Menos Maringá - Apoio e suporte para mulheres de todo país na luta contra o feminicídio. 


Mais informações: https://www.mapadoacolhimento.org/


    




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O que são os SONHOS?

     

    Com certeza você já se fez essa pergunta algumas vezes na vida, afinal, trata-se de uma produção da nossa mente, muito misteriosa e difícil de decifrar, capaz de gerar longas conversas e teorias buscando compreendê-la. 
    No senso comum, os sonhos costumam ter significados diversos, uma grande parte das pessoas acredita em poderes sobrenaturais dos sonhos, que eles podem por exemplo, interferir na realidade, ser uma premonição do futuro, ou até mesmo, carregar mensagens divinas. Outros acreditam que são apenas fragmentos de memórias que se misturam, e que não significam nada demais. 

     Para a Psicanálise porém, os sonhos adquirem um outro importante significado. De acordo com Freud (1900), os sonhos são uma via direta de acesso ao nosso inconsciente. É uma produção do nosso aparelho psíquico, que tem seu funcionamento próprio, com suas regras e objetivos específicos, dos quais falaremos um pouco agora. 

     Foi à partir dos estudos sobre os sonhos que Freud escreveu o seu primeiro livro psicanalítico, A Interpretação dos Sonhos (1900), considerado o livro que inaugurou a Psicanálise e um dos mais importantes de toda obra freudiana. De acordo com o autor, os sonhos são, em sua grande parte, a realização disfarçada de desejos reprimidos

      Essa função de realização de desejo é muito fácil de identificar nos sonhos das crianças, porque geralmente a censura ainda não se estabeleceu completamente nesses pequenos, e o conteúdo de seus sonhos costumam expressar seus desejos de forma bastante clara. Não é incomum ouvirmos crianças contarem que sonharam que ganharam tal brinquedo que queriam, ou que foram passear em tal lugar que estão pedindo para ir. 

    Durante o sono a consciência diminui quase que por completo, e com isso a repressão diminui também, aumentando a possibilidade dos conteúdos inconscientes de chegarem à consciência, o que tende a fazer com que o indivíduo desperte. Sendo assim, os sonhos para Freud (1900) possuem também a função de guardar o sono, numa espécie de acordo entre o id e o ego, onde é permitida uma gratificação parcial das pulsões através das imagens oníricas produzidas ali, diminuindo a força dessas pulsões e possibilitando o indivíduo continuar dormindo, imerso nessa recompensa. Dizendo de outra maneira, ao sonharmos, essa censura que sofremos quando estamos acordados, perde sua força, e aquilo que reprimimos em nós, têm mais chances de vir à tona, podendo interromper o sono. Então, para nos manter dormindo, os sonhos oferecem uma realização parcial dessas pulsões reprimidas, que serve como uma gratificação.  

Lady Gaga - 911
 Nos sonhos temos um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, as sensações corpóreas de frio, calor, fome, e etc, nossas memórias do dia anterior, é aquele conteúdo que conseguimos contar quando acordamos. E temos o conteúdo latente, que é inconsciente e reprimido. Assim, os sonhos são compostos por 3 elementos fundamentais: 

1 - impressões sensoriais noturnas (como a sensação de sede por exemplo)

2 - resquícios de memória da experiência diurna (registros do último dia são mais fortes)

3 - pulsões do id (fantasias de natureza sexual e/ou agressiva)

       Todos esses fragmentos de memória e sensações porém, não aparecem separadinhos e bonitinhos nos sonhos, muito pelo contrário. Eles são representados de maneira dramática através de símbolos e metáforas, que são a condensação e o deslocamento desses elementos. Na condensação acontece uma fusão de representações, uma combinação entre imagens de memórias cotidianas com ideias do conteúdo reprimido, que são condensadas em uma única imagem ou símbolo. Já no deslocamento, ocorre uma transferência da importância de uma ideia para uma outra que seja um fragmento dessa ideia, que desvie a atenção da ideia principal, ou seja, esse deslocamento funciona como uma defesa para encobrir o conteúdo reprimido, protegendo o indivíduo que sonha de se defrontar com suas pulsões mais arcaicas. 

        Identificamos a condensação quando sonhamos por exemplo, com uma grande casa, uma floresta, ou qualquer símbolo que cause um sentimento muito forte, que não seria causado em circunstâncias normais, conscientes, mas causa no sonho porque representa vários outros conteúdos nossos ao mesmo tempo. Tudo nesse símbolo são partes da pessoa que sonha, que encontraram alguma conexão com essa representação e assim se expressou. Também tem aqueles sonhos em que estamos com uma pessoa, sabemos quem ela é, mas ela não tem a mesma aparência da vida real, isso também é um exemplo da condensação e deslocamento de elementos psíquicos. O deslocamento coloca uma importância muito grande em uma representação para tirar o foco do que realmente importa. 

       Esses dois mecanismos de disfarce operam juntos e ao mesmo tempo, e tornam os sonhos tão difíceis de serem decifrados para nós, porque podem fundir várias ideias em poucos símbolos, e dar muita ênfase em alguma cena que nem tenha tanta relevância, buscando fazer com que nos percamos dos detalhes, que são a parte mais reveladora dos sonhos. Isso faz com que o conteúdo manifesto, ou seja, aquele que conseguimos descrever ao acordarmos, muitas vezes, pareça não ter nenhum sentido, já que ele foi todo disfarçado para poder servir ao propósito de nos manter dormindo, através da realização parcial de nossos desejos reprimidos. 

       

    Quando esses mecanismos de disfarce por alguma razão falham, os sonhos se apresentam como pesadelos, ou seja, o desejo reprimido não pôde ser totalmente deformado para entrar na consciência, então assustou e fez o indivíduo acordar. De acordo com Freud [2019 (1900)], esses sonhos ainda cumprem a função de realização dos desejos, mesmo que se apresentando de outra forma, e assim falhando em seu outro objetivo de guardar o sono. Isso porque, se por um lado o pesadelo causa algum tipo de sofrimento e desperta o indivíduo, por outro lado, existe um ganho psíquico também, pois a catarse de ter libertado esse conteúdo, liberado certo afeto ligado à ele, economiza o uso da energia que o mantinha recalcado. Quanto mais força a mente faz para esconder um conteúdo reprimido durante os sonhos, mais perturbador fica o sono.

        À partir de 1920, num congresso de Haia, Freud traz um novo grupo de sonhos que contradiz sua teoria inicial de que eles expressam a realização de desejos inconscientes: os sonhos traumáticos. Eles acontecem normalmente em pessoas que tiveram alguma experiência traumática, mas também ocorrem nos neuróticos (a maioria de nós). Esses sonhos são a pura repetição de um trauma não elaborado, e funcionam como uma descarga pulsional, ou seja, liberação da energia psíquica ligada a esse trauma. O trauma é uma experiência vivida que não conseguiu se inscrever no aparelho psíquico porque não encontrou nenhuma representação nele que permitisse sua simbolização, e o elemento que diferencia a formação de um trauma para Freud é o susto. 

        Freud (1996 [1920]) começa a pensar então que, se os sonhos traumáticos não correspondem à sua teoria de realização de desejos reprimidos, é porque deve ter outra função psíquica ainda mais primitiva do que a obtenção de prazer e evitação de desprazer. Essa função estaria ligada a uma compulsão à repetição, uma característica fundamental da pulsão de morte, um conceito que, conforme Bonomi (2019), dá início a uma nova fase na psicanálise freudiana, e que com certeza falaremos mais em outro momento. 


Considerações finais... 

    Existem várias pesquisas recentes tanto da neurociência, quanto da psicanálise e até da neuropsicanálise (que busca juntar as contribuições de ambas), cujos resultados apontam para caminhos que podem convergir com a teoria freudiana enquanto outros nem tanto. De acordo com Cheniaux (2006) grande parte dos cientistas não acreditam que o sonho possua qualquer função, mas que serve apenas para consolidação da memória que depende do sono, mas quanto a isso também há discordâncias. O ponto é que, alguns cientistas procuram explicar os sonhos através de fenômenos puramente biológicos, enquanto outros, buscam associar as descobertas recentes com as teoria psicanalítica, e eu friso isso aqui para deixar claro que não há um consenso científico sobre os motivos da formação dos sonhos, ou suas funções, o que existem são teorias e estudos em constante andamento. 

         A área que me aprofundo é a psicanálise, portanto, minha visão sobre esse fenômeno é respaldada pela teoria freudiana, e o conteúdo que eu produzo sobre esse tema está seguindo essa lógica. Vale ressaltar também, que em um único texto como este é impossível esgotar um assunto tão abrangente como os sonhos, mas o objetivo aqui, é trazer da maneira mais simples possível, o que a Psicanálise tem a nos dizer sobre esse fenômeno da nossa vida mental tão enigmático. 

Créditos na imagem

Então para a Psicanálise os sonhos não possuem relações com o divino nem possuem funções metafísicas ou sobrenaturais. Eles são uma produção psíquica, que busca proteger nosso sono através da realização parcial de desejos reprimidos, representados através de imagens distorcidas por mecanismos de deslocamento e condensação, que produzem metáforas e símbolos propositalmente difíceis de serem decifrados pela consciência. Quando esses mecanismos falham, os sonhos se manifestam como pesadelos, e nossas pulsões recalcadas aparecem sem disfarce, nos fazendo acordar. A exceção à essas regras está nos sonhos traumáticos, que repetem a vivência traumática várias e várias vezes, pois ela não pode ser expressa de outra forma, uma vez que não encontrou representação no psiquismo. 

        Os sonhos também são para Freud, uma maneira de observar como funciona nosso inconsciente, as regras as quais ele está submetido são completamente diferentes das regras aos quais a consciência obedece. Ali não existe tempo, espaço, não há ordem cronológica, nem limites físicos ou materiais. As mensagens que ele tenta passar servem a funções e objetivos específicos da nossa vida mental, quanto mais observamos nossos sonhos, mais próximos estamos de entender nossas pulsões mais arcaicas, o que é um ótimo exercício de autoconhecimento. 

        Portanto, para a psicanálise, essa coisa de "saiba o que significa sonhar com isso ou aquilo", não existe porque, o significado de cada sonho é particular, é subjetivo, tem a ver com a própria pessoa que sonha, embora alguns elementos possuam significados comuns, como os arquétipos, no fundo, o sonho fala de quem sonha, de nada mais. 


REFERÊNCIAS

CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul,  Porto Alegre,  v.28, n.2, p.169-177. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  09  de Outubro 2020.

FREUD, Sigmund. (1900) A Interpretação dos Sonhos. São Paulo. 1°ed. Companhia das Letras. 2019.

FREUD, Sigmund. (1920) Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

BONOMI, Tomás. Função dos sonhos, pesadelos e sonhos traumáticos para Freud. Conexões Clínicas. 2019. Disponível em: <https://conexoesclinicas.com.br/funcao-dos-sonhos-pesadelos-e-sonhos-traumaticos-para-freud/#:~:text=Para%20Freud%2C%20os%20pesadelos%20falhariam,realiza%C3%A7%C3%A3o%20alucinada%20dos%20desejos%20inconscientes>. Acesso em 10 de Outubro de 2020.