Então finalmente me rendi ao filme mais comentado da última semana, terminei de assistir agora e vim correndo escrever enquanto está tudo fresco. Bird Box desencadeou uma enxurrada de postagens à respeito nas redes sociais (as quais eu evitei ler todas porque odeio spoiler, o que foi bem difícil porque estava em todas), a grosso modo percebi que tinha gente falando que odiou, gente falando que amou, gente falando que não entendeu, enfim, tinha opinião de todos os tipos e eu fiquei bem interessada em saber qual seria a minha. Como já é de praxe no meu método de interpretação da vida, tive que ver com meus próprios olhos e analisar meus sentimentos à respeito.
Bom, pra eu avaliar se um filme é bom eu sigo alguns parâmetros, o primeiro deles é o rastro emocional que ele é capaz de deixar no exato momento em que ele acaba. Em outras palavras, é o sentimento que fica após o término. Esse parâmetro é avaliado automaticamente em primeiro lugar, mas não é exatamente o aspecto mais importante, visto que ele está baseado totalmente na minha percepção momentânea, está traduzido de acordo com as minhas lentes atuais, e isso é totalmente mutável. Eu tenho constantemente experiências ressignificativas nesse sentido, ter uma visão totalmente diferente de um filme que vi anos atrás é um exemplo que se encaixa então, é bom sinalizar que, se as questões se dessem por esgotadas apenas pela nossa percepção momentânea, nenhuma ciência nunca teria sido necessária... mas não divaguemos demais. Continuando.
A sensação que eu tive ao longo do filme foi de certa aflição meio que constante, que misturou-se com curiosidade (à respeito da coisa), e apreciação de momentos de bons diálogos e boas cenas de expressão do relacionamento humano coisa que eu aprecio muito nos filmes então é algo que pontuo forte. O desenrolar do filme me cativou, a construção da narrativa, dos personagens, à forma como foi contado, deixou a história interessante, sendo aquele tipo de história que mantém o espectador preso nele até o final. Isso é muito legal porque é bem difícil assistir filmes assim, ora, existem centenas de filmes incríveis, mas também existem milhares de filmes meia boca e ruins, eu conto como um ponto forte, e no caso desse filme é quase o ponto que sustenta toda a pontuação do filme porque realmente é um atributo muito utilizado.
A questão é que, toda essa narrativa meio que cria uma fantasia na cabeça de quem está assistindo que culmina na elaboração de mil teorias explicativas para a parada toda. Somos acostumados pela nossa cultura de filmes de sessão da tarde à ficar satisfeitos apenas com finais felizes e explicativos. A grande questão dos filmes sempre foi a de criar todo um mistério para depois solucioná-lo e estamos muito inseridos nessa forma de pensar, logo, é compreensível o sentimento de uma galera que ficou desapontada com a falta de uma explicação do rolê, eu mesma confesso que fiquei esperando mais, mas no meu caso em particular, acredito que essa sensação tenha raízes principalmente na alta expectativa gerada pelo rebuliço das pessoas na internet, não sendo culpa da narrativa em si. Não fomos ensinados à apreciar filmes mais nesse sentido reflexivo que explora nosso imaginário e nossos conteúdos internos. Para mim esse filme teve um pouco dos dois elementos aqui, um pouco de sessão da tarde na medida em que tem cenas pesadas mas não TÃO pesadas, rola um romance, tem um certo momento de humor, o final é feliz, todos os personagens principais sobrevivem, enfim, é um final até "aconchegante". Tem elementos demais dos filmes que estamos acostumados a ver com um final explicativo, mas não se pretende ser somente isso aparentemente. E é aí que vem a parte mais poética, vou dizer assim, que soma alguns pontos também para o filme.
Quando termino de assistir um filme eu costumo refletir sobre a ideia geral que ele quis passar, nesse caso, foi impossível para mim não fazer a conexão entre diversos temas do nosso cotidiano. Vamos analisar os elementos objetivos, pessoas que do nada passam a enxergar algo que as atrai para o suicídio, esse enuncia-se também através de uma voz de uma pessoa querida que busca à todo custo fazer a outra tirar a venda. O que a gente vê é um "nada", um "vento", mas o que a pessoa vê não sabemos, podemos ter uma ideia à partir das imagens esboçadas pelo personagem doidão que pede abrigo e mata todo mundo. Tem essa questão também, não atinge as pessoas consideradas "insanas" que gostam do que está acontecendo, acham lindo, e também não atinge os cegos, porque né, não podem ver. Fora esses dois grupos de pessoas, aquele que olhar para fora de qualquer ambiente fechado, irá cometer suicídio, o que faz com que todos os personagens sejam obrigados a vendarem seus olhos para fazer qualquer coisa fora de casa. A consequência disso é um cenário apocalíptico onde as pessoas precisam lutar bravamente para sobreviver, onde acompanhamos de perto da história da personagem da Sandra Bullock, que estava maravilhosa pra mim, bem como as crianças, que à princípio eu julguei até "obedientes demais", pensei, "caralha se fosse meus sobrinhos pra proteger eu tarra é fudida! Cooomo que essas crianças são assim?" Mas agora refletindo melhor, é compreensível visto que, elas nasceram nesse contexto, elas nasceram nesse mundo, esse é o mundo normal para elas, elas nunca conheceram outras pessoas, elas sempre souberam que não podiam tirar as vendas e que tinham de ser discretas, era uma lei implícita pra elas então, faz sentido o comportamento "tranquilo" deles pensando por esse lado.
Teve outros personagens legais também, gosto muito quando a linda da Sarah Paulson aparece nas telinhas da vida, e gostei muito do personagem do John Malkovich também, fora eles todos bem ok, o foco foi mesmo na história da Malorie com as crianças. Essa relação nos trouxe elementos para se pensar a relação mãe e filhos, à história fez questão de enfatizar as características mais "duronas" da personagem principal, mostrando que ela e a irmã foram crianças sem pais, o próprio fato dela se recusar a colocar um nome nas crianças evidencia muito essa coisa de um certo "afastamento humano" que ela tem. E que ela é obrigada a quebrar né, além do próprio filho ela fica com a filha da colega que acaba de fazer no mundo apocalíptico e se vê em meio à esse caos tendo que proteger essas duas crianças. O vínculo é estabelecido, percebemos esses afetos sendo explorados em diversas cenas, acho que a principal delas quando ela implora pela volta da garotinha no final da selva e chama as crianças de seus filhos.
Agora levando pra um lado mais filosófico precisaria me aprofundar em elementos como o pássaro por exemplo, que é de um significado simbólico inesgotável. A analogia mais óbvia parece pretender contrastar nossa realidade atual de prisão particular à prisão imposta aos personagens, obrigados a viver sem poder ver a vida como ela é de verdade, restritos aos poucos relacionamentos pela sua bolha apocalíptica que obrigatoriamente vai se tornando cada vez menor, fechados para o resto do mundo, focados em sobreviver, soa familiar não é? Gosto de obras que explorem esse lado fantasioso em nós, que nos faz pensar sobre as razões pelas quais as coisas se deram de determinada forma. Eu pondero sempre que há uma história e uma intenção por parte dos autores, e gosto quando eles deixam aberturas à leituras diferentes, é realmente instigante pensar sobre, se ressoa no nosso íntimo, com certeza é um elemento à ser analisado. As pessoas vivem em caixas e agem de forma como se a visão da realidade pudesse matá-las, obrigando a si mesmas a se conformarem com as próprias amarras. Aquelas cujas lentes da realidade já estão demasiadamente alteradas aproveitam-se do caos, apreciam-o, vangloriam-se dele. E aqueles que não enxergam com os olhos é que enxergam de verdade, ou seja, aquelas que veem além das aparências vivem a vida como ela seria na sua essência de ser. E dentro de todas essas amarras e imbricações e contradições encontra-se a condição humana vigente, essa condição eterna de estar sempre buscando respostas para justificar todas essas ações sujas que tomamos todos os dias desde que existimos.
Saio do modo filosofando para reforçar que, não acredito nessa coisa de interpretação correta, certeira, de algo como um filme, ainda mais desse segmento. Ouvi dizer que existem outros sentidos simbólicos por trás do filme, mas como disse, não quis ler nada para evitar spoiler e preferi assistir e correr pra falar sobre então, vou tentar dar mais alguma lida pra ver se encontro algum elemento novo que acrescente ou até mude minha visão haha. Porque até aqui, o filme foi nota 7,0 pra mim, e é claro que minha opinião vale o total de nada pra ninguém relevante do mundo do cinema ou das pessoas que entendem mesmo de filmes, massss diante das considerações aqui expostas, eu me dou esse direito e é isso mesmo. 💋💋






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