segunda-feira, 16 de março de 2026

Oscars 2026: alguns comentários sobre a premiação mais famosa do cinema

Ontem aconteceu a 98ª cerimônia do Oscars, premiação criada pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences e considerada a mais famosa do cinema mundial. 

Cercada de prestígio e glamour, ela também se transforma, em muitos momentos, em palco de posicionamentos políticos, militância e gestos de resistência em favor de minorias ao redor do mundo.

Na premiação de ontem, por exemplo, Javier Bardem iniciou sua fala pedindo “Palestina livre” enquanto trazia presos à roupa os dizeres “no a la guerra”. 

Seu gesto não apenas o posicionou diante de uma das questões humanitárias mais urgentes de nosso tempo, mas também fez ecoar esse posicionamento dentro de uma cerimônia criada e difundida pela própria indústria estadunidense, sendo os EUA principal aliado de Israel contra a Palestina.

E esse tipo de gesto não é incomum na história da premiação. 

No Oscars de 1973, Marlon Brando venceu a categoria de Melhor Ator por "O poderoso chefão", mas como forma de protesto, enviou a ativista indígena Sacheen Littlefeather para recusar o prêmio em seu nome. 

No discurso, ela denunciou a forma como os povos indígenas eram retratados no cinema e a violência sofrida por comunidades nativas nos Estados Unidos.

Mais recentemente, em 2020, Joaquin Phoenix venceu o prêmio de Melhor Ator por "Joker" e usou seu espaço de discurso para denunciar: desigualdade social, racismo, exploração animal e crise climática. 

Em um dos trechos mais comentados, Phoenix criticou diretamente a indústria alimentícia e falou sobre a relação humana com os animais e o planeta.

É curioso observar como, mesmo em um evento cuja magnitude não reflete necessariamente uma suposta superioridade do cinema hollywoodiano, mas sobretudo o poder econômico e cultural dos Estados Unidos e sua gigantesca máquina de mídia e marketing, acabam surgindo fissuras por onde irrompem debates políticos, tensões do presente e vozes que insistem em se fazer ouvir. 

Em meio ao lobby, a ostentação do luxo e à rede de influências que atravessa uma cerimônia desse porte, algo ainda escapa ao controle do espetáculo: a lembrança de que a arte do cinema, como qualquer forma de expressão artística, nunca se encontra apartada do mundo que a produz. 

Mesmo ali, sob as luzes do glamour e da consagração da indústria, a realidade insiste em atravessar a cena.

Entendo quem não dá a mínima para a premiação, seja por simplesmente não se importar ou por detestar demais toda contradição envolvida... mas eu que sou do time da festa e também gosto um bocado de cinema costumo acompanhar e brincar de torcer e vibrar enquanto conheço uns bons filmes, atores e diretores de vários lugares do mundo.

Acredito que é possível se divertir sem abandonar uma leitura crítica das contradições inerentes a uma premiação como essa no mundo capitalista em que vivemos. 

Talvez o exercício mais honesto não seja fingir que essas contradições não existem, nem rejeitar completamente tudo o que nasce dentro delas. 

Talvez o ponto seja justamente sustentar esse desconforto: olhar para a engrenagem, entender o que a move, perceber seus limites e ainda assim permitir-se encontrar ali alguma beleza, alguma provocação, alguma arte que valha a pena... pois ao mesmo tempo que a arte não serve para nada é que ela pode servir a absolutamente tudo.

A crítica não precisa nos afastar da experiência, mas pode fazer parte dela, nos mantendo atentos e posicionados sobre as questões de nosso tempo.

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