Amante de séries que sou sempre que termino uma
vou atrás de outra pra suprir o vazio que fica. Quando a série escolhida já tem
início meio e fim eu praticamente não consigo fazer outra coisa se não
acabá-la, e quando a série ainda está acontecendo eu simplesmente me torno
refém da espera de novos episódios e quando percebo estou acompanhando 10
séries de uma vez. Normal até aqui. Geralmente quando sai alguma nova série que
hita, que bomba, que todo mundo só fala sobre, assim
que surge um tempo eu a
pego pra assistir e tirar minhas conclusões, isso porque tenho uma forte
tendência a gostar de analisar coisas populares, elas parecem me dizer muito
sobre as pessoas e é quase um instrumento de estudo pra mim rs. Friends e La
Casa de Papel foram séries que assisti dentro dessa perspectiva e que
particularmente gostei demais, o que não quer dizer que não tenha minhas
críticas, mas de forma geral não foi em nada tempo perdido, embora nenhuma
delas entre no meu hall das melhores séries até aqui. You foi a última que
peguei pra assistir porque notei toda uma movimentação de uma galera
assistindo, e cara, parece que tenho muita coisa a refletir sobre essa série.
Há vinte minutos terminei o último episódio, e
preciso dizer que os pensamentos que passaram pela minha cabeça enquanto
assistia a série ecoaram de uma maneira mais intensa do que eu achei que
ecoariam dentro de mim. É preciso avisar que teremos spoilers aqui preciosxs.
Enquanto assistia You eu pensava coisas como "Cara isso é tão errado
porque ele faz parecer que tem sentido?", "Quão séria pode ser essa
questão da vulnerabilidade não é?", "Eu estou sentindo empatia por um
assassino? Eu estou 'torcendo' pra um assassino?". Esses pensamentos me
fizeram traçar um paralelo com Norman Bates, um psicopata que aprendi a amar(?)
quando fui apresentada à sua maneira peculiar de ver e fazer parte do mundo em
Bates Motel. Esse tipo de reflexão buga totalmente a minha cabeça. Eu já não
sou uma pessoa que acredita em bem ou mau, acredito que o juízo de valor de
qualquer comportamento é relativo e depende do ponto de vista de quem o julga.
Porém existem limites que cerceiam esses julgamentos, como matar ou machucar
alguém, ações que deveriam ser vistas como ruins em quaisquer circunstâncias. E
dai quando me deparo com séries como You ou Bates Motel eu sou obrigada a
revisar essas cercas, revisar esses limites. A visão de Joe e de Norman sobre o
mundo não justificam suas ações sob o nosso ponto de vista, mas sob o ponto de
vista deles, é quase como se fizesse sentido! Isso é muito cabuloso. Me faz
repensar os limites da justiça, me faz pensar no quanto a nossa justiça ainda
está distante de ser acertada.
Joe é um psicopata que usa as relações para
satisfazer os próprios instintos selvagens e a racionalização que ele usa para
isso é minuciosa. Ao que parece ele foi abandonado pelos pais e depois de
passar por um orfanato foi adotado por esse senhor dono da livraria em que ele
trabalha e que o criou à sua maneira. Esses detalhes sobre a vida de Joe são
bem fundamentais para compreender sua visão do mundo. Toda vez que ele errava,
esse senhor (que eu esqueci completamente o nome) o prendia em uma espécie de
"jaula de vidro", obrigando-o a ficar ali por tempo indeterminado até
que refletisse sobre as próprias ações. Joe cresceu assim, ao redor de muitos
livros, o que o tornou uma pessoa muito culta e inteligente, talvez seja esse o
motivo pelo qual Joe use a racionalização como um dos principais mecanismos de
defesa de seu ego. Ele traça toda uma linha de raciocínio para justificar suas
ações para si mesmo uma vez que, ele não quer se ver como uma pessoa ruim, como
um assassino ou um psicopata, embora ele haja como tal. A racionalização faz
seu ego se manter estável, faz com que ele não imploda.
Joe aprendeu também que algumas pessoas merecem
morrer e que tudo bem fazer algo ruim por uma pessoa que se ama, pois o amor é
mais importante. É muito fácil perceber o quanto essa visão oferece a Joe o
conforto necessário para fazer o que ele realmente quer fazer, matar pessoas.
Ao longo dessa primeira temporada vemos Joe matar cinco pessoas, o amante de
Candace sua ex namorada, Benji um peguete de Beck sua obsessão atual, Peach uma
amiga de Beck, a própria Beck e Ron, o namorado agressivo da vizinha. A forma
como esses assassinatos são narrados quase nos faz acreditar que foram
necessários e isso é uma coisa muito bizarra porque torna a linha entre o certo
e o errado, entre a loucura e a sanidade muito mais tênue. Através da visão de
Joe, podemos entender como se o caso do amante de Candace tivesse sido um
impulso, algo totalmente momentâneo e aparentemente não calculado que aconteceu
no calor de um momento de muita dor pra Joe. Benji era uma típico canalha, o
cara usava Beck da maneira como queria fazendo muito mal à ela e além de tudo
era um assassino, então quando morreu foi quase como se tivéssemos permissão
para dizer "Yes!" e comemorar internamente. Peach era outra pessoa
que usava Beck como queria, manipulava-a e a sabotava
quando achasse
necessário, era egoísta, achava que o mundo girava ao seu redor e nutria uma
paixão secreta por Beck. Quando ela morreu Beck finalmente pôde ser livre e
pôde fazer o que gostava de fazer. A analogia que Beck faz entre a perda da
amiga e a perda de um objeto que ela tinha na infância e que ela sentiu alívio
em perder porque não conseguiria abandonar por conta própria quase parece
justificar para Joe (e para nós) mais uma vez, a morte de Peach. Sobre Ron eu
nem preciso dizer o quanto comemoramos a morte dele não é? O mal que o cara
fazia para o menino Paco e sua mãe nos faz sentir borbulhas de raiva, é como se
ele tivesse tido o que mereceu, e cara, eu tenho medo de sentir esse tipo de
coisa. As pessoas merecem morrer se elas se comportarem de determinada maneira
afinal? Como se determina isso? Porque ao assistir esses assassinatos pela
visão de Joe nós praticamente torcemos para ele? Se ele morresse sentiríamos
mais pena dele do que das outras vitimas?
O assassinato de Beck é de longe o que mais nos
faz repensar Joe, ele dizia não ser capaz de machucar quem ele ama, e com ela
ele ultrapassa essa linha, e agora? Pela forma como a série termina fica claro
que teremos uma segunda temporada e eu espero que sim, afinal tem muito mais de
Joe para descobrimos. Joe é vilão e ao mesmo tempo é mocinho, é protagonista.
Gosto muito dessas
obras que nos trazem a visão daquele que é tido como mau, é
sempre uma experiência enriquecedora, pois somos muito acostumados à ver tudo
pela ótica do "bonzinho". No caso de Joe, acredito que uma das coisas
que nos faz sentir empatia pela sua história é a maneira cordial com que ele
vive a sua vida
e a forma como racionaliza suas ações. Ele nos faz acreditar
que ama Beck e que tudo o que faz é por ela, ele nos faz acreditar que tem bons
sentimentos através da relação que estabelece com Paco, um menino que é seu
vizinho e que sofre constantemente abusos psicológicos presenciando brigas
terríveis entre sua mãe e seu namorado agressivo, que a agride de todas as
formas. A preocupação de Joe com Paco nos fornece um elemento humano necessário
para nos conectarmos com Joe, ele tem sentimentos! Pensamos. E assim, nos
deixamos levar pela sua narrativa mórbida. Sentimos raiva de Ron, mas não
sentimos raiva de Joe. Isso me faz pensar em uma frase que ele diz ao longo da
série que diz algo mais ou menos como, se você agir naturalmente e for gentil
as pessoas tenderão à acreditar em você. Ron e Joe fazem coisas horríveis, mas
porque vemos as justificativas de Joe e não vemos as de Ron, gostamos de um e
odiamos o outro. Sim meus caros eu gosto do Joe e isso é difícil de admitir,
mas estaria mentindo se dissesse o contrário. Gostar desse personagem é a coisa
que mais me intriga em todo esse processo de reflexão.
Eu sempre enxergo o sucesso de obras de ficção
como projeções arquetípicas em grande escala, em outras palavras, acredito que
quando algo faz sucesso popular esse algo contém algum elemento arquetípico sob
o qual muitas pessoas conseguem depositar suas projeções. Projeção pra quem não
sabe é um vocábulo psicanalista que significa resumidamente colocar para fora o que existe
dentro de si. Dessa forma, sempre que olhamos para alguma coisa, os primeiros
julgamentos, as primeiras
impressões, serão quase sempre projetivas, pois não
temos informações suficientes sobre as coisas quando acabamos de nos deparar
com ela para poder avaliá-la imparcialmente, ou mais objetivamente, logo, avaliamos com o que temos. Quanto mais informações captamos sobre algum fenômeno, mais pode ser objetiva ou não a nossa visão sobre tal, e é muito difícil avaliar quando estamos sendo projetivos ou não, por isso todo cuidado é pouco ao julgar as coisas, quando fazemos isso, estamos falando muito mais sobre nós mesmos. Um arquétipo que podemos encontrar em You diz respeito à esse homem gentil e preocupado, que a maioria das mulheres sonha em conhecer, o príncipe encantado que torna tudo mais leve, mais estável. Faz tempo que não acredito mais nisso mas eu sei que a quantidade de pessoas que realmente esperam por isso é muito grande. Também sei que a quantidade de pessoas que arriscaram tudo por seus pares ideais e acabaram sofrendo muito com decepções diversas é imensa, eu me encaixo nessa segunda assertiva.
Por algumas vezes me deixei enganar, por algumas vezes criei expectativa sobre outro ser humano e demorou pra aprender o quão isso é um erro terrível que nos custa a própria paz. Me envolvi com pessoas que se colocaram como centro da minha vida e prometeram nas entrelinhas "cuidar de mim"
e me proteger do mundo. Na época eu era jovem demais pra saber que eu não precisava que ninguém me protegesse de nada, e era jovem demais pra saber que realmente isso não estava ao alcance de ninguém, logo, qualquer promessa nesse sentido seria ilusória. Eu entrei em um jogo perigoso, onde os jogadores não enxergavam as coisas da mesma forma, até que comecei a sentir na pele tudo que um relacionamento abusivo poderia oferecer. Então veio o choque, em seguida o desespero e agradeço por ter tido o apoio necessário para sair desse ciclo à tempo de manter minha sanidade e me reequilibrar, nem todos tem à mesma sorte. E essa realidade é tão comum que se torna um tema arquetípico, e faz com que obras como You ganhem grande espaço dentro de nossas casas, queremos entender como isso acontece. Queremos entender como podemos deixar a vulnerabilidade nos tornar seres desprezíveis e desprezados. Queremos saber se isso acontece com as outras pessoas, em que nível acontece, porque acontece. Acho que os produtores da atualidade entenderam o quanto a nossa sombra pode render muito mais do que tudo aquilo que está fora dela. O conflito da nossa sociedade atual é entre nós e a aquilo que há de pior em nós. Precisamos nos reconciliar com os nossos elementos ignorados, precisamos entender aquilo que julgamos ruim e precisamos aprender a lidar com isso. Cara, isso ainda vai render muitas histórias, isso é só o começo. Se eu tivesse que dar uma nota para You nesse momento eu daria um 8,5. Um nota consideravelmente alta e que significa que eu gostei muito e que quero parte II pra continuar falando sobre, sabe se lá quando teremos não é? Não me preocupo em esperar se a espera valer à pena.






