quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre abraçar a própria história

Antes me mais nada, quero ressaltar que a linguagem aqui tem licença poética, e que quando eu for falar de ciência, ou passar alguma informação isso será sempre devidamente referenciado. Aqui sou eu Jessica emitindo minhas opiniões que ninguém perguntou, mas que eu gosto de registrar para análises posteriores, como sou acostumada a fazer com tudo na minha vida desde sempre. Dito isso, seguimos para nossas reflexões sobre o título do post. O que significa abraçar a própria história e porque devemos buscar fazer isso?
Olha pra você agora. Pára seus pensamentos e olha para você, olha para os seus pés, olha para suas mãos, olha para suas pernas, suas coxas, seus braços, seus dedos, sua barriga, suas marecas, se olha
no espelho, se olha no olho, se vê. Você está com esse corpo, você carrega esse corpo e esse corpo te carrega desde o dia em que você surgiu, e vocês têm uma história, uma longa e única história. Ter uma história única não quer dizer que a gente é especial não, e isso é bom. Ser especial é carregar um fardo pesado demais para os ombros humanos ainda tão falhos. Não temos nada de especial, na escala evolutiva, somos animais que pensam, e temos isso ao nosso favor, ou ao menos deveríamos ter, porque pensando bem, não temos nos esforçado para usar nossa inteligência coletivamente. 

Para abraçar a própria história você precisa se contextualizar no mundo real, entender o ambiente em que você vive, entender como funciona o coletivo. Aqui nesse mundo existem pessoas que possuem mais e outras menos, o que costumamos chamar de desigualdade social. Existe justiça para alguns, não existe para tantos outros. Aqui nesse mundo morre uma pessoa de fome por minuto. Não sabemos usar nossos recursos sabiamente, estamos destruindo o planeta para vender plástico, e por mais inteligentes que possamos ser, cada dia mais nos afundamos em guerras por dinheiro, gastando para isso, um dinheiro que poderia deixar o mundo todo bem alimentado, suprido. Aqui tem gente brigando por tudo, por território, poder, dinheiro, ideologia... Aqui nesse planeta que você e seu corpo vivem, existem coisas ruins e também coisas boas, e aleatoriamente vamos passar por umas e por outras. 

Isso mesmo, aleatoriamente. Por mais que você queira acreditar nas regras que uns velhos escreveram há dois mil anos atrás, não existe nenhum senhor atrás da cortina desse show de horrores apontando quem deve sofrer mais e quem deve sofrer menos. Seria um belo de um sacana esse ser, no mínimo, para ser educada. Tirar o peso de ser especial ou estar sendo cuidado por alguém, ou possuir qualquer tipo de karma, é entender que aqui vamos chorar e vamos sorrir, e que em todos esses momentos, devemos olhar para nossa história e entender o porque desse choro e desse riso. "Mas Jessica, porque se sentir especial ou acreditar em deus/destino me atrapalharia nisso?" Aí é que está, não precisa atrapalhar. Saber separar as crenças pessoais da ciência, é uma qualidade que todo aquele que gostaria de entender melhor a vida que o cerca e a si mesmo, deveria fazer. 

Tá tudo bem crer, ter espiritualidade e tudo mais. Se isso é claro, não te fizer se sentir mais do que outra pessoa, alguém mais especial do que os outros, ou o contrário, alguém que possui um karma e que está destinado a sofrer por algum motivo ou atrair certas coisas. Qualquer visão determinista que você usar para olhar sua história, vai te afastar de si mesmo. Você pode acreditar no que quiser, desde que entenda que você não sofre porque "merece", ou porque Deus quis, ou o contrário, que têm os privilégios que têm porque é especial, porque merece, porque atraiu porque é fodão e o universo te ama enquanto deixa o pivete baleado na esquina. Sua vida não está nas mãos de ninguém, nem de deus, nem do universo, nem signo, nem energia nem demônio, é você. Você está caminhando nessa selva de pedra, usando os materiais que conseguiu separar ao longo do caminho, pisando em flores e em espinhos, encarando e desviando para sobreviver. É você, vindo de seu pai, nascido de sua mãe, no lugar em que você nasceu. Se trata de onde você veio e com quem você têm vivido até aqui, seu contexto, sua localização geopolítica, nesse exato momento da história de um mundo que tem mais de 4 bilhões de anos. 

Abraçar a própria história é entender que, somos o que somos porque nascemos onde nascemos e vivemos o que vivemos. Isso não quer dizer que nosso meio nos determinou. Isso quer dizer que nosso ser subjetivo nasceu em um determinado lugar do mundo em um determinado tempo, onde as regras funcionam de uma determinada maneira e esse nosso eu, esse ser subjetivo, que pensa, que sente, se adaptou a isso porque é isso que a gente faz, a gente se adapta. Somos dependentes uns dos outros desde que nascemos, em todos os níveis, porque somos péssimos animais, não sabemos lutar, não sabemos correr, não temos garras nem dentes afiados, como mamíferos soltos na natureza morreríamos facilmente. As coisas são diferentes quando nos unimos. Como sociedade, somos capazes de fazer muita, mas muita coisa. E estamos longe de começar a fazer a coisa certa, embora eu não possa dizer que não temos tentado também. É difícil eu começar qualquer reflexão e não acabar correlacionando-a com questões sociais, porque na minha visão está tudo interligado, faz parte da visão macro, que nos coloca frente a uma realidade para além da nossa própria, e nos permite ver, que a vida não está limitada ao nosso mundinho, isso nos contextualiza. 
Na medida em que eu sei que dentro desse mundo existem centenas de milhares de histórias únicas, eu consigo entender que se ninguém mais poderia ter vivido o que eu vivi, o que eu senti, então eu não poderia também ter conseguido, vivido aquilo que o outro viveu ou conseguiu, porque somos essencialmente diferentes. Quando nos deparamos com as situações diversas do dia-a-dia, usamos as ferramentas que temos para lidar com elas, interpretamos com as lentes que adquirimos através dos outros, sobre como a vida deve ser vista, vivida. Vamos sendo lapidados a todo instante pelas novas circunstâncias. Somos tão capazes de aprender e isso é uma das coisas que ainda me faz sentir algum tipo de fé na humanidade. Então, porque não começarmos a investir energia nisso, entender um pouco mais de nós a cada dia? Se a gente entende bem como as coisas foram acontecendo ao longo da nossa vida, adquirimos automaticamente um olhar mais acolhedor sobre nossas cicatrizes. Somos seres complexos, profundos, enigmáticos e com um potencial, ao meu ver, ilimitado. Precisamos entender que nossas conquistas podem ser diferentes, nossos anseios podem ser diferentes, aquilo que nos aborrece ou entristece não precisa ser o mesmo que para outra pessoa. Não precisamos nos encaixar em um padrão, pelo contrário, que sejamos nós mesmos nosso próprio padrão. 

Olhar para as coisas que nos fazem bem com carinho, nossas músicas, nossos filmes e séries, nossas artes... as pessoas que nos fazem realmente bem, que nos impulsionam, que nos fazem ver o melhor em nós mesmos sem deixar de ser críticos e verdadeiros. Olhar para nosso corpo físico e remontar junto com ele essa história de vida que começa lá na infância, e vai perpassando os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras séries escolares, os primeiros amigos, os primeiros amores, as primeiras frustrações... Sua mente tentando caber em seu corpo e seu corpo tentando se adaptar a sua mente, nem sempre essa união pareceu estável, eu sei, mas a tentativa de mantê-la nos trouxe até aqui, e ao que tudo indica, vale a pena continuar, nem que seja só para, ver no que vai dar. Essa é a chance que precisamos nos dar todos os dias. 




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