Inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Ilana Casoy e Raphael Montes, a série conta a história de Verônica Torres (Tainá Müller), uma escrivã policial, casada e com dois filhos, que tem sua rotina virada de ponta cabeça depois de presenciar o suicídio de uma mulher na delegacia onde trabalha. Verônica fica intrigada com o acontecido, se sentindo culpada por não ter feito nada, então começa a investigar o caso, se colocando publicamente à disposição de outras mulheres que precisam de ajuda. É aí que Janete (Camila Morgado) entra em contato com ela e começa a pedir socorro porque está com medo do que o seu marido Claudio Brandão (Eduardo Moscovis) pode fazer com ela. A missão de Verônica daí pra frente será entender como ela pode ajudar Janete, e no meio disso ela acaba descobrindo várias outros esquemas de corrupção em que sua própria equipe está envolvida, além de ter que lidar com um serial killer, colocando sua vida e de sua família em risco.
O terror psicológico é instaurado pelo realismo da série, pois o tema central é a violência doméstica, presente nos mais variados níveis, na vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. Aqui entra um segundo ponto que me faz realmente querer indicar Bom dia, Verônica, que é o fator crítico, a discussão que vale a pena ser discutida, o assunto que vale a pena ser falado, a verdade que precisa ser vista. O machismo e a misoginia estruturais da nossa sociedade, produzem mulheres suscetíveis à serem colocadas em posição inferiorizada, esvaziadas de si mesmas, ao ponto de muitas delas nem sequer serem capazes de compreender a violência que vivem, o perigo que correm, e acima de tudo, se culpando por isso.
É perturbador ver o sofrimento psíquico e físico que uma mulher enfrenta em uma relação abusiva, e a série trabalha muito bem essa realidade, mostrando a estratégia de manipulação do abusador e a dependência emocional em que ele coloca a vítima, retirando ela dela mesma, preenchendo os vazios que ficam com medo e culpa. A série trabalha com o extremo, o abusador aqui é um serial killer, e embora nem todos na vida real sejam assim, os homens abusivos possuem traços de personalidade muito parecidos e que os colocam na posição de possíveis assassinos.
APROVEITANDO A DEIXA... nesse mesmo mês de lançamento da série, temos o Dia Nacional da Luta contra a violência doméstica, uma data fixada há 40 anos após a mobilização de mulheres no Theatro Municipal de São Paulo. 40 anos se passaram, o assunto já começa a penetrar com mais solidez no debate social, mas MUITO ainda precisa ser feito. Nenhuma de nós seremos livres enquanto todas não forem. A violência contra a mulher é sintoma do machismo estrutural que nos molda. Quando eu assisto novelas, filmes e séries de alguns poucos anos atrás já consigo perceber nitidamente como a sociedade sempre rebaixa o papel da mulher e sua importância. Isso tem mudado, mas ainda falta muito para chegarmos a raiz do problema, o fim do capitalismo, mas aí, já é tema pra outro textão.
E para não deixar passar, segue alguns traços da personalidade abusiva, que precisam ser identificados para que a mulher saiba reagir na hora certa, para que ela consiga quebrar o ciclo.
Traços da personalidade abusiva
É preciso entender, e a série mostra isso, que o abusador não começa o relacionamento sendo violento, isso vai se desenvolvendo ao longo da relação através de várias etapas, que vão se cumprindo e imprimindo na mulher essa posição de aceitação, que começa como uma esperança de melhora na relação até ir para o estágio do medo e da culpa. Eu acho importantíssimo falarmos sobre os indícios que um abusador dá logo no começo, esses sinais precisam estar claros para todas nós, porque são esses sinais que vão nos permitir reconhecer o abusador e possibilitar dar um fim no relacionamento antes que seja tarde demais.
Nos relacionamentos modernos, percebo muito esse traço em atitudes como "eu posso, mas você não", onde uma pessoa faz alguma coisa, sai para algum lugar sozinha por exemplo, e a outra faz a mesma coisa, mas a reação do abusador é de repúdio, geralmente eles "terminam" a relação e culpam a outra pessoa, esperando que a pessoa peça desculpas, tente se redimir, e se isso acontece, o abusador já entende que tem o controle da situação.
Vale frisar que, é normal casais compartilharem essas informações ao longo do tempo, com naturalidade tudo isso vai surgindo na relação, mas é a maneira como isso é questionado que é diferente num relacionamento abusivo, percebe-se um tom investigativo, de desconfiança. A vítima responde a esses questionamentos tentando justificar que não há motivo para julgá-la mal, e é aí que está o grande X da questão, quando nos percebemos nessa posição de dar explicação sobre algo que não faz o menor sentido, é hora de repensar a relação. O melhor caminho é já pontuar logo no começo que esse tipo de comportamento não será tolerado, e terminar a relação caso perceba que esse é o modus operandi.
O ciúme possessivo nunca começa extremo, como tudo num relacionamento abusivo, ele vai aumentando gradativamente e esse aumento é perceptível para quem está ciente que isso é um problema sério. Existe uma romantização imensa em torno do ciúme, muitas pessoas realmente acreditam que sentir ciúme é prova de amor, quando na verdade está mais relacionado ao campo da insegurança e baixa autoestima. A pessoa não tem medo de perder aquela namorada específica, mas de perder o que essa namorada faz essa pessoa sentir que é, e isso faz com que esse ciúme se repita em todas as relações do abusador. É um traço dele, não tem a ver com o parceiro.
Nem todo mundo que sente ciúme é abusivo, muitas pessoas têm noção do quanto esse sentimento pode ser danoso para uma relação e conseguem o controlar com maturidade, sem atacar a vida do outro. Um pouco de ciúme, insegurança e medo de perder o outro é normal, somos imperfeitos e carregamos esses traços, o grande problema é ser adulto e não saber manejar isso. E como a gente sabe se o ciúme está demais ou não? Bom, o fato de se fazer essa pergunta estando em uma relação já diz muita coisa. Se o ciúme começa a ser cada vez mais frequente, se ele atrapalha a vida de alguma forma, faz a pessoa sempre estar se sentindo mal, já está bem claro que essa relação não é saudável e essa invasão vai se agravar.
Humilhações, agressões verbais, terror psicológico
A sensação é como se a vítima fosse tudo e ao mesmo tempo nada. Porque se por um lado, quando precisa se sentir melhor, o abusador diz ao seu parceiro tudo que ele quer ouvir, que ele é especial, que o ama mais que tudo, que faz tudo por ele e que por isso, e aí vem o outro lado, também perde a cabeça. Então tenta fazer a vítima se sentir a pior pessoa do mundo, vai minando sua autoestima, dia após dia, até que ela se entregue a essa posição de humilhada. Pequenas ofensas gratuitas, não gostou da roupa nova que comprou, achou feia a última foto postada no feed, achou vulgar falar ou agir de tal forma, a comida comprada no restaurante seria melhor, a série que outra pessoa apresentou foi mais legal, e por aí vai, a lista de exemplos é infinita, e o padrão é esse. E isso é só o começo, como já ficou claro aqui, as humilhações também se intensificam, e não vão parar.
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Em Bom dia, Verônica conhecemos um pouco mais dessa realidade, e por ser um entretenimento que agrega, faço questão de deixar registrado aqui nesse textão, a minha forte indicação para que todas, todos e todes assistam também, e que possamos ampliar a visão sobre a importância de discutir esse tema e abri-lo para toda sociedade. É fundamental a compreensão da complexidade que é estar em uma relação de abuso, e a última coisa que uma pessoa nessa situação precisa é de mais preconceito e julgamento. Exercitemos constantemente nossa empatia, o nosso olhar de cuidado com o outro, e não percamos de vista, a longa estrada de luta adiante.
CANAIS DE APOIO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
A Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência - Ligue 180 – é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria Nacional de Políticas, desde 2005.
Associação Nenhuma a Menos Maringá - Apoio e suporte para mulheres de todo país na luta contra o feminicídio.
Mais informações: https://www.mapadoacolhimento.org/






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