sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Resenha Crítica sobre o filme "AS SUFRAGISTAS"


Fiz um trabalho sobre o filme "As Sufragistas" para disciplina de Gênero desse último semestre da faculdade que achei muito interessante e vou compartilhar aqui com vocês para quem tem interesse por temas referentes às lutas feministas. Vou cortar algumas partes para não ficar muito extenso e tentar manter o foco no assunto principal do filme. Espero que gostem 😊



RESUMO DO FILME “AS SUFRAGISTAS”

As cenas iniciais do filme vão nos apresentando o contexto histórico da narrativa que se passa no início do século XX. Começamos sendo apresentados à rotina da protagonista
Maud Watts, uma jovem da classe operária que trabalha numa imensa fábrica com outras dezenas de mulheres durante o dia, e a noite cuida do marido e do filho pequeno. Um dia seguindo seu trajeto comum ela se depara com um tumulto iniciado por mulheres, que começaram a atirar pedras em vidraças de lojas enquanto gritam pelo direito das mulheres ao voto, essas mulheres são conhecidas como sufragistas exatamente por isso, por lutarem há anos pelo sufrágio feminino.
No trabalho ela conhece uma sufragista Violet Miller que a convida à participar das reuniões que elas promovem semanalmente, Maud comparece e vai se mostrando cada vez mais interessada na causa das sufragistas mesmo não se identificando como uma. Violet leva uma surra antes de poder apresentar seu testemunho a um grupo de parlamentares que prometeram julgar a causa sufragista, então Maud acaba tendo que testemunhar em seu lugar e ao fazer isso ela começa a perceber o quanto sua forma de viver não era normal nem deveria ser. Quando a discussão dos parlamentares é encerrada e eles decidem que não há evidencias que justifiquem o sufrágio feminino, Maud se sente imensamente injustiçada, as mulheres começam um tumulto e são impelidas por soldados que as espancam de todas as formas e Maud acaba sendo presa pela primeira vez.
Ela começa a se engajar na causa sufragista participando de suas reuniões e atividades militantes, e depois que é presa pela segunda vez seu marido à expulsa de casa, ela perde também o contato com o filho e perde o emprego, ocasião em que queima a mão do patrão com um ferro quente, se vendo em seguida coagida a colaborar com um promotor em troca de sua liberdade, entregando a ele informações sobre os passos das sufragistas, o que ela finge aceitar mas depois acaba finalmente entendendo que se tornou uma sufragista continuando sua luta ao lado das outras mulheres que conheceu nessa trajetória.
O ato final do filme mostra o suicídio de Emily Davison, uma de suas colegas sufragistas que em meio a um evento público com a participação do Rei e consequentemente de toda mídia mundial, se joga na frente do cavalo do Rei que galopava velozmente, carregando uma bandeira que simbolizava a luta daquelas mulheres, bandeira essa que é recolhida por um dos homens que trabalhava para repreender essa luta, numa tentativa de ofuscar a intenção daquele ato militante. Com essa ação porém as sufragistas recebem a atenção que buscavam da mídia, e depois de muitos anos de sacrifício numa luta que levou à prisão de mais de mil mulheres britânicas, o voto às mulheres acima de 30 anos foi concedido em 1918. A lei reconheceu o direito das mães sobre os filhos em 1925 e apenas em 1928 as mulheres tiveram seu direito ao voto igualado ao dos homens.

 CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS

O filme "As Sufragistas" é um filme de 2015 de Sarah Gavron cuja narrativa, como o próprio nome sugere, gira em torno da luta das mulheres pelo direito ao voto. É muito válido a informação inicial do filme ressaltando que o mesmo retrata um recorte específico da história da luta pelos direitos das mulheres, visto que de acordo com Bittencourt (2015), essa é uma luta antiga, silenciada por uma opressão constante advinda de interesses dominantes, onde cada época tem suas especificidades, esse friso é importante para ressaltar a importância de se compreender a pluralidade dos movimentos que lutaram pela ampliação dos direitos das mulheres ao longo da história, e entender que a retratação artística do filme é referente à um recorte de um momento específico em um lugar específico, e não deve ser entendido como algo que represente o movimento como um todo. 
Segundo Bittencourt (2015) a primeira onda feminista surgiu pouco depois da Revolução Francesa e ficou conhecida como "sufragista", termo que deriva de sufrágio que significa poder de escolha por meio do voto, uma pauta marcante como símbolo em muitos movimentos feministas ao longo do tempo. O filme se passa no ano de 1912 em Londres, dentro desse contexto de luta por parte de milhares de mulheres que acontecia nesse período nos EUA e na Inglaterra. A obra mostra o fracasso contínuo da luta das mulheres pelos seus direitos enquanto suas reivindicações não atingem profundamente a estrutura do patriarcado.
O conceito de Marilena Chauí apresentado por Santos e Izumino (2005) é muito facilmente identificado no filme, a diferença biológica existente entre o homem e a mulher é transformada em uma desigualdade na medida em que naturaliza atitudes opressoras de um em relação ao outro de forma que ambos contribuem para perpetuar esse sistema. Maud sente na pele sofrimentos que a acometem especificamente por ela ser mulher e no início do filme podemos perceber o quanto sua situação de vulnerabilidade lhe parece natural, ela aceita o tratamento abusivo do patrão e aceita que ainda deve ser grata a ele, ela realmente se sente inferior e acredita que isso é normal, ou seja, é possível observarmos inicialmente Maud servindo como instrumento de reprodução da ideologia patriarcal, assim como todos aqueles ao seu redor que não estão familiarizados com a causa. A visão de Heleieth Saffioti colocada por Santos e Izumino (2005) de que os sistemas capitalista e racista possibilitam a dominação masculina perpassando também o plano econômico e beneficiando principalmente o homem rico e branco, algo que chega a ser quase palpável no filme, quando observamos a exploração realizada pelo patrão de Maud, homem adulto, branco e rico que lucra muito as custas do trabalho quase escravo que impõe as suas operárias que aceitam como algo muito natural. Elas são obrigadas a trabalhar em péssimas condições, trabalham mais horas que os homens e ganham menos do que eles e além disso deixam seus salários com eles, um cenário que torna o lucro exacerbado sobre a exploração humana algo legalizado beneficiando somente os patrões.
Quando vemos Maud sair da posição de vítima e começando a adotar uma postura de militante, podemos ter uma visão sobre a proposta de relativização da “vitimização” e da “culpabilização” de Maria Filomena Gregori apresentada por Santos e Izumino (2005), de modo que podemos perceber a limitação imposta pela vitimização que também colabora para que a mulher se torne “cúmplice” na perpetuação da opressão patriarcal, na medida em que ela aceita a posição de vítima e entende que nada tem à fazer para mudar sua própria situação fazendo com que essa continue. Ouso dizer que a necessidade que ainda temos do feminismo é muito visível em Maud, até hoje muitas mulheres se encontram tão acostumadas com suas vidas que são incapazes de perceber as violências que sofrem, se encontram vitimizadas e tem muita dificuldade em mudar sua situação por nem entenderem que existem outras saídas e que o que vivem não é algo natural ou normal. É claro que em cada contexto específico poderemos identificar mecanismos diferentes atuando dentro dessa mesma lógica de violência contra a mulher, e é importante sempre frisar que analisar filmes e textos como os apresentados nesse trabalho é buscar entender as diversas faces de um movimento muito antigo e complexo, que é o das mulheres na busca de igualdade.
Existe uma marcante pluralidade característica nos movimentos reivindicatórios das mulheres ao longo dos anos, o filme traz um recorte de uma época específica em um lugar específico e consegue nos dar um panorama sobre uma realidade específica, se trata de uma obra que pretende contar uma visão sobre um determinado lado de uma história real.

Somos levados nesse filme a sentir mais de perto um pouco da realidade dessas mulheres tão corajosas que sofreram de diversas formas em prol dos seus ideais progressistas, perderam tudo que tinham pela sua luta, que nunca foi em vão da qual nós hoje saímos beneficiadas. A estratégia do filme de narrar a história de uma mulher comum que aos poucos começa a perceber o quão errado está o funcionamento da sociedade e aos poucos vai se engajando na militância, perdendo emprego, marido, filho, sendo presa, torturada e oprimida de todos os lados, torna o filme acessível ao público médio, que tem interesse em sentir um pouco mais sobre essa realidade que hoje pode parecer distante para alguns, mas que assume diferentes máscaras para se fazer presente, o que não nega é claro, que muitos avanços foram conquistados até hoje, mas também evidencia a contínua necessidade de se aprofundar os debates acerca da violência contra a mulher e mais recentemente a violência de gênero, bem como as outras formas de violência explicitadas nos textos.
A luta contra a opressão de gênero é contínua e deve permanecer sendo explorada,  a exibição no final do filme dos anos em que o voto feminino foi conquistado em cada país ao longo dos anos deixa essa questão bem evidenciada. No país do filme, Londres, esse ano foi 1928, no Brasil foi em 1932, na China em 1949, na Nigéria em 1976, na Arábia Saudita foi em 2015! Dados que enfatizam a necessidade presente até os dias atuais de se continuar fomentando discussões sobre esses temas de modo que seja possível construir estratégias cada vez mais eficazes na luta pelo combate à qualquer tipo de violência e opressão de gênero. 



REFERENCIAS

BITTENCOURT, Naiara Andreoli. Movimentos feministas: As "ondas" dos movimentos feministas e o eurocentrismo da história. Insurgência, Brasília, v. 1, n. 1, p.198-210, jun. 2015.

SANTOS, Cecíçia Macdowell; IZUMINO, Wânia Pasinato. 1.3. Violência contra as mulheres e violência de gênero: notas sobre os estudos feministas no Brasil. Estudos Interdisciplinares de América Latina, Caribe, v. 1, n. 23, p.2-16, 2005.

GAVRON, Sarah. Suffrafette. Reino Unido/França. 2015.

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